LADO B: Tayná, Requião e Botanique | Jornal Plural
6 fev 2019 - 0h00

LADO B: Tayná, Requião e Botanique

Nesta semana, a coluna fala de uma moça muito sincera e transformadora, faz cinco perguntas pessoais para Roberto Requião – que confessa por que acha um tipo de filme absolutamente ridículo – e traz um lugar para fazer uma viagem no espaço/tempo bebendo bons drinques.

Nesta semana, a coluna fala de uma moça muito sincera e transformadora, faz cinco perguntas pessoais para Roberto Requião – que confessa por que acha um tipo de filme absolutamente ridículo – e traz um lugar para fazer uma viagem no espaço/tempo bebendo bons drinques.


Uma pessoa: Tayná da Rocha Leite

Coach, blogueira, escritora

Foto: Drielle Gueguer

Sabe a pessoa que provoca uma sensação de “ué, então realmente dá pra ser assim”? Tayná é autêntica, até onde não dá para ser. Vivencia cada processo de vida e compartilha tudo, tudo mesmo, em seus textos – inclusive as mudanças e os questionamentos

É do tipo sincerona, por isso é cativante. Escreve sobre tudo que sente, que fala e que faz. De advogada corporativa até se tornar feminista, ativista e empreendedora social, mãe, blogueira e escritora (com um livro prestes a ser lançado), Tayná tem uma trajetória que vale a pena conhecer. E ficar de olho nela.

Quando você decidiu deixar a advocacia para se tornar coach?

Começou em 2013; eu já estava no mundo corporativo há mais ou menos 8 anos, com uma ascensão muito rápida, de muito trabalho intenso – bem workaholic. E eu percebia que algumas coisas não estavam fazendo tanto sentido. Eu realmente gostava de trabalhar com pessoas, e de usar meus talentos para ajudar os outros. Comecei a traçar um plano de transição, e envolvia voltar para Curitiba. Eu aceitei o desafio para implementar o departamento jurídico de uma empresa. Só que… eu detestei a empresa. Eu tinha feito a formação em coach, e comecei a atender cada vez mais mulheres e a fazer disso uma ideia mais concreta. Acabei sendo demitida da empresa, e tive essa oportunidade de começar o meu negócio com um valor que eu precisava para fazer essa transição. Em 2015 comecei a trabalhar exclusivamente com desenvolvimento humano, com coaching, e com mulheres. Tudo isso também coincidiu com a minha transição, a minha pesquisa feminista, minha militância feminista e outras indagações individuais. 

Você escreveu que acredita “em mudança individual como mudança política”. Você mudou suas convicções políticas? 

Sim. Eu tive um mergulho muito grande nas minhas convicções políticas nos últimos seis anos, que coincidiu com meus estudos de gênero, a minha luta antirracista, e também anticapitalista. Considero que isso foi um reencontro, um retorno. Passei por uma guinada liberal, motivada pela minha história de vida: venho de um lugar de muita pobreza, muita dificuldade, e a carreira corporativa fez com que eu tivesse oportunidades e tivesse a independência tanto financeira quanto emocional tão sonhada – ao menos eu acreditava nisso. E por isso, por muito tempo eu neguei convicções que sempre tive, de igualdade, justiça e de emancipação política. Só quando comecei a questionar o meu próprio feminismo, o meu próprio lugar enquanto mulher branca, que eu também comecei a questionar questões de classe, a meritocracia, a própria esquerda e direita. Então mil vezes sim, eu mudo e mudarei quantas vezes for preciso as minhas convicções políticas, para que eu possa ser de fato a mudança que quero ver no mundo. Não adianta nada fazer um discurso de empoderamento, se eu não der a mão para as mulheres que precisam, se eu não tiver um trabalho que seja inclusivo, não tiver um trabalho que seja acessível às pessoas que precisam efetivamente dele e que possam se beneficiar dele.

Na época das eleições, em 2018, sentiu medo de se posicionar e expor suas convicções políticas?

Senti bastante insegurança; porque meu trabalho todo é pautado nas questões de gênero, sou abertamente posicionada como feminista, como pessoa de esquerda, e cada vez mais me identifico como marxista. Senti medo, mas o medo de me posicionar não chegou a ser maior do que o medo de ter que me calar, né? Não costumo me deixar abater por muito tempo, acho importante a gente viver os lutos, catar os caquinhos e bola para frente. Logo fiz meu plano, avaliei o que eu ia fazer dentro desse novo contexto político, e estamos aí, com o mesmo gás de sempre. Muito dos medos que nós, pessoas privilegiadas, estávamos sentindo, não é nada novo para as pessoas periféricas, para as minorias criminalizadas.

Você é muito autêntica quando escreve. Escrever, para você, é terapêutico?

A autenticidade é algo que eu busco, e sim, escrever para mim é algo terapêutico, sempre foi. Aprendi a ler e escrever bem cedo e isso foi um escape, um lugar de refúgio. Por toda a minha infância e adolescência, eu sempre tive diário, escrevi muito. E voltar a escrever de forma pessoal, em blog, para o Huffington Post e As Minas tem sido muito terapêutico. Mas também é uma forma de humanizar certos temas e indagações, porque percebo que as pessoas muitas vezes pensam coisas parecidas e não se “enxergam” nesse mundo de redes sociais, em que todo mundo parece ter todas as respostas e saber todas as questões.

Alguma vez ser “sincerona” te causou problemas?

Sim, já perdi cliente, já tive várias situações… eu não considero problemas, porque acho que a pessoa que “me compra”, seja materialmente, no sentido de me contratar, ou seja mesmo de querer ser minha amiga, ou uma pessoa próxima e que faça parte da minha vida, precisa saber o que eu penso, e eu não acho que ser sincera seja mais um problema.

Foto: Drielle Gueguer

“Mudar o mundo sendo um instrumento de transformação de mulheres é o meu propósito”, você diz. Como você faz isso na vida real?

O meu projeto de empreendedorismo social, o Kalindi, vai me tornar sustentável, mas manter o impacto social que eu quero ter no meu trabalho. Eu trabalho como coach há quatro anos, mas sempre angustiada por ver que têm mulheres que precisam dessas ferramentas e não tem condições financeiras. Não adianta eu baixar muito o preço e conseguir pegar mais pessoas, esse não é o meu objetivo; e também tenho uma certa dificuldade com marketing desse mercado, que considero bastante manipulador e desonesto. Eu pensava em formas de mudar a lógica capitalista, a lógica de marketing on-line. Aí eu surgi com essa ideia de um financiamento coletivo em que todo mundo que quiser possa contribuir, e quem quiser ser atendido, se cadastra para ser atendido. Então hoje a gente tá na primeira meta. Das 19 pessoas que estão apoiando o Kalindi hoje, tem quatro cadastradas para atendimento. Todas as apoiadoras são pessoas que já fizeram algum trabalho comigo, coaching ou workshop. Conhecem meu trabalho e querem contribuir para que outras mulheres tenham acesso. Então vou conseguir atender mulheres que não teriam esse recurso, mas com várias pessoas contribuindo numa roda de abundância e economia colaborativa. Uma realmente ajuda a outra.

Como o Plano de Menina, um projeto social, se encaixa no teu propósito?

O Plano de Menina é um projeto onde a gente faz voluntariado cem por cento; ele é uma ação social sem fins lucrativos. E o Plano se encaixa totalmente no meu propósito porque é trabalhar diretamente com meninas, que podem enxergar o potencial que elas têm de transformação, de serem efetivamente uma ferramenta poderosa de mudança. Eu acredito que mulheres são esse lugar de mudança, especialmente as mulheres negras e periféricas. Então eu, como embaixadora do Plano de Menina aqui em Curitiba, vejo total alinhamento ao meu propósito. 


Cinco perguntas para Roberto Requião

Foto: Pedro França/Agência Senado

Como é um típico almoço de domingo?

Sempre prefiro reunir toda a família e os amigos. Mas algumas vezes os atritos internos da família impedem que isso aconteça. Então no domingo, eu e a Maristela estamos juntos e um irmão ou outro, que não esteja atritado, acaba aparecendo.

Qual foi o último filme que o sr. assistiu e gostou? E qual filme não recomenda?

Não tenho ido muito ao cinema. Mas posso dizer a você que o primeiro filme que me impressionou eu assisti no auditório da Biblioteca Pública do Paraná – eu frequentava a Biblioteca praticamente todos os dias – foi Os Sete Samurais“, do Akira Kurosawa. Não posso dizer a você qual foi o último filme que não gostei. Eu não gosto, fundamentalmente, desses filmes de automóvel que se transformam em monstros, essas loucuras que são encomendadas para distrair as crianças. Acho absolutamente ridículo isso.

O sr. continua montando cavalos? 

Desde que saí do governo do Paraná não tenho montado a cavalo. Eu não tenho cavalo. Os famosos cavalos que me atribuíam, os “cavalos do Requião”, me foram doados, presenteados, durante o governo, e eu transferia rapidamente para o patrimônio do Estado. Passava para a Cavalaria – esta sim, ficou com animais excelentes.

O sr. tem cachorros?

Tenho três cachorros em casa. Dois são maremanos, que eu trouxe do Rio de Janeiro, propriedade do meu amigo Carlos Lessa, e do Dark Costa. Um deles se chama Dark, o outro eu chamei de Lessa, mas meu filho Maurício trocou para Rex. Eu tenho também uma cachorra pitbull que era de uma professora do Maurício. Ela mudou-se para um apartamento, e a cachorra ia ser sacrificada, mas acabou aqui em casa. Ela é tranquila. Aliás você talvez não saiba, o pitbull era uma raça que foi desenvolvida nos Estados Unidos para cuidar de crianças. Essa loucura, que são animais furiosos, veio depois. A Mika é a nossa cachorra, o nome quem deu foi a primeira dona. É uma beleza de um animal.

O sr. tem uma voz potente, um gestual e uma retórica únicos. A que atribui essas características? 

Nunca fiz curso de oratória e nunca aperfeiçoei a voz. Quando eu era menino hesitava muito para falar, principalmente  em público. Mas isso veio naturalmente, com a experiência e a participação na política e nas assembleias estudantis. Já na época da política da União Paranaense dos Estudantes eu falava como falo agora.


Um lugar: O deck do Botanique Café Bar Plantas 

Onde se faz uma viagem no tempo, come-se e bebe-se muito bem

Foto: Ricardo Perini

O Botanique já tem dois anos, não é exatamente uma descoberta. Mas o deck desse café bar tropical é uma viagem. 

As arquitetas Ana Sikorski e Kátia Azevedo, responsáveis pelo projeto de reforma, deixaram muita coisa sem finalizar, dando uma visão diferente do acabamento. Junto ao verde das inúmeras plantas, as cores utilizadas e móveis garimpados, criou-se uma atmosfera peculiar. Cada um faz uma leitura do ambiente e cria sua própria viagem.

A minha aconteceu no deck. O pátio que unia os antigos apartamentos residenciais do Edifício Carmen me levou à infância, no final dos anos 60. Escadas, portas e o design do lugar remetem a tantas casas de família, cozinhas e quintais de paralelepípedos que, há quase 50 anos, eram comuns para mim!

Foto: Ricardo Perini

Além disso, as plantas, móveis e o céu de ventiladores contribuem ainda mais para sonhos&devaneios no tempo&espaço.

Aliás foi na rua, perto do Botanique, que Patricia Belz deparou com uma pilha enorme de telas de ventiladores antigos e descartados. Claro que o lixo se transformou no céu do deck, junto às luzinhas instaladas na tenda.      

As três sócias meteram a mão na massa, literalmente, durante a reforma do lugar, que era um salão de beleza. Belz, que inaugurou a Borealis Plantas em agosto de 2015 numa pequena loja no Edifício Carmen, foi quem deu sinal verde assim que o espaço ficou vago. Patricia Bandeira, do Negrita Bar, e Juliana Girardi, jornalista de Cultura, completaram o trio. Elas queriam fazer um lugar diferente de tudo o que tinha na cidade. E fizeram!

Interior do café. Foto: Eduardo Macarios

As três continuam botando a mão em tudo, todos os dias, o que também provoca nas pessoas que vêm ao Botanique essa sensação de aconchego e pertencimento, pois tudo foi feito com o mesmo carinho que elas têm com as próprias casas.

A novidade é que, no início de março, o Botanique vai passar por mais uma reforma. O que será que o trio vai aprontar dessa vez?

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