Encarando Saramago | Jornal Plural
11 dez 2019 - 22h28

Encarando Saramago

Ler “Ensaio sobre a Cegueira” foi como levar um soco no rosto

José Saramago é um autor que tive dificuldade para ler. Insisti e acabei devorando três livros dele. Vou falar aqui sobre um desses três, “Ensaio sobre a Cegueira”, que foi o primeiro que encarei. Já de cara enfrentei a dificuldade que voltaria a se repetir todas as vezes que li Saramago. Mas não é uma dificuldade intransponível. Tanto é que fui me acostumando com a literatura dele e aí a leitura fluiu bem.

Ler “Ensaio sobre a Cegueira” foi como levar um soco no rosto. O impacto começa na primeira página. Vou contar um pouco para provocar vocês. Tenho certeza de que vão ficar com vontade de ir atrás deste livro.

A história começa com uma situação comum de um dia que parece comum: um homem dentro do seu carro, parado no sinaleiro. Abre o sinal, fecha o sinal, abre de novo e ele não arranca. Ele não consegue sair dali. Os motoristas nos automóveis atrás dele começam a buzinar. Vem um desconhecido e — toc toc toc – bate no vidro do automóvel parado e pergunta:

— Você não vai sair daí? O sinal já abriu e fechou várias vezes!

Ele abre o vidro e responde:

— Eu não estou enxergando nada. Estou cego, tudo é branco.

O estranho diz que irá ajudá-lo. Fala para o motorista se sentar no banco do passageiro e ele próprio se instala atrás do volante. Vai dirigindo enquanto o outro orienta sobre o caminho até o lugar onde mora. Chegando lá, ele diz ao homem que perdeu a visão:

— Estou deixando teu carro aqui. Você quer que eu suba com você?

Ele faz o trabalho completo. Deixa o que não enxerga na porta de casa e vai embora. Depois sai andando.

O homem entra em casa sem enxergar nada, tromba com um objeto que acaba quebrando e cortando o dedo dele. Senta e fica lá sem saber o que fazer. Quando a esposa volta para casa e o encontra naquele estado, pergunta o que houve. Ele conta tudo o que acabou de viver: a parada no semáforo, a cegueira de uma hora para a outra, o estranho que o ajudou, o acidente dentro de casa. Então ela perguntou onde tinha ficado o carro.

— Ficou lá embaixo.

— Não, teu carro não está lá embaixo – ela respondeu.

O estranho tinha mentido e levado o carro embora.

Então ela o leva ao médico. No consultório encontram algumas pessoas esperando para serem atendidas. Ele e a esposa furam a fila de espera e são atendidos pelo oftalmologista, que o interroga sobre o que aconteceu. Ele conta que não vê nada e que a cegueira dele é branca, que o nada em frente aos olhos não é escuro, mas uma grande mancha esbranquiçada. Surpreso, o médico o manda embora e pede que volte no dia seguinte porque ele precisa estudar sobre aquilo.

O médico vai para casa e avisa a esposa que não tem tempo para nada porque precisa estudar sobre a cegueira branca do paciente. Estuda muito e vai dormir tarde. Na manhã seguinte, acorda e vai ao banheiro como faz todas as manhãs. Dali a pouco grita, chamando a mulher. Quando ela vem ele diz:

— Não estou enxergando nada. Minha visão está toda branca.

E assim segue o “Ensaio sobre a Cegueira”, que começa com um homem perdendo a visão e se transforma em um livro provocador sobre ver o mundo e sobre viver com nossas limitações. Diante de uma situação crítica, cada pessoa é testada em seu caráter, sua moral e suas convicções.

Tempos depois de ler o livro, tive outra surpresa ao ver o filme dirigido pelo Fernando Meirelles. É incrível que um diretor de cinema tenha conseguido transpor essa história difícil do Saramago para o cinema com um resultado tão digno do que a gente leu nas páginas impressas.

Saramago morreu e, na minha opinião, deixou entre nós outro escritor que escreve parecido com ele, o Walter Hugo Mãe. Também é um autor que no primeiro momento é difícil de encarar porque não usa a pontuação tradicional. Mas a gente vai lendo e se acostumando e depois nem percebe mais e acaba se apaixonando.

Ensaio sobre a cegueira. Companhia das Letras. 312 págs.

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