A mais safada da rua | Jornal Plural
23 fev 2021 - 1h00

A mais safada da rua

A moralidade brasileira pode até não dizer, mas todo mundo a reconhece quando ela fala. Já dizia minha avó

Toda pessoa que condena demais é uma tremenda safada, dizia minha avó. Ou será que ela leu Freud muito antes de mim? 

Ela dizia que a mais safada da rua era a mais carola. Não lembro bem dos detalhes – e não tenho mais como perguntar por que a sabedoria dos mais velhos é uma coisa que se pega no ar, naquilo que está pra além das palavras que tecem as histórias. 

A intenção da minha avó era me dizer para tomar cuidado com quem se faz de santo, imagino eu, mas parece que cair nessa armadilha é algo inerente ao humano. Afinal, como é que se faz para ver as coisas como elas realmente são? Não ensinaram isso na escola.  

Tenho certeza que minha avó não leu Freud – tinha estudado só até a quarta série –, mas sua análise sobre o fenômeno da projeção era precisa. A projeção, movimento de jogar para o outro aquilo que uma pessoa não dá conta em si mesma, é assunto frequente da psicanálise. Trocando em miúdos, o sujo fala do mal lavado e se dedica a atacar aos outros ao invés de cuidar de si, reprimindo questões mal resolvidas.  

Já reparou como todo canalha vive para projetar uma imagem de santo? Como as pessoas mais vigaristas são as primeiras a levantar a bandeira da moral e dos bons costumes? E que tal fulano que passou a vida falsificando atestados médicos, sendo detido por falta de ética e respondendo processos? Encarnou o discurso dos bons costume e levou uma vaga como deputado federal. 

Ou seja, desde o tempo da minha avó tem gente que ainda não aprendeu. 

O azar é que essas pessoas não estão sozinhas, elas se encontraram na internet, nas instituições, nas ruas, e juntas projetam suas questões mal resolvidas em massa. O problema é que o mecanismo da projeção de massa precisa de outra massa para odiar e apontar como fonte de todos os problemas que se resolveriam acaso tivesse coragem de olhar para si. Mas não tem e o diferente acaba se tornando sempre algo a ser criticado,  julgado, depois combatido e, por fim, destruído. 

A questão é que na diferença com o outro é que me identifico, conheço-me e me torno uma versão melhor de mim mesmo. Para ser o que e quem eu sou, preciso ser o que todos os outros não são, disse Lacan sobre a diferença.  

Um mundo de gente que se conhece é um lugar onde a igualdade se faz pelos desiguais alicerçados na autoafirmação diante das diferenças e, por isso, é capaz de produzir multiplicidades de idiossincrasias capazes de dar vazão às múltiplas potencialidades do ser humano. 

É no mundo das diferenças que os laços e vínculos sociais significativos podem se criar, que a legitimidade das ideias acontece pela prova real do seu teste prático e também de onde o amor pode emergir. 

O contrário disso é um bando de gente cafona e vigarista que só sabe odiar e vive para projetar violentamente as próprias neuroses nos outros para não admitir que, no fundo, é a mais safada da rua.  


Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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