Travessuras de um leitor diante de Vargas Llosa | Plural
18 abr 2019 - 13h00

Travessuras de um leitor diante de Vargas Llosa

Travessuras da Menina Má fez Marcelo Almeida seguir os passos dos personagens em Paris

No dia 11 de fevereiro, eu estava escrevendo minha coluna para o Plural quando recebi a notícia do acidente aéreo que matou o apresentador Ricardo Boechat. Confesso que sentei em um sofá e chorei.

Hoje, novamente, enquanto escrevo fico sabendo que um grande incêndio atingiu a catedral de Notre Dame. Lá se foi um pouco dessa cidade tão apaixonante que é Paris… lá vem a vontade de chorar de novo. Bem hoje que – veja a coincidência! – meu plano é viajar com você e Mario Vargas Llosa para lá, para Paris.

Vargas Llosa tem 83 anos, é peruano, tem opiniões fortes sobre a atualidade e, para mim, está entre os melhores escritores do mundo.

Travessuras da Menina Má é a história de um peruano de 15 anos chamado Ricardo e uma moça, Lily, que é deslumbrante. Os dois se conhecem em um baile e ele se apaixona por ela, dando início a um amor incontrolável. A tia do garoto alerta: “Cuidado, Ricardito, essa menina é da pá virada!” Claro que não adianta. Ele se apaixona de maneira tão intensa que essa paixão te puxa para dentro do livro. A certa altura, dá uma vontade enorme de segurar no braço da Lily e pedir que seja mais contida e, ao mesmo tempo, segurar no braço de Ricardito, levá-lo para uma caminhada e oferecer alguns conselhos para ver se ele se torna menos banana.

Este livro me levou para Londres, Madri, Tóquio e Paris, seguindo os passos da menina má e de Ricardito. Eu quis tanto viver com intensidade esse amor tão lindo e imprevisível que acabei indo a Paris para refazer os passos do casal. Primeiro, fui até a Pont Neuf (Ponte Nova), a mais antiga ponte que cruza o Rio Sena e tentei imaginá-los ali. Depois fui caminhar na Avenida Saint-Germain-des-Prés rumo ao café Les Deux Magots, onde os intelectuais e artistas de outros tempos se encontravam, como Ernest Hemingway, Simone de Beauvoir e Pablo Picasso. Pedi um pain au chocolat (ou seja, um croissant de chocolate) e um café latte (nosso café com leite). No livro de Vargas Llosa, foi esse o café da manhã do casal. Sentei à mesa que Ricardo e Lily ocuparam – assim eu imaginei.

O café Les Deux Magots era frequentado por personalidades como Ernest Hemingway, Simone de Beauvoir e Pablo Picasso.

Saí dali com a certeza de que deveria aprender francês. Na volta a Curitiba, me matriculei na Aliança Francesa.

Mas não foi só essa vontade que o livro provocou em mim. Quis muito conhecer o Vargas Llosa porque fiquei com a impressão que aquele romance era real e que ele era o menino apaixonado. Queria ver Ricardito pessoalmente! Eu era deputado federal e presidente da Frente Parlamentar do Incentivo ao Livro e à Leitura e, quando Vargas Llosa veio ao Brasil, tempos depois, pedi para representar a Câmara Federal no evento Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre, onde ele iria falar. Seria a chance de tirar minha dúvida: o Ricardito era o próprio Vargas Llosa?

No local da conferência, me pediram para colocar na lapela uma credencial extravagante, em forma de flor, como um girassol. Me senti ridículo, como se estivesse me passando pelo cantor Falcão. Nem tive tempo de me acostumar com o “adorno” e me encaminharam para uma sala. Lá dentro, sozinho, sentado em uma poltrona e com o mesmo girassol escandaloso na lapela, estava Mario Vargas Llosa.

“My name is Marcelo Almeida. I’m from Curitiba” – me apresentei em inglês, já que não falo em espanhol.

“Fale em português mesmo, por favor” – me respondeu meu ídolo na nossa língua.

Não quis enrolá-lo. Contei que tinha lido dez livros dele e que precisava fazer uma pergunta: “O senhor é o Ricardito?” Ele negou. “Nunca sou personagem dos meus livros.”

Aquilo me deu uma tristeza enorme porque eu acreditava que Ricardito existia, de tão real que ele me pareceu no romance, e que eu estava diante dele.

Mas o que conta é que tive a oportunidade de cumprimentar o escritor maravilhoso, que naquele mesmo ano recebeu o prêmio Nobel de Literatura.

Para ir além

Travessuras da Menina Má – Mario Vargas Llosa, Editora Alfaguara

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