20 out 2021 - 8h15

O teste

Eu separo as pessoas entre quem se atreve e quem não

Tenho duas formas de testar uma pessoa durante uma conversa. As duas nasceram nos últimos anos com o crescimento reacionário brasileiro e são minha maneira de posicionar pessoas no espectro extremista. Um teste secreto, mas que define com certa clareza todas as outras posições da vida da pessoa. O teste consiste em perguntar o que a pessoa acha de Paulo Freire e/ou da Lei Rouanet. 

É batata. Se a pessoa menciona comunistas e uma teta para mamar sei bem por onde andaram aqueles olhinhos ao revirar o grupo de zap que repassa notícia. Se a pessoa menciona os problemas com os repasses para os artistas já famosos pelo menos temos algo do que falar dentro do campo democrático. A Rouanet injetou dezenas de bilhões na economia através do setor artístico, mas não adianta falar isso para quem não quer ouvir. A turminha que anda em Brasília agora odeia a Lei Rouanet, entretanto se declara da ala liberal. O engraçado é que essa lei é uma maneira de decidir por si mesmo, enquanto cidadão, para onde exatamente irá parte dos seus impostos, mas dessa liberalidade não querem saber.

Eu costumo dizer quer precisaríamos da Rouanet da ciência, da educação e dos esportes, por exemplo. Assim eu saberia que pelo menos uma porção do meu dinheiro vai para um lugar útil para o país e que eu consiga ver, como a escola do meu bairro, a pesquisa de vacinas ou o time local de rugby feminino e não para um cara lá no Palácio da Alvorada comer picanha de dois mil reais.

Já com Paulo Freire é ainda mais fácil de identificar reaças de plantão chafurdados na esgotosfera das fakenews. Se a Rouanet é a lei que rouba do lanche das crianças para dar para artistas fazerem peça de teatro em que enfiam o dedo no ânus, Paulo Freire é um cara que sozinho destruiu a educação do país inteiro. Quando ele morreu, no ano de 1997, Fernando Henrique Cardoso era o presidente, mas de algum modo os seus superpoderes comunistas chegaram até hoje. Vá saber. De qualquer forma, Freire defendia basicamente uma educação problematizadora, ou seja, uma prática educacional para produzir entes com pensamento crítico por meio do aprendizado engajado na própria expansão pessoal e não apenas na decoreba que todo brasileiro já conhece. O paradoxo é que justamente os reacionários são aqueles que mais precisariam de Freire. Uma boa dose de pensamento crítico faria desmanchar o discurso da “ameaça comunista”, que exerce o mesmo papel do “homem do saco” para adultos com capacidade cognitiva reduzida.

Agora aqui vem explicada a arapuca: a arte auxilia o pensamento crítico e o pensamento crítico produz arte. É um ciclo retroalimentado de pensamento elevado para todas as áreas da humanidade. Nessa hora as ciências e as artes começam a se ver no horizonte, mesmo que à distância. Novas tecnologias nascem e se aprimoram em ateliês e não só em laboratórios (a nova geração de projetores a laser é um exemplo disso). O incremento do PIB é fruto do crescimento intelectual e cultural. Novos setores são criados, a economia se amplia pelas mãos de quem ousa, tem a criatividade a serviço do ímpeto, imaginação que experimenta novos caminhos e um mundo interior rico em complexidade. É quando as indagações sobre a vida se cruzam no teatro, na literatura e na música, amplificando a experiência humana como um todo. Mas estes assuntos eu nunca vou ter com quem não passa no teste.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias

Radiocaos Convescote

Neste episódio os textos e ideias prazerosas de Otto Leopoldo Winck, William Cruzoé Teca, Guilherme Zarvos, Sergio Viralobos, Edilson Del Grossi, Gabriele Gomes, Bernardo Pellegrini, Amarildo Anzolin, Francisco Cardoso de Araujo, Marielle Loyola, Flavio Jacobsen, Maurício Popija, Adriano Samniotto, Leonard Cohen, Wally Salomão, Natalia Barros, Trin London, Daniel Quaranta, Marcelo Brum-Lemos, Michel Melamed, Julio Cortazar, Mauricio Pereira, entre outros não menos alvissareiros.

Redação Plural.jor.br