25 nov 2021 - 8h15

Giovana, uma escritora madura em Suíte Tóquio

O romance é sobre maternidade. E traz sentimentos de mulheres

Feminista e ativista do meio ambiente. Escritora e roteirista. Mãe. Giovana Madalosso – sim, é curitibana, moradora de São Paulo faz tempo – escreveu Suíte Tóquio, um romance que saiu pela Todavia, que pega o leitor pelo cangote, carrega no colo, joga num ônibus, num motel barato, num avião e numa paixão entre mulheres.

Ela escreveu, também, A Teta Racional, livro de contos que eu li logo depois de Suíte Tóquio. O romance é melhor. A escrita amadureceu. Giovana também.

“Enquanto ele fala com a mãe de uma tal de Bebel, fico pensando o que aconteceu comigo para eu me tornar uma turista na minha própria casa, boiando num tapete com um coquetel em punho e retribuindo emojis de dedo com emojis de língua.“

Trecho de Suíte Tóquio, em primeira pessoa na voz de Fernanda, executiva de audiovisual, moradora de São Paulo, casada com Cacá – um homem que cuida da filha e ganha menos que a mulher – e apaixonada por uma mulher que “passa” pela vida dela.

“… descobri uma coisa curiosa, que a gente pode economizar o choro que nem economiza moedas. Eu guardava a quinzena toda e domingo de folga abria o cofre, a chave era o disco do Elton John, eu deitava na sala com as cortinas fechadas, punha Blue Eyes e soluçava de acordar os vizinhos”.

Do mesmo livro, agora na voz de Maju, babá de Cora, filha de Cacá e Fernanda. Ela rapta a menina e é invisível para Fernanda. Maju lê, ouve vinis, é apaixonada.

O romance é sobre maternidade. E traz sentimentos de mulheres. Acredito que toca mais mulheres do que homens, pra falar de apenas duas orientações sexuais. Giovana me disse que “é como se a maternidade abrisse em nosso emocional um corte mais fundo, uma nova camada, que nos permite sentir mais alegria e satisfação, mas também mais medo e mais dor”.

Se tornar mãe te mudou muito?

Ser mãe ampliou meu espectro de emoções e também me ajudou a colocar muita coisa em perspectiva, o que acabou enriquecendo a minha escrita. Além disso, dar luz a uma mulher me fez repensar as questões do feminino. Depois que a Eva nasceu, me tornei feminista. Teria me tornado de qualquer maneira – não há como não ser feminista, mas com certeza ser mãe de uma garota me dá energia extra para lutar por certas pautas.

Maju é um amor de pessoa. Fernanda é detestável no início; no fim, ela é uma mulher como tantas em cidades grandes. Que parte tua é Maju e que parte é Fernanda? Se é que tem isso.

Todos os meus personagens partem de uma fagulha pessoal, em maior ou menor escala. A Fernanda, de Suíte Tóquio, nasceu da minha própria dificuldade em ser mãe, em me conectar com a minha filha, inclusive em amar, porque ao contrário do que se pensa, o amor materno não nasce imediamente, é construído dia-a-dia, como qualquer outro amor. Para criar a personagem Maju, eu parti de um lugar oposto, de um amor desmedido, que eu também sentia às vezes – o que só prova a complexidade e ambivalência desse sentimento.

Fernanda busca Maju pelo endereço, mas ela não o tem. Maju é um adereço, um objeto para Fernanda?

Quando Cora e a babá somem, em nenhum momento Fernanda se preocupa com a babá. Poderiam ter sido assaltadas, violentadas, mas Fernanda nunca pensa além da filha. E não pensa porque não exerga a babá como uma pessoa. Essa é uma cegueira muito comum no Brasil, um resquício escravagista, infelizmente ainda tão presente em 2021.

Você pesquisou para construir Maju?

Pesquisei muito. Quando decidi que a babá teria nascido e sido criada em uma fazenda de bicho da seda, fui até uma propriedade dessas, em Mandaguaçu, no interior do Paraná, perto da sede do Casulo Feliz. Cheguei a trazer, para São Paulo, dez lagartas vivas, que alimentei e criei, para desespero da minha filha, que ficou morrendo de medo delas. Para escrever a história de Fernanda, também me desloquei, fazendo a viagem que ela e Yara fazem até a Amazônia, no alto do Rio Gregório, num percurso de vinte quatro horas entre avião, camionete e embarcação.

Cacá é um homem como milhares de homens são hoje. Porque você optou por um personagem assim, e não um marido que tem amante?

Acho que somos oprimidos por papéis de gênero, por um conjunto muito rígido de expectativas. Existe uma ideia de que mulheres têm mais talento para cuidar dos outros. Essa é uma ideia, uma construção, não necessariamente um fato. Às vezes, o homem tem mais talento para cuidar da casa e dos filhos e a mulher tem mais talento para ocupar o lugar do provedor. Foi isso que eu quis mostrar, que os papeis podem se inverter e tudo funcionar perfeitamente. Ou ainda melhor.

Você usa, nos dois livros, linguagem que mistura palavrões e termos como “teta”, junto a recursos simples, como “em como seria se trocássemos de lugar, nos despedimos e voltamos para nossos postos…”. É uma escolha tua?

Algumas pessoas sugeriram que eu trocasse a palavra teta por seio, mas por que eu faria isso? Para atenuar o incômodo de quem? Eu queria me referir ao órgão que amamenta, que nutre a relação animalesca com a cria. Teta é a palavra para isso. Talvez soe chula ou desconfortável para alguns homens, os mesmos que não gostam de ver mulheres amamentando em público, mas esse problema é deles. Meu vocabulário é livre, não irei castrá-lo pelo olhar pudico de terceiros.

As escritoras brasileiras estão em alta. Você acredita que isso vai durar?

Demoramos milênios para ter espaço e poder de fala. Agora ninguém tira esse lugar da gente.

Você escreve num blog sobre meio ambiente, Fervura. Dedica quanto tempo a pesquisar e escrever nele?

A crise climática é o assunto mais importante que existe hoje. Em poucos anos todos nós seremos afetados por essa catástrofe, em maior ou menor escala. Infelizmente, dedico pouco tempo ao Fervura. Gostaria de dedicar mais, porque precisamos agir com urgência contra o lobby do petróleo e o desmatamento provocado pelo governo Bolsonaro. A Amazônia está muito perto de atingir o ponto de não-retorno, quando não teremos mais o que fazer para frear as alterações de temperatura e do regime de chuvas, com a consequente queda na produção de alimentos.

Já dá para viver da escrita?

Sempre vivi da escrita. Como redatora, roteirista, cronista e, agora, como escritora.

Tem algum recado para mulheres escritoras?

Durante muito anos ouvi, de diversas pessoas, que minhas histórias não interessavam a ninguém. Meu conselho para qualquer escritor iniciante é: não dê ouvidos para detratores, toda história é interessante, basta achar uma boa forma de contá-la.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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