29 jun 2021 - 9h00

Precisamos da arte para a revolução

Não dá para esperar o Brasil melhorar para fazer arte

Temos a arte para não morrer da verdade – disse Nietzsche –, mas é com a verdade que fazermos arte.

Arte aqui é uma metáfora para nossa capacidade criativa aplicada à vida e não somente ao campo estético. Dizem que atualmente quem não está indignado é porque não entendeu nada. Bem, é preciso de criatividade para elaborar o mundo, assim, a crise de entendimento pode ser uma falha dos processos criativos ligados à cognição. 

Diante do retrocesso democrático precisamos da elaboração criativa para enxergarmos a imensidão da vida com reverência. É como dizer que precisamos de boa dose de licença poética para elaborar nossos passos pelo mundo, inclusive para dar vazão de forma propositiva à indignação.

Há um ditado cuja origem é atribuída a um dos primeiros presidentes norte-americanos que diz mais ou menos assim: “Sou um soldado para que meu filho seja um fazendeiro, e meu neto, um poeta”. Assim, temos a condição para a arte como subproduto da paz e da estabilidade.

E isso vale tanto para a nação, quanto para a vida. Em 2018, diante da campanha preconceituosa contra a arte e a cultura promovida pela extrema-direita, a atriz Fernanda Montenegro, na época com seus 88 anos, afirmou ao jornal Folha de S.Paulo: “Quando o teatro vai mal, o país vai mal”. Trocando em miúdos, quando a política se torna algo tão crucial ao ponto de sermos obrigados a falar dela, significa que as coisas não andam bem.

Mas é justamente quando somos forçados a desviar o olhar da arte que mais precisamos dela, pois é dessa potência criativa que emerge da arte que surgem novas e revolucionárias ideias.

No Brasil de hoje acordamos todos os dias assoberbados com a última aberração de um desequilibrado e perdemos o sono pensando nas que virão amanhã. Isso pode diluir a criatividade tão necessária à revolução progressista.

É nesse sentido que, mesmo em tempos difíceis, precisamos alimentar a – e nos alimentar de – arte para transfigurar a desordem e extrair vida da adversidade.

Não vai dar para esperar. Nossa revolução precisa de arte. Agora.


Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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