Uma pessoa: Flávio Voight | Jornal Plural
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20 mar 2019 - 6h00

Uma pessoa: Flávio Voight

Psicólogo, escritor e assumidamente gay, Flávio solta textos no Facebook que atraem fãs e fazem bem para muita gente 

Ele saiu de Pato Branco e veio para a capital graças a uma bolsa de estudos para o curso de Psicologia. Mas ele próprio se considera um caipira até hoje – e, quem sabe? Para sempre.    

A bolsa, além de levá-lo a uma universidade, foi o motivo que o levou a sair de casa e escapar “correndo da influência ultrarreligiosa dos meus pais”, que era o que Flávio mais queria na época.    

Com 28 anos e formado há seis, o psicólogo sempre gostou de escrever. “Eu acreditava que o curso me ajudaria a ter uma visão mais profunda dos meus personagens”, afirma.    

Flávio conta que enfrentar uma série de problemas pessoais, que só foram descobertos mais tarde, na terapia, foi outro motivo para cursar Psicologia. “Ninguém estuda psicologia por ter tido uma infância bacana demais”, diz.  

“Até hoje eu não me entendo muito bem. Sou, no máximo, um ouvinte esforçado, e só ajudo as pessoas sob pagamento”, resume Flávio.    

Você se decepciona com o teu trabalho?    

Com o meu trabalho ou com a profissão? Porque eu me decepciono com o meu próprio trabalho todos os dias. Acho um absurdo quando saio de uma sessão sentindo que poderia ter me dedicado mais ao meu paciente. Eu entendo que é quase impossível ter insights o tempo todo.  

Sim, o meu trabalho só vai até onde a pessoa se abre e se permite examinar, mas se ela não faz isso… Eu deveria ser o profissional treinado para puxar o conteúdo dali. Sentir que não consegui fazer a pessoa se sentir confortável para se abrir comigo ainda vai ser o motivo de eu sair correndo sem roupa pela rua pedindo pra Deus me levar.  

Ficar sentado durante oito horas por dia também é um saco. Já tentei fazer sessões peripatéticas caminhando pelo bairro, mas desisti depois que um cachorro mordeu meu paciente.  

Mas não dá pra desistir. Ainda não achei alguma coisa que funcionasse melhor do que a psicoterapia.  

E o que mais te faz feliz na tua profissão?  

Minha felicidade é muito boba. Gosto de trabalhar numa clínica com meia dúzia de colegas pra jogar papo, em vez de um consultório exclusivo e solitário. Me empolgo toda vez que um paciente me conta de alguma vitória que teve, é como se a pessoa guardasse uma fatia da felicidade que sentiu pra dividir comigo. É melhor que comer bolo.  

Os casos bem difíceis também me fazem bem feliz; dá uma alegria de saber que alguém está no pior momento da vida dela e ainda está confiando nela mesma pra mudar, e em mim pra ajudar no processo.  

Você assumiu abertamente a tua sexualidade. Isso influencia nos pacientes que te procuram?  

Eu lembro claramente de um debate na faculdade em que eu falei da minha sexualidade no meio de um argumento. Fui chamado pela professora depois, uma professora maravilhosa, muito preocupada comigo, falando que já viu ótimos profissionais não conseguindo trabalho na área por se exporem demais.  

Como meu plano nunca foi ser psicólogo, era assim que eu me sabotaria: me expondo demais. É o que eu faço há anos tentando sabotar meu consultório, sem ter sucesso.  

Quanto à influência disso nos meus pacientes… Acho que acabo atraindo mais as pessoas que já lidaram com a própria aceitação, as que já saíram de qualquer armário em que estavam.  

Uma pessoa ainda tímida sobre o próprio processo de aceitação não vai procurar um terapeuta que escreve na Internet sobre a vez que saiu no soco com o namorado na rua no meio de um relacionamento abusivo, vai?  

Quer dizer, espero que procure. Vou adorar atender.  

Você pretende escrever um livro, ser publicado?  

Já briguei muito por causa dessa história de “ser publicado”. Que diabos é ser publicado em pleno 2019? Não acredito que ter uma tiragem de 200 exemplares em papel vai me legitimar mais do que ter meus textinhos publicados no Facebook com um alcance muito maior que isso.  

Um livro merece ter um conceito só dele, um motivo pra existir…

E, pra mim, esse motivo só começou a aparecer bem recentemente. Vou ter de engolir minha resistência birrenta de ser autor de Internet e, se os planos derem certo, vai ter livro saindo sim.  

Se você fosse obrigado a trocar de profissão, o que faria?  

Sem titubear, porque eu penso muito nisso: massagista. Não é glamoroso, mas gosto de pegar nas pessoas, sou muito físico. Também seria uma forma de tocar as pessoas e ver um lado delas que nem todo mundo vê… Sem precisar ficar sentado por horas a fio.  

O que você faz para se divertir?  

Eu sou terrivelmente chato. Eu gosto de ir no supermercado, isso é hobby? Ir ao supermercado com música tocando no fone de ouvido.  

Caminhar também. Adoro caminhar, caminho feito doido pela cidade, é a melhor coisa para pensar. Cantar no chuveiro conta?  

Acho que eu preciso de um hobby melhor. Você conhece alguma escola de dança do ventre?

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