19 jan 2022 - 8h00

O conhecimento não é automaticamente emancipador: os 80 anos da Conferência de Wannsee

Ao menos desde Kant e outros iluministas, no século XVIII, tendemos a acreditar que a origem do mal está na ignorância e que o conhecimento e a instrução são, por definição, emancipadores. A análise minuciosa dos crimes nazistas nos obriga a colocar em perspectiva mais essa certeza da Modernidade

Exatos 80 anos atrás, em 20 de janeiro de 1942, quinze ocupantes de altos cargos na Alemanha nazista se reuniam em uma casa de campo nos arredores de Berlim, para um encontro emblemático: a Conferência de Wannsee.

Essa reunião é às vezes descrita como o momento de decisão do regime nazista pela Solução Final, ou seja, o extermínio generalizado da população judaica da Europa. No entanto, massacres indiscriminados contra judeus já estavam ocorrendo ao longo da invasão da Alemanha nazista à URSS no 2.º semestre de 1941, como em Babi Yar.

Isso não significa, contudo, que a conferência em Wannsee não tenha sido importante e não possa provocar reflexões para os dias de hoje.

A origem do mal nem sempre está na ignorância

Em termos factuais, foi a partir de então que o extermínio se tornou a política nazista para os judeus em todo o continente europeu. A conferência de Wannsee também marcou o momento em que a alta cúpula da burocracia de Estado alemã definitivamente se tornou ciente, cúmplice e participante do genocídio. Embora organizada por Reinhard Heydrich, representante da SS (uma espécie de milícia de elite do partido nazista), nela também estavam presentes altos cargos dos ministérios civis – portanto, não necessariamente militantes históricos do partido nazista.

A reunião foi breve e não houve nenhum tipo de objeção ao plano apresentado por Heydrich, que incluía a deportação de mais de 10 milhões de judeus para campos de concentração e extermínio na Polônia ocupada, onde seriam assassinados – de imediato ou após algum tempo executando trabalhos forçados.

10 milhões de judeus foram deportados para campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

Quem eram esses homens que aceitaram pacificamente participar da execução de um genocídio e passaram o restante da reunião discutindo aspectos técnicos e logísticos do extermínio? Alguns elementos nos chamam a atenção. Muitos deles eram funcionários respeitados já antes da ascensão do partido nazista. Em geral, haviam tido acesso a altos níveis de instrução formal; oito dos 15 participantes da conferência de Wannsee tinham doutorado.

Essa informação pode gerar surpresa e certo mal-estar. Ao menos desde Kant e outros iluministas, no século XVIII, tendemos a acreditar que a origem do mal está na ignorância e que o conhecimento e a instrução são, por definição, emancipadores. A análise minuciosa dos crimes nazistas nos obriga a colocar em perspectiva mais essa certeza da Modernidade.

Não seria correto concluir que foi a instrução formal que tornou nazistas os homens da conferência de Wannsee – entre os perpetradores do Holocausto, havia indivíduos com os mais diversos graus formação. Mas o fato de a educação não reduzir as chances de alguém se tornar nazista abala um princípio muito caro à nossa sociedade.

Repensando a educação

Esse texto não é, de forma alguma, uma apologia à ignorância, mas uma proposta de refinar essa tese iluminista para pensar como o conhecimento pode ser emancipador.

Vários dos presentes na conferência de Wannsee haviam não apenas obtido títulos respeitados, como usavam o conhecimento técnico adquirido para legitimar e operacionalizar a máquina de genocídio nazista. A formação que tiveram falhou em associar técnica e ética, em questionar o porquê e o para que daquele conhecimento. Permaneciam portadores de saberes, mas os colocaram a serviço de uma ideologia autoritária, racista e assassina.

Theodor Adorno.

Nos anos 1960, o filósofo Theodor Adorno abria o seu clássico texto “Educação após Auschwitz” com a seguinte proposição: “A exigência de que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação”. Adorno não somente está nos instando a lembrar do Holocausto para que ele não se repita. O sistema educativo deveria ser repensado. Se na Alemanha nazista a educação não foi suficiente para evitar Auschwitz, impedir que Auschwitz se repita – mesmo que metaforicamente por meio de outras violações de direitos humanos – deve ser o primado básico da educação, muito além do ensino deste ou daquele conteúdo.

Em outro contexto, o educador brasileiro Paulo Freire também destacava a necessidade de deixar de somente repetir saberes mecanicamente como ocorre na “educação bancária”, mas produzir saberes ativamente, entendendo seus usos e potenciais de transformação social.

É de se questionar, consequentemente, se os rumos das atuais políticas educacionais apontam na direção das conclusões de Adorno e de Freire

Em recentes discussões de projetos e reformas educacionais, como, por exemplo, àquelas em torno do “Novo Ensino Médio”, são frequentes termos e ideias como “empregabilidade”, “ensino profissionalizante”, “educação para o mercado de trabalho”. Ao mesmo tempo “humanismo”, “pensamento crítico”, “ética” parecem ficar em um segundo plano de prioridades, isso quando não são descartados e desacreditados. É inegável a importância de jovens egressos do sistema de ensino formal possuírem habilidades e competências adequadas ao trabalho de e com qualidade. Mas, se retomarmos a análise dos participantes da conferência de Wannsee, não há como não temer pelo conhecimento técnico, mesmo que muito profissional e empregável, mas desvinculado de suas implicações políticas, sociais, econômicas.

O psicólogo israelense Haim Ginott apresenta em seu livro Teacher and Child [Professor e criança] (1972) uma carta atribuída a um sobrevivente de um campo de concentração nazista:

Prezado Professor,

Sou sobrevivente de um campo de concentração. Meus olhos viram o que nenhum homem deveria testemunhar.

Câmaras de gás construídas por engenheiros diplomados.

Crianças envenenadas por médicos formados.

Recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas.

Mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e faculdades.

Assim, tenho minhas suspeitas sobre a educação.

Meu pedido é: ajude seus alunos a tornarem-se humanos. Seus esforços nunca deverão produzir monstros eruditos, psicopatas especializados, Eichmanns instruídos.

Ler, escrever, aritmética são importantes somente se servirem para tornar nossas crianças mais humanas.

[tradução livre]

Pessoas que dominam saberes técnicos sem refletir sobre a ética de seu uso estão suscetíveis a serem permissivas, colaborarem e mesmo potencializarem, com esses mesmos saberes, o preconceito, o autoritarismo, os extremismos e os fascismos. O regime nazista, e tantos outros exemplos, inclusive contemporâneos, demonstram que o conhecimento não é automaticamente emancipador. Só uma educação com a intenção consciente de proporcionar uma sociedade mais justa, democrática e inclusiva pode concretizar esse potencial.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Um comentário sobre “O conhecimento não é automaticamente emancipador: os 80 anos da Conferência de Wannsee

  1. Bela análise. Parabéns. Penso que os facínoras sempre terão pessoas graduadas para “lamber as suas botas”. Os “monstros” desprovidos de humanidade se passam por “cidadãos de bem”. Isso tudo diz muito sobre o Brasil atual e suas mazelas, em especial, o abandono daqueles mais fragilizados.

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