11 ago 2021 - 8h45

A sociedade secreta dos donos de cachorro

Ainda não sei quem é animal e quem não é

Greta é minha cadela. Greta Galgo, em homenagem à atriz de cinema Greta Garbo. Greta em português também significa fresta, abertura na janela ou na porta. Minha cadela tem sido exatamente isso durante a quarentena, um espaço por onde um pouco de vida passa para dentro do sistema, uma rajada de ar em formato de rabinho abanando na monotonia do home office e na rotina caseira, antes quebrada apenas pela buzina do motoboy. Claro que tem umas cacas para ajuntar, mas isso não diminui a alegria de se conectar com a cidade saindo um pouco do trabalho.

Foi justamente através de Greta que pude espiar uma sociedade secreta escondida no cotidiano bem em baixo dos olhos de todo mundo, mas mesmo assim invisível para os não iniciados: a sociedade secreta dos donos de cachorro. Todos se conhecem, às vezes trocam palavras na calçada, mas não sabem o nome um do outro – sabem o do cachorro. Também constroem afinidades pelas relações canídeas. Basta dois cachorros não se gostarem e os seus humanos nunca conversam. Isso Greta tem me proporcionado: conversas. Um hábito antigo agora cada vez mais atrofiado em tempos de intolerâncias explícitas. Melhor não provocar e evitar ser mordido – vai que é contagioso?.

Por mais que a iniciação a essas rodas de conversa onde se segura uma guia tenham me feito conhecer gente nova, eu sempre fico pensando se não vou achar a pessoa um verdadeiro animal.

Sou daqueles que considera o reacionarismo uma coisa animalizante. Desfiz amigos pela posição política e considero isso um acerto. Deixei de ser amigo quando começaram a rosnar ao invés de falar. Uma coisa é discordarmos, mas ainda assim discutir civilizadamente, usando o campo democrático, outra é eu querer atirar em quem discorda de mim. Encontrei alguns donos de cachorro assim e até agora não sei em qual ponta da guia estava a verdadeira besta.

Em verdade, burrice me dá preguiça e não tenho medo de definir assim. Só de pensar em uma pessoa anticiência ou que tem inclinações neofascistas já me desanima para o contato social ou familiar.

Não me orgulho dessa assepsia, mas preciso dela pra viver melhor.

Por enquanto sigo levando a Greta passear e me permito seguir o caminho escolhido pela curiosidade canina dela. Ainda não sei onde vai dar, mas o mero fato de aventar possibilidades para novas amizades me faz pensar o quanto isolado fiquei. Veremos. De qualquer forma é bom cuidar com os humanos, já que agosto é mês do cachorro louco.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

2 comentários sobre “A sociedade secreta dos donos de cachorro

  1. Muito bom! Não faz muito tempo entrei p/ esse mundo canino (meu cão tem muitos “aumigos” e dá muitos “lambeijos”) realmente não sei, ou não lembro, o nome da maioria dos donos (pais de Pets), mas dos “aumigos” lembro todos e inclusive cuido deles p/ que não briguem ou fujam! Como se fossem meus! E os outros donos tb fazem o mesmo! É o mundo paralelo da sociedade canina, eles brincam sem qualquer preconceito de cor, raça ou mesmo tamanho!

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