28 jul 2021 - 8h45

O planalto está nu

Eu também estou, mas pelo menos admito

Dá um trabalhão esconder a própria mediocridade. Imaginou você ser horrível no que faz, mas precisar esconder o tempo todo? Ainda pior é ter que inventar desculpa toda hora. E depois quando as desculpas acabam ter que colocar a culpa em alguém. Se a pessoa estiver em destaque é ainda pior. Não é à toa que as pessoas têm pesadelos com estar peladas em público e não conseguir se esconder.

Agora, já pensou alguém que sempre foi péssimo em tudo e de repente vai parar onde tudo que se faz e se diz é escrutinado o tempo inteiro? Tipo assim, sei lá, a presidência da república? Um ministério? Ou um jornalista de bancada? O pesadelo de quem se encontra na mediocridade pública é o de ser avaliado de perto. No fundo os medíocres são aterrorizados pela noção da inconsistência entre a realidade e aquilo que mostram de si.

Ao fim, acabam por se tornar paranoicos, pois a única maneira de não se olhar no espelho é arrebanhar seguidores que funcionam como camada véu para aquilo que negam. Basta caprichar no proselitismo e catequizar novos neófitos para o lado da visão paranoica. Uma turba aplaudindo é a melhor maneira de desviar o olhar da nudez.

Porém, o recalque que a paranoia carrega faz o pavor crescer com quanto mais se sinta que o dia da verdade vai chegar.

A mediocridade paranoica talvez seja também um problema de potência diante da vida. Talvez o medíocre não veja outra forma de viver que a enganação. Não consegue cogitar outra vida sem ludibriar a si próprio e aos outros. A genealogia pessoal desse pensamento pode remontar ao estado de sentimento de impotência frente à vastidão do mundo — o que explicaria o motivo de atualmente o neofascismo ser abordado como uma manifestação de impotência que então se dirige infantilmente para a imagem do pai/salvador.

Quando nos dedicamos a um processo de criação precisamos colocar à prova nossas ideias e isto inclui a nossa mediocridade. A arte é uma metáfora para esse processo dolorido: é preciso tirar as ideias do papel, gritar a voz em público, levar o corpo para o palco. Isso atrita nossa ideias com o mundo e é desta maneira que algo pode realmente acontecer. É nesse momento que aquela ideia genial é posta à prova, pois uma ideia para ser genial deve ter passado pelo crivo do mundo. Aliás, concepção de ideia genial costuma dar na cabeça de quem ainda não tem maturidade com o assunto. É o novato quem acha que vai ser fácil, pois ainda se acha um gênio não reconhecido.

Esse processo árido de se colocar à prova é uma possibilidade de nos afirmarmos com potência na vida. É um exercício contínuo de se inventar em um cenário onde se está fora do controle. É a forma de depurarmos as melhores escolhas e averiguarmos o caminho por nós mesmos. É o caminho também da ciência.

Temos em Brasília hoje uma turma de homens e mulheres que não escolhem esse viés. Incapazes de se autoaveriguar enquanto se afirmam na potência em direção ao aprimoramento pessoal, preferem a paranoia que os afundam cada vez mais na mediocridade. Ao final, engrossam as fileiras dos medíocres amargurados: como o ministro da educação analfabeto ou o do meio ambiente desmatador que ainda assim são incapazes de lidar com qualquer tipo de crítica. Então, só lhes resta a saída da seita medíocre paranoica onde todos estão nus, mas para que ninguém note, é preciso desdenhar de quem ousa enxergar a própria nudez.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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