Vale lembrar Oswaldo Cruz – hoje e sempre | Jornal Plural
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6 maio 2020 - 16h52

Vale lembrar Oswaldo Cruz – hoje e sempre

O médico enfrentou a Revolta da Vacina, deflagrada nas ruas do Rio de Janeiro, em 1904. Protesto foi contra a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola e campanhas de saneamento na cidade

De máscara e guarda-chuva, enfrentando o tempo de Curitiba, há quem tenha puxado pela memória ao atravessar uma praça – a que leva o nome de Oswaldo Cruz. E não apenas porque o país registrou mais mortes pelo Covid-19, mas porque, em 1904, em circunstâncias bem mais adversas, Oswaldo Cruz comandou o combate à varíola e à febre amarela – sendo obrigado a tornar obrigatória a vacina. Houve reação, como hoje, quando muita gente não fica em casa e, pior, dispensa o uso de máscara.

Sobre a Revolta da Vacina: foi um motim popular ocorrido entre 10 e 16 de novembro de 1904 na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Seu pretexto imediato foi uma lei que determinava a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, mas também é associado a causas mais profundas, como as reformas urbanas que estavam sendo realizadas pelo prefeito Pereira Passos e as campanhas de saneamento lideradas pelo médico Oswaldo Cruz.

A propósito, há algumas frases (definitivas) do médico e cientista, nascido em São Luís do Paraitinga (SP), em 5 de agosto de 1872:

– Pelos erros dos outros, o homem sensato corrige os seus.

– Sem esmorecer para não desmerecer.

 – Corte-se até a verba para a alimentação. Mas não se sacrifique a biblioteca.

A doença e os políticos

Entre os dias 10 e 18 de novembro, a cidade do Rio de Janeiro viveu o que a imprensa classificou de “a mais terrível das revoltas populares da República”. Bondes tombados, trilhos arrancados, calçamentos destruídos – tudo feito por uma massa de 3.000 revoltosos. A causa: a lei que tornava obrigatória a vacina contra a varíola. E o alvo principal era o jovem médico sanitarista Oswaldo Cruz.

Dos registros históricos: “Ao sentir a insatisfação popular, a oposição tratou de canalizá-la para um plano arquitetado bem antes: a derrubada do presidente da República, Rodrigues Alves. Mas os próprios insufladores da revolta perderam a liderança e o movimento tomou outros rumos. E, em meio ao conflito, com 30 mortos, 110 feridos, cerca de 1.000 detidos e centenas de deportados, veio o golpe com o objetivo de restaurar as bases militares dos primeiros anos da República”.

Laboratório no porão

Oswaldo Cruz

O médico e cientista, Oswaldo Gonçalves Cruz nasceu em 5 de agosto de 1872, filho de Bento Gonçalves Cruz e Amália Bulhões Cruz. Sua família foi morar no Rio de Janeiro em 1877, na então capital do Brasil desde 1736, quando o governo foi transferido de Salvador para o Rio, “pois o ouro e os diamantes passaram a ser escoados pelo porto do Rio de Janeiro, aumentando a sua importância econômica e política”.

Na capital, frequentou os Colégios Laure e São Pedro de Alcântara, bem como no Externato Dom Pedro II. Graduou-se na Faculdade de Medicina do Rio em 1892, defendendo a tese de doutoramento “A vehiculação microbiana pelas águas”. Antes de concluir o curso, já tinha dois artigos publicados sobre microbiologia, na revista Brasil Médico.

Era grande o interesse pela microbiologia, tanto que montou um laboratório no porão de sua casa. Com a morte do pai, no mesmo ano de sua formatura, Oswaldo deixou seus estudos de lado por um tempo. Dois anos depois, a convite de Egydio Salles Guerra, que se tornaria seu amigo e biógrafo, trabalhou na Policlínica Geral do Rio de Janeiro, onde era responsável pela montagem e a chefia do laboratório de análises clínicas. Em 1897,  viajou para Paris, onde permaneceu por dois anos estudando microbiologia, soroterapia e imunologia no Instituto Pasteur, e medicina legal no Instituto de Toxicologia.

Peste bubônica em SP

De volta da capital francesa, Oswaldo Cruz reassumiu o cargo na Policlínica Geral e integrou a comissão de Eduardo Chapot-Prévost para estudar a mortandade de ratos que tinha gerado um surto de peste bubônica em Santos. De volta ao Rio, assumiu a direção técnica do Instituto Soroterápico Federal, que era construído na Fazenda Manguinhos. A instituição, sob o comando do barão de Pedro Affonso, proprietário do Instituto Vacínico Municipal, foi fundada em 1900.

Dois anos depois, o jovem bacteriologista assumiu a direção do Instituto e trabalhou para ampliar suas atividades para além da fabricação de soro antipestoso, incluindo a pesquisa básica aplicada e a formação de recursos humanos. No ano seguinte, chegou ao comando da Diretoria-Geral de Saúde Pública (DGSP).

PS: viver continua perigoso.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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