8 set 2021 - 12h34

A importância da dúvida

E nossa semelhança com o Talibã

Temo o Talibã. Temo a ausência de liberdade que ele representa. Fiquei sabendo que ter dúvida é pecado para eles. Imagine, logo a dúvida, o eixo central da filosofia e da ciência. Esse mesmo eixo é o que se vê nas artes. Esse lugar de dúvida sobre a vida que impulsiona a criatividade sobre o viver, o corpo e a humanidade. É um lugar que se chega quando indagamos com autonomia e liberdade.

O Talibã explodiu estátuas milenares de Buda no Vale de Bamiyan, no Afeganistão, em 2001. Isso é equivalente a dinamitar uma ideia, pois é isso que uma estátua é, uma ideia talhada em pedra. Mas, afinal, o que esperar de quem considera a dúvida um pecado a não ser o desejo de destruição literal das ideias?

Por aqui também temos nosso Talibã tupiniquim. Tem gente que considera que pensamento lógico é perigosamente desvirtuante e que toda crítica é a manifestação pecaminosa desse desvio. Em certa medida, odeiam a lógica e a crítica  pois odeiam aquilo que não entendem. A turmas dos pançudos de bermuda cáqui e da tintura loiro-golpista considera esse papo de ciência coisa de comuna. Embora eles não estejam certos do que seja um comunista, têm a plena certeza de que todos os jornalistas vestem vermelho por baixo do casaco, ou seja, para essa gente um comunista é, em certa medida, o retorno do próprio fracasso. 

A dúvida nos leva à investigação que por sua vez nos leva à lugares inesperados e nos alinha com o estado da arte dos fazeres e saberes. O Brasil perde de se alinhar com as melhores mentes mundiais da política, da economia e da ciência pois coloca tudo como parte de um complô mundial para derrubar o presidente. A dúvida está no motor de todo avanço, mas, por aqui, ele perde a potência e a oportunidade de ser propulsor da crítica e da liberdade de pensamento. “Liberdade é escravidão” diz parte do slogan da distopia criada por George Orwell no livro 1984. A liberdade vem pela dúvida, que pontua uma falta, uma possibilidade de avanço por meio do desejo, mas que cobra um preço pela renúncia das maneiras antigas de se viver e se pensar. Isso fica muito claro quando observamos a mutação da arte no decorrer do tempo. Já pensou se estivéssemos para sempre fadados a pintar como os renascentistas? Adoro as pinturas dessa época, mas elas são mais belas enquanto representação do percurso criativo imparável da humanidade. Foi a dúvida que fez Wassily Kandinsky se perguntar “e se eu pintasse os meus pensamentos?”, foi a dúvida que fez Picasso se indagar “como eu reduzo minha pintura até o traço mínimo necessário de uma ideia?”. O resto foi história, mas só aconteceu pela inquietação de mentes criativas, tais como aquelas que enfrentaram muitas dúvidas até chegarem a uma vacina para a Covid-19.

Mas aqui no Brasil está se celebrando as certezas mortas, vazias de dúvidas. Fazem até passeata para isso. Por isso não é de agora que a arte é criticada por aqui, também pudera, ela nasce em resposta às dúvidas e o Talibã odeia isso.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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