Gastronomia e machismo | Jornal Plural
2 abr 2021 - 1h00

Gastronomia e machismo

Mulheres chefs ainda são minoria e enfrentam diariamente situações humilhantes e violentas nas cozinhas

Todo hype me gera desconfiança. Vejo muita gente indo numa só direção repentinamente e isso já me desperta, além de uma certa preguiça, um tanto de descrença. Com exceção do sucesso de Game of Thrones, a qual me arrependi amargamente de não ter cedido antes, geralmente o hype é só o que é: agitação exagerada em torno de alguma novidade ou evento e que passa na mesma velocidade que chegou. Na gastronomia há muito hype. Uns se justificam, outros nem tanto, mas muita coisa não passa de pura desimportância passageira à medida em que se aproxima a novidade seguinte.

O mês de março é considerado o mês da mulher e no dia oito do mês é comemorado seu dia internacional. A data simboliza a luta histórica pela equiparação de direitos entre gêneros e foi oficializada pelas Nações Unidas na década de 1970. Há uma comoção geral nas redes sociais neste dia. De um lado, mulheres engajadas exortando lutas e conquistas, muitas vezes fazendo sua audiência partícipe de suas demandas, e, do outro, muitos homens dando parabéns às “mulheres”. Alguns são mais específicos – ou honestos – e ficam restritos a parabenizar e elogiar suas esposas, mães, irmãs, uma prima, que o valha, mas não vai muito além do círculo familiar próximo. A intenção é boa, acredito, mas estes parabéns irrefletidos não passam de puro hype! E como bom exemplo do fenômeno, a consciência reflexiva gerada por eles desvanece já no dia nove de março, quando tudo volta ao normal.

A mídia também faz seu papel: exaltam-se as Helenas Rizo, as Manus Buffara, as Paolas Carosela e mais umas tantas expoentes da gastronomia nacional, que merecidamente chegaram ao pódio de suas profissões. Com algumas menções ao machismo presente nas cozinhas e comentários na linha do: “já foi muito pior” ou “ainda temos muito a melhorar”, encerram-se as notícias de maneira a glamourizar a exceção representada pelo sucesso individual destas mulheres. Será que não chama a atenção de ninguém o disparate estatístico entre a quantidade de cozinheiras e aquelas que chegam ao topo? Por que a maioria das mulheres na gastronomia desempenham papéis coadjuvantes num campo historicamente dominado por elas? Por que em 2019 só 5 dos melhores 50 restaurantes do mundo eram comandados por mulheres?

Paola Carosela.

A resposta é complexa, é claro, porém, uma das questões cerne desta problemática é: mulheres não estão em posição de destaque na gastronomia porque são impedidas de tal. Em pleno 2021 não há razão para acreditar que haja um fator biológico diferente entre homens e mulheres que seja determinante para este fim – estão aí as nossas avós, batendo bolo no braço até hoje para nos convencer do contrário. A razão, como em toda a cultura machista permeada na sociedade, é mais estrutural e passa por um acordo tácito entre homens para que as coisas permaneçam do jeito que estão. Os parabéns das redes sociais e não a crítica fundamentada da injusta situação feminina, funciona como um pedágio moralizante, que pouco resolve ao mesmo tempo que isenta o homem de ação mais aprofundada.

Não é só na retórica facebookiana que a situação se desenrola, Do lado de fora, de forma bastante real, a violência se manifesta como uma das ferramentas usadas para dar continuidade a esse impedimento sistêmico. Os casos são inúmeros de assédio no ambiente de trabalho. De acordo com o relatório do estudo “Assédio moral no trabalho, gênero, raça e poder”, publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional em 2018, mulheres sofrem mais assédio moral do que os homens e 65% das entrevistadas relataram atos repetidos de violência psicológica, contra 35% dos homens. As evidências não param por aí: páginas no Instagram, como o @basta.br relatam situações humilhantes vividas por mulheres na gastronomia. Situações reais de violência psicológica, física e sexual são tornadas públicas na página. A leitura causa indignação e revolta instantâneas!

O acosso não se contém entre as quatro paredes da cozinha ou restaurante. Aqui em Curitiba há um exemplo categórico, relativamente recente. Em dezembro do ano passado, o bar Rua Pagu teve seu muro vandalizado. O estabelecimento, conhecido pelo seu posicionamento abertamente feminista, de acolhimento e promoção da inclusão, havia promovido uma oficina no março de 2020, convertendo um muro do estabelecimento em arte urbana. O mesmo que continha mensagens valorizando pautas feministas, acordou com os dizeres: “Tudo Puta” e o desenho de um pênis gigante por cima das artes.

Auguste Ecoffier.

Auguste Ecoffier, o famoso chef francês, em discurso de 1890 defendia abertamente a expulsão das mulheres da cozinha, pois considerava sua arte superior a meros afazeres domésticos desempenhados por mulheres. Aparentemente, o cozinheiro fez escola não só pela sua gastronomia, já que, hoje em dia, mulheres continuam a ser expulsas ou impedidas na cozinha de forma tão violenta – ou mais – quanto foram pelo esnobe e desatualizado cidadão do século retrasado. Chefs de cozinha relegam às mulheres a tarefa de impedir sozinhas estes abusos, quando não são muitas vezes os próprios protagonistas da violência por elas sofridas.

O declarado preconceito atravessou os séculos, transformando-se em acordo tácito mantido por homens que protagonizam a gastronomia em detrimento das mulheres. Deste mesmo acordo, brota o lugar que autoriza esse comportamento predatório e violento. Não é possível imaginar um ataque como o que sofreu o Rua Pagu a uma hipotética galeria com nomes de jogadores de futebol, por exemplo, mesmo que algumas alcunhas como estuprador, ladrão, sonegador e assassino sejam nada além de merecidas aos homenageados. Uma mulher não habita este lugar que legitimiza a violência, próprio do machismo na nossa sociedade.

Do que temos medo, nós homens? Se nos tirarem o protagonismo talvez não devêssemos estar nos perguntando se deveríamos estar ali, para começar? Temos medo de uma gastronomia mais plural, mais engajada, mais colaborativa? Temos medo de equipes que trabalham em ambientes mais seguros e portanto produzem mais?

Nada justifica nos isentarmos desta briga. Há de se buscar equidade em nossas relações todas. Há de denunciar, incentivar e acolher. Só assim faremos justiça à memória afetiva das comidas das nossas antepassadas. Portanto, devemos empenhar esforços para entender a situação que passam as mulheres, ouvi-las e nos colocarmos em seu lugar de forma que num próximo oito de março – e todos os outros dias – o parabéns não seja só puro hype


Para ir além

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