Itamar, Doramar e um Brasil impressionante - Jornal Plural
26 ago 2021 - 8h45

Itamar, Doramar e um Brasil impressionante

Como dói conhecer esse Brasil pelas palavras de Itamar Vieira Junior. Dói. Como nós devemos muito às populações negras e indígenas

“Quase todos tinham também feridas na alma. Apenas um de nós havia feito a travessia de navio de lá para cá. Ele nada contava, quase não falava, mas tínhamos certeza que ele havia enlouquecido ao ver corpos sendo atirados ao mar – era o que os africanos diziam – e também ao perceber que não pertencia mais a lugar nenhum.”

Um trecho do conto “Farol das Almas”, do livro Doramar ou a Odisseia.

Comprei, e demorei para ler. Na verdade, ainda estou lendo. Relendo. Virou livro de cabeceira. Daquelas obras a que você recorre sempre que precisa mergulhar numa leitura BOA.

Não pertence mais a lugar algum: a síntese do povo afro-brasileiro.

Uma leitura que te leve para o teu próprio país. Um país que gente como eu – urbana, do Sul, branca – não conhece. 

Ai. Ai. Como dói conhecer esse Brasil pelas palavras de Itamar Vieira Junior. Dói. Como nós devemos muito às populações negras e indígenas. 

No conto “Alma”, uma jornada por tempos e tempos na alma de uma mulher negra: “Caminhei por muitas luas cheias, sob o sol de fogo, minhas mãos estavam sujas, (…) eu manejava as ervas que encontrava no meio da mata e fazia unguentos com as poças d’água “.

Nas almas de todas as mulheres negras. 

“O Que Queima” é um paralelo entre uma mulher que compra uma casa com o marido – ela já não pode mais engravidar, foram vinte anos economizando para a aquisição do imóvel – e um indígena que, prevendo as queimadas que vão tomando conta da floresta, se prepara para a morte. A mulher é assombrada pelo espírito da antiga proprietária.

Assim como “Na Profundeza do Lago”: uma mulher descobre o porquê da falta de água numa aldeia. Não conto o final. 

É impressionante como Itamar Vieira Junior domina a narrativa, o fluxo, as palavras; e conduz você por um Brasil machucado, dolorido, que cheira a morte, fumaça de fogo, armas, mau gosto; tudo que um país governado pela extrema direita ignorante emana.

Publicado pela Todavia, depois do imenso e merecido sucesso de Torto Arado – outra obra impressionante desse autor baiano, geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA – é tão espetacular que encerro aqui a resenha sobre o livro. Comprem. Comprem. Comprem.

Mixórdia

Filmes. Não foi fácil fazer uma seleção. Ainda bem que o cinema brasileiro nos últimos anos resiste e cada vez mais, mostra o Brasil real.

Madame Satã, de Karim Ainouz, traz a história de João Francisco dos Santos, homossexual, negro e ex-presidiário, na época dos anos 1930 na Lapa, Rio de Janeiro. Filme obrigatório. Com Lázaro Ramos e Marcélia Cartaxo. Netflix.

Cena de Madame Satã, de Karim Ainouz.

My Name Is Now, documentário sobre Elza Soares, dirigio por Elizabete Martins Campos. Não assisti. Amazon Prime.

Do blog Singularidades retirei mais alguns.

Amarelo, documentário sobre Emicida, relembra e celebra o legado da cultura afro-brasileira, Netflix; Branco Sai Preto Fica, longa-metragem que mostra a rotina de dois homens negros que tiveram suas vidas marcadas depois de um tiroteio em um baile funk na periferia de Brasília, Netflix; A Negação do Brasil, uma jornada pela história da telenovela brasileira onde o cineasta Joel Zito Araújo analisa preconceitos, estereótipos e tabus em torno da atuação dos atores negros.

E uma playlist minha, Doramar ou aOdisseia (escrito errado assim!) com Clara Nunes, Sandra de Sá, Elza, Tereza Cristina, Lia de Itamaracá, Dona Odete e mais uma porção de vozes brasileiras.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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