11 maio 2022 - 12h36

Além da História: o potencial educativo transdisciplinar do Holocausto

Das disciplinas tradicionais da educação básica às ciências aplicadas de qualquer área, existe uma capacidade pedagógica iminente e transformadora do ensino da Shoá, que extrapola o rodapé dos livros didáticos de História

“Para se ensinar História a João, é preciso entender de ensinar, de História e de João”. Imaginava-se, durante décadas, que o trabalho pedagógico com um evento histórico (seja ele traumático ou não) consistia num processo descomplicado de transmissão de conhecimentos protagonizado pelo educador ou educadora. Desta forma, com as metodologias adequadas, a aprendizagem “de João” seria uma consequência natural. Ledo engano. Além de evidenciar a complexidade do ensino e da aprendizagem, essa frase da historiadora Flávia Caimi destaca a dificuldade em construir diálogos entre o passado e o presente.

Um dos grandes equívocos para a prática constante dessas reflexões é o uso de eventos históricos de maneira restrita e “encaixotada” dentro desta área da ciência, a História. Caso do Holocausto, um tema multi e transdisciplinar por excelência. Um extraordinário exemplo de como a educação sobre esse genocídio pode (e deve) transitar e se retroalimentar entre diversas áreas do conhecimento foi a iniciativa da Universidade Positivo, em Curitiba, ao conceber o evento “Holocausto e Bravura”. Em parceria com o Museu do Holocausto de Curitiba, nos dias 5 e 6 de maio de 2022, a Escola de Direito e Ciências Sociais criou uma programação que materializou o potencial pluralista do conhecimento a respeito do nazismo e de sua ideologia racista e antissemita.

Por meio desse enfoque diversificado e da articulação entre diversas formas de ver o mundo, as áreas Pedagogia, Direito e Relações Internacionais da Universidade Positivo perceberam como é possível dar sentido conjunto ao conhecimento e se uniram para promover os debates com distintos alunos da Graduação e da Pós-Graduação. A percepção é evidente: o potencial educativo do Holocausto perpassa várias áreas do conhecimento. Das disciplinas tradicionais da educação básica às ciências aplicadas de qualquer área, existe uma capacidade pedagógica iminente e transformadora do ensino do Holocausto, que extrapola o rodapé dos livros didáticos de História.

Não se trata apenas de um recorte

Com a polarização política e a vulgarização do Holocausto por parte de governantes, jornalistas e influenciadores, tais temas deixaram as salas de aula e se popularizaram, incluindo com a profusão nas redes sociais. Em todos os casos e de modo geral, a educação brasileira ainda não sabe lidar com as lições que o Holocausto pode nos proporcionar. Não que ele tenha lições cruas, que nos ensine alguma coisa sozinho – Auschwitz nunca foi uma escola de Direitos Humanos, pelo contrário. Mas o significado que damos é importante, assim como nossa capacidade de decodificar a tragédia e criar essas conexões, utilizando o genocídio como uma ferramenta poderosa e capaz de transmitir valores universais relevantes às próximas gerações.

O Holocausto ainda é visto como um recorte da História conectado exclusivamente à Segunda Guerra Mundial e desvinculado das nossas mazelas contemporâneas. Falta dar sentido a essas histórias, descartando o viés conteudista e massificado da tragédia. A conscientização só vai existir se traçarmos paralelos constantes com a atualidade que nos aflige e com o contexto em que vivemos, cruzarmos as áreas do conhecimento e desenvolvermos a empatia dos jovens por meio de narrativas pessoais. Em outras palavras, “entender de ensinar, de História e de João”.  Para isso, precisamos de educadores que compreendam a transdisciplinaridade e como o tema perpassa por tantos aspectos das nossas vidas.

E cá entre nós: com um assunto realmente difícil, o problema da educação brasileira não se resume à complexidade do tema. Basta analisarmos nosso sistema educativo como um todo: sucateado, fragilizado, com falta de reconhecimento, capacitação e remuneração decentes aos educadores.

A armadilha da BNCC

Em dezembro de 2017, o Conselho Nacional de Educação (CNE) inseriu na nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Fundamental, como temas obrigatórios, “Judeus e outras vítimas do Holocausto” e o estudo “do extermínio de judeus (como o Holocausto)”. Ambos foram introduzidos na matriz curricular do 9º ano, nas páginas 428 e 429 da BNCC.

Em outras palavras, significa que, a partir de 2018, o ensino do Holocausto tornou-se obrigatório em território nacional, sobrepondo-se a todas as leis municipais e iniciativas públicas pontuais anteriores. A proposta partiu da Confederação Israelita do Brasil (CONIB), que solicitou a inclusão junto a CNE, com o apoio do Museu do Holocausto de Curitiba. A inserção cumpre ainda a Resolução 60/7 de 2005 da Organização das Nações Unidas, chamada “Holocaust Remembrance”, que recomenda aos Estados-membros “desenvolver programas educacionais que levem a futuras gerações lições do Holocausto a fim de prevenir genocídios futuros”.

Há que se comemorar, como foi celebrado à época. A luta pela construção de uma memória coletiva por meio dos instrumentos democráticos é um alento para o nosso país. No entanto, restringir o tema ao currículo de História do 9º ano do Ensino Fundamental é uma armadilha na qual professores e instituições precisam se manter atentos. O risco é de o tema permanecer “encaixotado” dentro do ensino da História, o que prejudica o imenso potencial pedagógico do Holocausto e que deveria englobar áreas específicas como a Literatura e Língua Portuguesa, Arte, Música, Biologia, Filosofia, Geografia, língua estrangeira e tantas outras.

Já a inclusão do mesmo tema na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio, objetivo buscado em 2018, não foi concretizada. Os sinais de alerta são os mesmos: ao inserir na BNCC uma perspectiva de formação por competências que extingue disciplinas formais obrigatórias da formação dos jovens, o Holocausto poderia ser incluído nessa ideia pluralista e transdisciplinar. Seria, indubitavelmente, um grande acerto – ainda mais eficaz do que tê-lo limitado à matriz curricular de História do 9º ano do Ensino Fundamental. Mas o pleito não foi atendido pelas autoridades e pelos especialistas – mais um indicador de objeções e também de novos esforços em proporcionar um entendimento multidisciplinar sobre o Holocausto, um divisor de águas na história da humanidade.

Em suma, a presença do assunto na BNCC do Ensino Fundamental e a ausência dele na base do Ensino Médio são sintomáticas e nos garantem tanto a demanda quanto o dever. Nunca foi tão importante estudar sobre o Holocausto nos dias de hoje. Contudo, ao contrário da iniciativa da Universidade Positivo, existe ainda grande desconhecimento sobre seu potencial multidisciplinar. Tanto a escola quanto o museu são terrenos férteis para incentivar o pensamento crítico e os debates transdisciplinares sobre o momento atual a partir da experiência inédita do Holocausto. Uma das maneiras de levarmos à reflexão é justamente aprender a partir da História e modificar o que está a nossa volta. Sem nunca deixar de “entender de João”.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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