16 mar 2022 - 9h30

As mulheres na resistência armada

No Holocausto e em tantos outros momentos da história, jamais houve a suspeita de que as mulheres pudessem resistir e se subverter

A restrição da vida das mulheres à criação dos filhos e aos cuidados com o lar vem de muito tempo atrás até os dias atuais, e não foi diferente durante o regime nazista. Por séculos, as capacidades das mulheres foram e seguem subvalorizadas por uma imposição do estereótipo da feminilidade como fraqueza. Por este motivo, no Holocausto e em tantos outros momentos da história, jamais houve a suspeita de que elas pudessem resistir e se subverter.

Justamente por esse motivo, puderam lutar contra a sua dominação de formas diferentes dos homens, tanto espiritual quanto fisicamente. Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher e inspirado por essas histórias, o Museu do Holocausto de Curitiba elaborou uma programação semanal, de 7 a 13 de maio, que pode ser conferida nas redes sociais da instituição.

Lá, é possível conhecer mulheres que tiveram papéis ativos em movimentos juvenis sionistas, comunistas ou sionistas. Ou que, na Polônia ocupada, levaram informações externas aos guetos. Também aquelas que foram partisans nas florestas do leste da Polônia e da União Soviética, enquanto outras foram importantes membros da resistência na França. Em todos os cantos, havia mulheres à frente da resistência.

Tzivia Lubetkin foi uma importante figura na luta polonesa. Foi uma das fundadoras do movimento Antifascista “Bloc”, a primeira organização voltada à resistência armada dentro do gueto de Varsóvia. Posteriormente, participou do início do movimento armado Organização Judaica de Combatentes (ZOB). Em 1943, ela e seus companheiros perceberam que as deportações dos judeus do gueto aos campos de extermínio, que começaram no ano anterior, passaram a ser ainda mais aceleradas. Com isso, imaginaram que logo ocorreria a liquidação do local. Assim, a ZOB preparou duas unidades armadas e iniciou uma revolta. Tzivia foi uma das poucas sobreviventes da primeira etapa e, mais tarde, participou do tão conhecido Levante do Gueto de Varsóvia, em abril de 1943.

Frunka Plotnicka. Foto: reprodução.

Frunka Plotnicka também resistiu. Assim como Tzivia, foi realocada para o Gueto de Varsóvia e se juntou à Organização Judaica de Combatentes, tornando-se uma mensageira do grupo. Ao lado de outras mulheres, contrabandeava armamentos, mantimentos e informações, externas e internas ao gueto. Em setembro de 1942, foi enviada a Bedzin pela ZOB para ajudar a estabelecer uma defesa na região. Fez contato com organizações da Suíça, Eslováquia e Turquia, transmitindo informações sobre o que de fato estava ocorrendo na Polônia. Ao invés de fugir para salvar sua própria vida, ficou em Bedzin e lutou ao lado da resistência, falecendo em batalha ao lado dos seus colegas, em 1943.

Rosa Robota, também polonesa, foi levada ao complexo de extermínio de Auschwitz, sendo designada a trabalhar no depósito de roupas, onde utilizava peças para facilitar o contrabando de mantimentos que poderiam ser convertidos em bombas. Com isto, tornou-se uma líder no campo, à frente de um grupo de mulheres que traziam pequenas quantidades desses itens em caixas de fósforo ou nas roupas do depósito. Em outubro de 1944, a rebelião das mulheres em Auschwitz se concretizou: elas incendiaram e explodiram um crematório e uma câmara de gás, para onde passaram todo o tempo levando os mantimentos. Rosa e algumas de suas companheiras foram detidas, com o sonho de que pelo menos uma delas sobrevivesse. Em janeiro de 1945, todas as prisioneiras do complexo foram forçadas a assistir à execução das mulheres que participaram do ato. Elas puderam escutar uma palavra sair da boca de Rosa quando foi executada: vingança.

Rosa Robota. Foto: reprodução.

Como disse Gusta Draenger, mais uma figura feminina importante na resistência ao regime nazista, em sua obra O Diário de Justina: “O mínimo que podemos fazer agora é deixar um legado de dignidade humana que será honrado por alguém, algum dia.” Todas lutaram pelas suas próprias vidas e de todos aqueles que sofriam com as perseguições do regime nazista. Algumas delas sobreviveram para contar, pessoalmente, suas histórias de bravura. A maioria, contudo, não saiu com vida, mas deixou o seu legado e sua marca na história.

Gusta Draenger. Foto: reprodução.

Tzivia resistiu. Frunka resistiu. Rosa resistiu. As mulheres resistem. Estamos aqui hoje porque, ao longo de toda a história, mulheres foram capazes de subverter o espaço que lhes foi imposto. Lutaram não apenas por si, mas por cada uma das que se foram antes e que vieram depois. Deixaram o seu legado para que pudessem honrar e levar suas batalhas adiante, porque são de todas. Por esse motivo, o Dia Internacional da Mulher, rememorado na semana passada, deve ser lembrado como um dia de luta. A data foi escolhida para celebrar os avanços já conquistados e lembrar que ainda há um longo caminho a percorrer. Ser mulher é, ainda hoje, resistir.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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