Meu livro de cabeceira | Jornal Plural
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1 mar 2019 - 0h00

Meu livro de cabeceira

Marcelo Almeida conta como um encontro no Instituto dos Cegos o levou ao livro mais importante de sua vida

Muitas pessoas que cruzam o meu caminho, seja nos encontros literários e nas palestras que faço, seja nos cafés que frequento, me fazem duas perguntas. A primeira é “quantos livros você já leu?” e a segunda é “qual o seu livro preferido?”

Responder a primeira pergunta me deixa um pouco constrangido. No Brasil, que não é um país de leitores, parece uma extravagância ter uma estante cheia de livros. Eu tenho várias. São milhares de exemplares que guardo com carinho em casa. Como toda pessoa que se habitua a ler, tenho o impulso de comprar os títulos que despertam minha curiosidade mesmo que não possa lê-los imediatamente. Além disso, amigos me presenteiam com frequência com obras que acham que eu devo ler (“Você tem que ler isso, Marcelo!”).

Em resumo, prefiro ser vago. Quantos livros tenho? Muitos.

A segunda pergunta é fácil de responder. Meu livro favorito? Tenho uns 50 títulos que, como se diz por aí, eu salvaria de um incêndio, levaria para uma ilha deserta, ou – o que faço com frequência – recomendaria para os amigos. Porém, livro de cabeceira mesmo é apenas um e posso até contar como fui apresentado a ele.

Foi no dia primeiro de novembro de 2001. Eu estava visitando o Instituto dos Cegos, ali na Visconde de Guarapuava. A doutora Regina Boscardin, que na época dirigia o instituto, me presenteou com o Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, do filósofo francês André Comte-Sponville (Editora Martins Fontes). É ele, desde então, meu livro de cabeceira.

Aprendo tanto com esse livro! Ele me inspira, me impulsiona na direção de uma forma mais amorosa de ver o mundo e que, ao mesmo, é resultado de reflexão. Aquelas linhas fazem parte da minha vida e da pessoa que sou hoje.

Foi lendo Pequeno Tratado das Grandes Virtudes que aprendi: é melhor a alegria do que a tristeza, melhor a admiração do que o desprezo, melhor o exemplo do que a vergonha.

Essa obra me fez entender o que significa empatia e me impulsionou a desenvolvê-la dentro de mim. Foi nela que aprendi que amar é sair de si em direção ao outro.

Foi lendo o que diz Comte-Sponville que entendi que a simplicidade é a semente e o tempero de todas as virtudes. Sabe por quê?

Porque a simplicidade é leve, transparente e rara. Sempre faço questão de esclarecer: o oposto de “simples” não é “confuso” e sim falso. Já notou que tudo que é falso é complicado, emaranhado, opaco?

Outra descoberta: sempre achei que prudência fosse gêmea da cautela. Estava enganado. Prudência é tomar uma decisão com fé (luz), com sagacidade, usando como referência a nossa própria experiência de vida. Prudência é diferente de cautela porque não interrompe a ação ou o movimento. Na prudência você decide com sua sagacidade, com a luz sobre seus pensamentos, e age. A consequência dessa decisão não está sob nosso controle, não está nas nossas mãos e isso também é importante entender e aceitar.

A coragem é outra virtude maravilhosa, a mais invejada. Lendo este livro entendi como é importante ter audácia, ter olhos de águia e não de galinha, ou seja, ver do alto, com grandeza, e não se prender nos pequenos obstáculos. Aprendi que virtude se aprende de duas maneiras: pelos exemplos ou pelos livros. Ler, portanto, é um caminho a ser buscado por quem tem o desejo de se tornar um ser humano melhor.

Dito tudo isso, resumiria o que Pequeno Tratado das Grandes Virtudes me ensinou que a vida é curta para ser pequena.

André Comte-Sponville, o francês cujas palavras me acompanham graças àquele encontro no Instituto dos Cegos (noto agora a ironia entre o nome do lugar e a iluminação que o encontro me trouxe) vive em Paris, tem 66 anos e escreve sobre o mundo contemporâneo. Cita os filósofos clássicos, a mitologia, os grandes autores da literatura. Baseia-se no que há de melhor na aventura humana para resgatar as grandes virtudes, um termo um tanto fora de moda nos nossos dias, mas que agora faz parte da minha vida.

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