6 out 2021 - 8h15

A arte é uma coisa boa até pra quem desdenha dela

A arte não é só uma coisa que combina com o seu sofá, arte é caminho para lidar com o sistema complexo de percepção de mundo

Uma das coisas que tenho ouvido e que me dá a certeza de que o Brasil está ficando cada vez mais bruto, mais cognitivamente inoperante, são coisas do tipo “a arte boa é só a arte que vende”. Essa fala aponta para uma demagogia sombria que reduz tudo a soluções simples que perdem de vista uma análise situacional mais ampla.

Quando Churchill foi indagado sobre mais cortes no orçamento do ministério da Cultura inglês respondeu: “Ora, mais então para que estamos lutando?”. A arte é o que se faz quando tudo vai bem, por isso, deve ficar no horizonte como baliza para um futuro mais iluminado.

Mas o Brasil tem pervertido a imagem da arte.

Nas redes sociais pululam especialistas querendo acabar com a Rouanet e qualquer forma de edital, dizendo que toda arte é parasita do Estado, que a arte é algo apenas decorativo, que só deve existir a arte que serve para ser produto consumível. Esse demagogismo faz imaginar a classe artística como uma espécie de vínculo com um comunismo stalinista. Nunca viram o artista que vive do seu ofício, que vende ingresso, que vende livro, que vende obra, que dá aula, que produz, que organiza, que orienta. Acham que todo artista é milionário aprovando projeto na Rouanet ou cabide. É uma visão míope para um setor que já injetou bilhões de reais na economia.

A arte não é só uma coisa que combina com o seu sofá, arte é caminho para lidar com o sistema complexo de percepção de mundo, maneira de dar forma para a inteligência intrapessoal, via para trabalhar a metacognição, aprendizado para lidar com hipóteses e informações inúteis (o que aproxima a arte da ciência) e formação de percepção simbólica de mundo que nos prepara para lidar com conceitos, como a ética e como a felicidade.

A arte ainda pode nos ensinar caminhos para a nova economia criativa, para um mundo em constante mudança e também, para um mundo onde a voz pessoal está sendo soterrada.

Não obstante, a arte e a cultura atreladas à educação formam base para um cidadão mais íntegro e ético, já que nem tudo é ensinada pela lógica matemática vigente no sistema de ensino. Uma visão de mundo cartesiana demais pode deixar de fora o que é metafísico, sem espaço para o não dito e o que ainda é desconhecido, deixando de lado o poder da experiência e a potência do processo. E nisso a arte pode ajudar.

Luto por um Brasil mais culto, empoderado pelo poder da palavra e dado a produzir pensamento e não a repetir pensamento. Por isso um país mais civilizado precisa muito de seus artistas.

Uma vez uma pessoa me disse que os grafites na rua deveriam ser de gente mentalmente degenerada. Mal sabe ela que é exatamente o que diziam os nazistas sobre a arte de rua.

Mas o que ela sabe sobre história e sobre arte, não é mesmo? Ela não foi a um museu. Isso para ela é bobagem.

É hora de começar a lutar para dar mais cultura para aqueles que acham que não precisam dela. Mais museus, espetáculos, dança, orquestras, balés para esse país. É preciso apresentar ao povo novas e melhores possibilidades de metaforizarão para a vida.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Um comentário sobre “A arte é uma coisa boa até pra quem desdenha dela

  1. Guilherme…..que sábias palavras…era TUDO que eu esperava de um artista para traduzir o silêncio e a empáfia desse momento pífio do brasileiro…..espetáculo!!

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