26 fev 2021 - 1h00

Da imortalidade das sementes teimosas

Nas minhas aulas, eu costumava provocar os alunos, dizendo: as galinhas são imortais! Agora também posso dizer o mesmo das abóboras. E eles me olhavam com essa mesma cara de espanto que você deve estar fazendo agora

O ano era 2020, outubro corria solto. Trancados como o resto da humanidade, tendo improvisado todos os aniversários do ano e mais uma festa junina em casa com gincana (porém sem quentão), só nos restava comprar meia dúzia de abóboras para as crianças esculpirem seus monstros no Halloween. Rimos, brincamos, comemos. Mas, no apagar das velas, o que fazer com tanta abóbora? Esquartejamos os monstros, compostamos as cascas, inventamos um nhoque e plantamos as sementes. Fim! (Braços para cima imitando os atletas de ginástica olímpica quando terminam o movimento em pé.)

Então as sementes brotaram.

Se você já tentou plantar abóboras algum dia, deve se lembrar que não estamos falando de um vegetal qualquer, mas de uma praga. Não importa o que aconteça, ABÓBORAS QUEREM VIVER (em caps lock!) E elas vão exercer esse direito reivindicando toda a energia solar do cosmos e tomando cada espaço da terra e do ar para poder, da noite para o dia, florescer e se multiplicar, exibindo seus rebentos majestosos, como dita o mandamento.

E uma vez cumprida sua missão, ela morre.

Não, pera, porque aquelas sementes teimosas que você pensou que seriam comidas pelas minhocas na composteira já estão brotando outra vez. E lá vamos nós fazer nhoque.

Nas minhas aulas, eu costumava provocar os alunos, dizendo: as galinhas são imortais! Agora também posso dizer o mesmo das abóboras. E eles me olhavam com essa mesma cara de espanto que você deve estar fazendo agora (Onde raios ela quer chegar? O que isso tem a ver com arte?).

Hanna Arendt, para descrever A Condição Humana, dizia que nós somos as únicas coisas verdadeiramente mortais, porque, ao contrário dos outros seres vivos, não existimos apenas como membros de uma espécie cuja vida imortal é garantida pela procriação.

Hanna Arendt. Crédito da foto: arquivo.

“Essa vida individual difere de todas as outras pelo curso retilíneo de seu movimento que intercepta o movimento circular da vida biológica. É isso a mortalidade: mover-se ao longo de uma linha reta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido cíclico.”

Entre a imortalidade e as sementes de abóbora, volto a um tempo em que essa noção de caminhar em linha reta, de progresso, ainda não existia, em que nascimento e morte não estavam nas pontas, mas desenhavam as bordas de uma existência que se dava no interior de um espaço circular. 

Espremo o lápis contra o papel para traçar uma circunferência (linhas paralelas nunca se encontram). Num exercício de curadoria mental, pergunto como a arte poderia me ajudar a contornar essas bordas.

Não sei se escolho, porque eles parecem me escolher, então direi que os vejo. Em nítida aparição, lá estão eles: O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch e Os Embaixadores, de Hans Holbein.

O primeiro, uma alegoria da criação.

O segundo, a lembrança da morte.

Mas como habitar o interior desse círculo?

(Deslizo o lápis no papel até que toda a área esteja preenchida, tomando o cuidado de deixar alguns espaços vazios, onde você pode sentar para desenhar ou esculpir seus monstros.)

Duas das mais antigas mulheres artistas que podemos nomear se apresentam para a missão: Hildegard von Bingen, Bourgot Le Noir.

Mas comecemos pelas bordas:

Você já deve ter visto imagens do Jardim das Delícias Terrenas, mas talvez não saiba, ou não lembre, que fechada, a obra é uma figura una, onde Bosch nos apresenta o universo recém-nascido submergindo das águas em uma esfera transparente, no terceiro dia da criação. O mundo, ainda sem vida, está pintado em tons grises, branco e preto, em contraste com o colorido povoado por uma infinidade de seres animados em seu interior, dividido em três atos.

O tríptico fechado: A Criação do Mundo. Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas (1504).

Um tríptico, o terceiro dia, o número três que em si mesmo encerra o princípio e o fim. Três partes que, ao se fecharem, transformam-se novamente no número um, no círculo: a perfeição absoluta. No canto superior esquerdo surge uma pequena figura (Deus?), onde se lê a frase, extraída do salmo 33: IPSE DIXIT ET FACTA SUNT / IPSE MANDAVIT ET CREATA SUNT, que significa “Ele o diz, e tudo foi feito. Ele o mandou, e tudo foi criado”.

Ao abrir-se, o tríptico apresenta, no painel esquerdo, uma imagem do paraíso no último dia da criação. Deus, ao centro, parece ordenar: crescei-vos e multiplicai-vos. Pequenos animais, símbolos de fertilidade, brincam aos pés de Eva e Adão.

Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas (1504). (Dica, você pode ver os detalhes e passear por essa imagem em alta resolução aqui.)

A explicação mais comum para o painel central é a de que este representa a luxúria. Porém, tendo Deus ordenado que Adão e Eva se multiplicassem, não seria este segundo quadrante a consequência desta ordem?

Por último temos a tábua da direita, onde está o inferno. Um detalhe, uma pequena mão, no mesmo gesto (Salvator mundi) de ordem divina do primeiro painel, surge amputada, atravessada por uma faca presa a um escudo azul que esmaga ao mesmo tempo um homem, um animal e algumas frutas sobre o chão. Estaria Deus morto? Não seria a inscrição no painel fechado – “Ele o diz, e tudo foi feito. Ele o mandou, e tudo foi criado” – a responsável por tudo o que veio depois, do princípio ao fim? Um mundo criado e encerrado em si?

Um animal é recorrente nos três painéis: a coruja. Uma característica peculiar da alimentação das corujas é que elas engolem suas presas por inteiro e regurgitam fragmentos de ossos e outras coisas que não são capazes de digerir. Essa coruja no terceiro painel aparece engolindo humanos inteiros e os defecando.

Detalhe: O Jardim das Delícias Terrenas.

Uma lenda medieval dizia que as corujas apareciam para comer a carne dos que estavam para morrer e que aqueles que se aventurassem a comer sua carne, conseguiriam poderes de clarividência, podendo prever o futuro. O que estaria essa coruja anunciando? Numa época em que homens se lançavam ao mar à conquista de novos mundos, em que a Europa ainda sofria com a peste, em que o conhecimento científico ameaçava o poder da igreja, e mais parecia dividir o mundo do que unificá-lo, Bosch parece anunciar que o inferno está exatamente aqui, neste mesmo mundo.

O tamanho relativamente pequeno das figuras nos coloca em uma posição de observadores externos da cena que se desdobra. A estrutura da obra conta com um enquadramento simbólico: ao abrir-se, fecha-se, pois no seu interior está o princípio e o fim humano. Ao fechar-se, abre-se novamente para o princípio. É desse ponto privilegiado que podemos observar o que fizemos da criação. Seremos nós responsáveis por salvar ou recriar o mundo, no topo do canto esquerdo?

Detalhe: Jardim das Delícias Terrenas, tríptico fechado.

Eu poderia terminar aqui, mas descubro que há outro Jardim, homônimo e anterior ao de Bosch. O Hortus Deliciarum (Jardim das Delícias) é uma obra manuscrita, ricamente iluminada pela abadessa, escritora, musicista, cientista e artista iluminadora Hildegard von Bingen (1098-1179). São mais de 600 páginas que incluem reflexões sobre mitologia, história, geografia, astronomia, e também sobre aspectos práticos do cotidiano. O volume termina com algumas peças musicais da liturgia do mosteiro, compostas pela própria Hildegard que você pode ouvir aqui.

Uma dessas peças musicais, intitulada “O Virtus Sapientiae“, diz:

O virtus Sapientiae,  

quae circuiens circuisti,

comprehendendo omnia

in una via, quae habet vitam,

tres alas habens:

quarum una in altum volat,

et altera de terra sudat,

et tertia undique volat.

Laus tibi sit, sicut te decet,

O Sapientia.

Ó potência da sabedoria,

que, circulando, circulou,

envolvendo tudo

em um caminho de vida,

três asas você tem:

uma voa para as alturas,

outra semeia sua essência na terra,

e a terceira está em toda parte.

Louvada seja, como se deve

Ó Sabedoria.

O círculo, as três asas que se abrem como o jardim de Bosch, mas sobretudo o “virtus”, da qual deriva a palavra “virtual”: aquilo que existe em potência (como a abóbora que já existe na semente).

Tal qual sua música, as iluminuras de Hildegard von Bingen potencializam essa visão circular da vida, do qual a humanidade depende e ao qual deve se integrar.

Representação medieval de uma terra esférica com diferentes estações ao mesmo tempo, do Liber Divinorum Operum – (O Livro das Obras Divinas).
O Universo ou Ovo Cósmico, iluminura do manuscrito Scivias, (ca. 1165), de Hildegard von Bingen.

Um espectador menos ingênuo veria algo mais interessante do que um “ovo” nesse universo imaginado pela freira alemã no século XII, a menos, claro, que de fato cresçam cabelos (e um clitóris!) em ovos. Ovo ou vulva, o que Hildegard nos apresenta é um tratado teológico muito detalhado sobre o cosmos e como ele se move ciclicamente, entre o nascimento e a morte.

Numa outra pesquisa recente, descobri que há diversas outras “vulvas” representadas em manuscritos medievais, que reforçam a ideia de fertilidade de um universo cuja origem e manutenção da ordem são femininos.

Mas enquanto a ideia de um cosmo cíclico e aconchegante como o ventre materno nos confortava na Idade Média, no Renascimento somos lançados nus, num universo infinito e em expansão. É a tal vida em linha reta que surge com o nascimento do indivíduo, aquele ser único e “verdadeiramente mortal” que descrevia Hannah Arendt.

Talvez por conta disso, no século XVI, proliferaram as obras que incluíam, explícita ou implicitamente, imagens de Memento mori (literalmente “lembre-se da morte”), conceito fundado no estoicismo, que trata a morte como algo natural e certo que não deve ser temido, mas sim elaborado.

Duas iluminuras, atribuídas à artista Bourgot Le Noir, produzidas para o livro de orações da esposa do futuro rei da França, Bonne de Luxemburgo, trazem esse conceito de uma maneira pouco usual. Na página da esquerda, vemos três nobres a cavalo. Na da direita, três corpos em diferentes estágios de decomposição. Os mortos parecem zombar dos cavaleiros. O texto que complementa a figura, diz: “O que você é, já fomos. O que somos, você será.”

O Livro de Horas de Bonne de Luxemburgo, Folio 321-322: Os três vivos e os três mortos.  Fonte: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/471883.

Uma técnica em particular nesse manuscrito chama a atenção. Note que as páginas são ornamentadas efusivamente com elementos da fauna e flora. Ao todo, contam-se 200 pássaros de 40 espécies diferentes detalhados no livro. As figuras humanas, ao contrário, são representadas utilizando uma técnica chamada grisaille, que em francês significa “pintura em tons de cinza”. Se olharmos o fundo colorido dessas figuras humanas cinzentas, percebemos o esforço da artista em representar a diversidade da vida que persiste, além e apesar da humanidade.

O Livro de Horas de Bonne de Luxemburgo, Folio 83: Os bobos.

Nessa outra página, dois homens em tons de cinza com criaturas fantásticas ao fundo são acompanhados da frase: “O tolo disse em seu coração: Deus não existe”.

Mas certamente o Memento Mori mais peculiar da História da Arte está escondido no quadro Os Embaixadores, de Hans Holbein. A imagem é aparentemente construída de forma direta e tradicional, mostrando homens instruídos com seus instrumentos. Certos detalhes poderiam ser interpretados como referências às divisões religiosas da época. Mas o que mais chama a atenção é um borrão, em primeiro plano. Trata-se de uma anamorfose.

Os Embaixadores (1533), do pintor alemão Hans Holbein.

Se nos colocarmos em pé, ao lado direito da obra (veja que a posição “ao lado de” de certa forma nos coloca também dentro da imagem), e olharmos “de revesgueio” para o quadro, a distorção é corrigida e, no lugar do borrão, vemos nitidamente um crânio. Mas por que a distorção?  (Sobre esse olhar de “revesgueio”, o Cezar Tridapalli já escreveu aqui.)

Arrisco dizer que, ao forçar-nos a olhar a figura sob outro ponto de vista, Holbein nos questiona sobre a própria ideia de verdade: onde estaria? Quando percebemos que a morte nos encara, esta sim de frente, todo o resto aparece distorcido. O que Holbein constrói em seu quadro é uma arquitetura, nos colocando lado a lado com os embaixadores, que nos permite lembrar: “o que somos você será”.

Se a morte é certa e a vida imensa, o que sinto agora (já se passaram dias desde que comecei a escrever esse texto) é uma brisa de ar úmido e fresco, comunhão conflituosa entre a minha pequena existência linear que, tal qual as abóboras, quer se fazer notar no esplendor de sua brevidade, diante da infinitude do universo.

Que sejamos sementes teimosas.


Para ir além

Condição Humana, Hannah Arendt.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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