Quando os personagens moram na Rua Schiller | Jornal Plural
5 set 2019 - 21h32

Quando os personagens moram na Rua Schiller

Cezar Tridapalli é um autor que ama Curitiba, como Cristovão Tezza

Hoje escrevo sobre um amigo escritor. Ele é talentoso e um grande cara por vários motivos. Com ele o café com leite fica mais gostoso, o passeio de carro mais leve. Nos bate-papos literários de que participamos juntos, tive sempre uma experiência boa. É um homem de alma boa. O nome dele é Cezar (com z) Tridapalli.

Leia mais: O leitor vai em busca das personagens de Cristovão Tezza

Eu gosto da maneira que ele escreve. Diria que há uma semelhança com o Cristovao Tezza: são dois autores que adoram Curitiba e, suponho que por esse motivo, sempre há cenas com referências a avenidas, ruas, parques e locais que fazem parte do nosso cotidiano.

Vamos falar sobre o livro “O Beijo de Schiller”. É a história de um escritor chamado Emilio Meister, casado com Eugenia. Eles têm uma filha de 20 anos, a Vitória.

O casal faz uma viagem até Santa Catarina, de carro, com a filha. Vitória fica por lá e o casal volta para Curitiba. Na subida da serra, param para fazer xixi e tomar uma água de coco. A parada é ali na estrada que liga Garuva a Itapoá. Quando retornam ao carro, sentem a presença de alguém no banco traseiro. Lá está um pivete, escondido, que encosta um revólver na cabeça dele e anuncia: “Isto é um sequestro.”

Eugênia tem certeza de que sabe lidar com pessoas daquela idade (20 anos), já que era a idade de sua filha. Porém não contava com um revólver apontado para a cabeça do marido…

Depois de chegarem a Curitiba, passando pela Avenida das Torres, vão para a Rua Schiller, onde moram.

Esse livro me ensinou o que é metaliteratura. A história do casal, da Vitória e do próprio pivete vai se revelando um livro que está sendo escrito pelo Emilio. É um relato sobre um sequestro que faz parte da vida de um menino chamado Luca, de 25 anos, virgem, que mora perto do estádio do Coritiba, no Alto da Glória. Sempre que o Luca vai ao Centro, passa pelo Passeio Público e fica olhando os frequentadores. Ao mesmo tempo, se envergonha desse interesse porque ali tem travesti, tem prostituta. Aquilo mexe com ele.

Enquanto isso, a vida do sequestrador e do casal vai se misturando. Eles começam a se acostumar um com o outro, como se o rapaz fizesse parte da família. Os três caminham muito ali pelo Jardim Ambiental, já que moram na Rua Schiller (a capa do livro traz a imagem de paralelepípedos do calçamento da Schiller). Numa das passagens, a Eugenia quer comprar roupa para o pivete. Eles entram em uma loja e ela o chama e mostra um moletom e uma calça que separou, mas diz que não sabe se o bolso é bom. O Luca pergunta por que e ela responde que o bolso não é fundo e por isso talvez não caiba o revólver. Com essa passagem o livro começa a nos pegar ainda mais. Há uma Síndrome de Estocolmo crescendo entre eles: o casal começa a gostar do rapaz e ele começa a se envolver com eles.

É um livro encantador porque tem essas passagens que nos envolvem. Uma narrativa que começa marcada pelo pavor da cena do revólver apontado para a cabeça e que, ao avançar, vai revelando a humanidade de todos eles. Não vou contar mais para não estragar o prazer de você, que vai comprar o livro e descobrir que beijo é esse que está no título.

O Beijo de Schiller. Ed. Arte & Letra. 272 págs.

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