Santa Cloroquina, livrai-nos hoje do negacionismo de amanhã - Jornal Plural
4 maio 2021 - 0h04

Santa Cloroquina, livrai-nos hoje do negacionismo de amanhã

Arte e ciência podem ensinar sobre o pensamento

Negacionismos, fascismos, religiões fanáticas e demais seitas espirituais — ou econômicas — têm em comum a condição de se manifestarem de maneira axiomática.

O que é um axioma? Um postulado, sem comprovação ou demonstração, tido como óbvio, de consenso, cuja verdade é aceita e por isso serve de dedução para outras verdades.

No ano de 1847, na cidade de Viena, um médico chamado Ignaz Semmelweis propôs algo revolucionário para a medicina da época: lavar as mãos antes de fazer cirurgias faria os casos de infecção dos pacientes retrocederem. Esse postulado hoje soa óbvio, mas foi ridicularizado pela classe médica que alegava que a origem de tais infecções estava na má circulação do ar no hospital. Ao argumentar sobre provas dos benefícios dessas práticas de assepsia, Semmelweis escutou dos colegas que suas preposições eram falsas, pois, em verdade, havia sido observado que a melhora dos pacientes coincidia com a data de instalação das novas janelas no hospital, que eram maiores e mais ventiladas. Isso não foi um erro de observação, e sim de tentar explicar tudo a partir de um postulado único, mas falso, ou seja, um erro axiomático.

Para não cair nesse tipo de erro é necessário conviver com as infinitas variáveis e cenários possíveis. É justamente assim que nascem a ciência e a arte, da habilidade — nem sempre confortável — de estar atento para o fato que aquilo que tenta explicar o mundo de maneira absoluta acaba tolhendo o próprio mundo ao negar tudo o que não é explicado pelo axioma fundador. Com base nessa premissa, de que se é preciso não tolher a própria experiência, Newton se atentou que nem tudo na vida provinha de causalidade sobrenatural — axioma pleiteado pela ideologia religiosa vigente à época — e ousou dizer que da natureza muito poderia se aprender sobre a vida acaso abandonássemos ideias no mínimo ingênuas. E assim fizemos, abrindo as portas para Kant pensar que também o próprio ser humano é capaz de se ver para além das causalidades morais e se ver livre para orientar-se conforme sua própria razão e, depois, para Freud postular a causalidade daquilo que advém do inconsciente, permitindo que nos enxergássemos na incompletude, na impossibilidade de termos respostas concretas e sentido. É o axioma que quer um sentido a todo custo.

Deepak Chopra escreve que “a incerteza é terreno fértil para a criatividade e para a liberdade […] sem a incerteza e o desconhecido, a vida é apenas a repetição viciada de memórias velhas. Você se torna vítima do passado e seu torturador de hoje é o que sobrou de você ontem”.

Negacionistas e fanáticos não conseguem lidar com isso. Não suportam a incerteza. Por isso odeiam a arte, a intelectualidade e a ciência, eles não conseguem lidar com modelos complexos, incertezas e probabilidades. Aliás, uma caraterística dessas pessoas é estar absolutamente convicto sempre, sem abrir espaço para contestação.


Para ir além

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