A literatura de Jorge Luis Borges faz 100 anos | Jornal Plural
24 fev 2021 - 14h37

A literatura de Jorge Luis Borges faz 100 anos

Mestre do conto começou como poeta na Buenos Aires dos anos 1920

O ano era 1921 e o jovem Jorge Luis, depois de um período na Europa, voltava à argentina natal. Influenciado pelo que havia visto do outro lado do Oceano, começaria a escrever no espírito do modernismo que dominava a juventude nas principais capitais europeias.

Foi assim que, cem anos atrás, revistas surrealistas de Buenos Aires serviram de palco para a estreia de um dos grandes autores do século 20. Dali até a sua morte, 65 anos depois, Jorge Luis Borges criaria um novo tipo de ficção, que lhe garantiu não só a celebridade como um lugar no topo do panteão da literatura de língua espanhola.

Poeta, ensaísta, memorialista, Borges foi por excelência um autor de contos. Seus poucos livros de ficções acumulam pérolas breves que trabalham alguns dos problemas típicos da filosofia e da literatura de modo absolutamente inovador.

Esse é um dos grandes diferenciais do texto de Borges: sua literatura se eleva acima das histórias e chega a influenciar filósofos de todo o século (não é à toa que Michel Foucault começaria seu As Palavras e as Coisas falando de um conto de Borges).

Algumas das metáforas criadas por ele são célebres. Caso da Biblioteca de Babel, um lugar infinito; ou a loteria de Babilônia, que decide absolutamente tudo na vida dos habitantes do lugar; ou ainda a história de um homem atormentado por sua capacidade de relembrar absolutamente tudo que ocorreu a ele e com o mundo, numa fantasia sobre a insônia.

Em seu livro mais importante, Ficções, de 1955, Borges abre a série com uma história intrigante: um grupo de intelectuais que decide criar uma enciclopédia sobre um mundo inexistente. Também nesse conto, há pelo menos duas coisas altamente intrigantes: a dica de que pouquíssimos iniciados poderiam compreender verdadeiramente o sentido de um conto, e a frase célebre segundo a qual o sexo e os espelhos são ambos abomináveis, pois multiplicam o número dos homens.

Um dos contos mais sensacionais da coletânea é O Milagre Secreto, uma pequena obra-prima que fala sobre um escritor condenado à morte. Ele deseja uma única coisa: completar a peça de teatro em versos que está escrevendo. E por isso, quando o pelotão de fuzilamento aperta o gatilho, o tempo literalmente para, mas só para ele.

Preso a seu destino, ele não tem como escapar das amarras, nem terá como evitar a bala que vai lhe tirar a vida. Mas vendo os soldados parados e o projétil já no ar, inerte, ele ganha o tempo para conceber até o último verso de seu trabalho. Quando termina a última sílaba, a bala volta a correr pelo ar e o mata sem que jamais tenha sabido que ele completou sua obra-prima.

Borges dá pistas no próprio conto de que está falando de um problema de todo escritor, que julga os demais pelas obras realizadas, mas deseja ser julgado pelo que se imagina capaz de fazer, pelos seus planos ainda não transformados em livros. Imagine, então, se ele tivesse sido capaz de fazer tudo o que planejava.

Cego durante a maior parte da vida, Borges seguiu publicando uma infinidade de volumes, sozinho ou em parcerias com

outros autores, como o amigo Adolfo Bioy Casares. Beneficiado pela explosão de vendas da literatura latino-americana, viu seu realismo fantástico ganhar o munso, e su nome era todos os anos cotado para o Nobel.

A insistência da Academia em lhe negar o prêmio, em função principalmente do apoio de Borges a governos ditatoriais na Argentina, irritava profundamente o contista. Mas a ausência do Nobel nem de longe tirou o brilho de seu trabalho, que permanece como um marco na ficção do século 20.

Esta coluna é uma parceria entre o Centro Cultural Hispano e o Plural.

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