Um elogio que se renova a cada voto | Jornal Plural
16 nov 2020 - 19h02

Um elogio que se renova a cada voto

Votar é obrigatório, mas uma coisa é facultativa, depende do eleitor: enaltecer o trabalho dos mesários e demais auxiliares

Com o passar do tempo (eleitoral), muitas coisas mudaram: o sistema informatizado de votação, com a consolidação do cadastro único e automatizado de eleitores, teve início em 1985.  E foi concluído em 1986, na gestão do ministro Néri da Silveira à frente do TSE – Tribunal Superior Eleitoral.  

O Brasil contava com cerca de 70 milhões de eleitores. Antes, sem um registro nacional, havia (e sobrava) espaço para fraudes no cadastro.  

Já em 1994, com o ministro Sepúlveda Pertence na presidência do TSE, foi realizado pela primeira vez um processamento eletrônico do resultado das eleições gerais. Com recursos computacionais da própria Justiça Eleitoral. Passo seguinte: a criação da urna eletrônica e a montagem da infraestrutura necessária para a votação eletrônica, com a criação da rede nacional da Justiça Eleitoral, conforme registros do programa Memórias da Democracia, produzido pelo Tribunal.  

Antes da urna eletrônica  

A rede nacional da Justiça Eleitoral permitia transmitir a alguns centros regionais as apurações de cada município. Assim, e antes da urna eletrônica, graças ao trabalho da rede foi possível oferecer o resultado da eleição presidencial de 1994 às 10 horas/11 horas da noite. Ou seja, anunciar o candidato que tinha alcançado a maioria absoluta, como lembraria Sepúlveda Pertence.  

Evolução e revolução  

Ainda dos registros históricos: a partir de 1995 “veio a grande revolução que foi o voto eletrônico”. Em 1996, os votos de mais de 32 milhões de brasileiros (um terço do eleitorado da época) foram coletados e totalizados por meio das mais de 70 mil urnas eletrônicas produzidas para aquelas eleições. Participaram 57 cidades com mais de 200 mil eleitores, entre elas, 26 capitais (o Distrito Federal não participou por não eleger prefeito). As urnas foram distribuídas por aviões da FAB – Força Aérea brasileira.  

Nota 10 até na fila  

Em Curitiba, certamente a exemplo de outros pontos eleitorais, quem votou no Colégio Estadual Professor Loureiro Fernandes, no bairro do Ahú, mereceu (como das vezes anteriores) um tratamento de primeira. Tanto do pessoal que cuidava da fila que ganhava corpo na calçada como no portão de entrada, no encaminhamento para as salas do colégio. Não só por isso, mas também por isso, vale lembrar quem foi Loureiro Fernandes.  

Uma figura ímpar  

Menino xetá e José Loureiro Fernandes. Crédito da foto: Vladimir Kozák/acervo do Museu Paranaense,

José Loureiro Ascenção Fernandes (março de 1903 – 16 de fevereiro de 1977) foi um médico, antropólogo e etnógrafo. Nasceu em Lisboa, mas foi registrado no Consulado Brasileiro, pois seus pais, portugueses, residiam no Brasil. Médico por formação, ele se dedicou também à antropologia e etnologia.  

O professor José Loureiro Fernandes era o responsável pela cátedra de Antropologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Paraná, criada em 1938. Especialista em Antropologia, com formação na França, ministrava as disciplinas de Antropologia Física, Etnografia Geral e Etnografia do Brasil para os cursos de Geografia e História, em 1950; e Antropologia Física, Antropologia Cultural e Etnografia do Brasil para as Ciências Sociais, em 1956. Além disso, tendo concluído sua tese em Medicina em 1927, passou a seguir um ano se especializando em Urologia clínica em um hospital especializado de Paris.  

Estudos e mais estudos  

José atuou junto ao Museu Paranaense, coordenando a área de antropologia e etnografia, ocupando o cargo de diretor por duas oportunidades nos períodos de 1936 a 1943 e 1945 a 1946. Dirigiu o Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas – Cepa, criado em 1956. Investiu na atualização e especialização em arqueologia pré-histórica – criou e dirigiu o Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR – MAE, localizado na cidade de Paranaguá. Criou e dirigiu o Departamento de Antropologia de 1958 a 1968, quando se aposentou da cátedra de Antropologia. O Departamento de Antropologia que integrava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras foi integrado ao Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, SCHLA, da Universidade Federal do Paraná.  

Um brasileiro por opção  

Confissões de José Loureiro Fernandes ao agradecer a concessão do título de Cidadão Honorário de Curitiba, outorgado pela Câmara Municipal em janeiro de 1960:  

– De todas as distinções honoríficas que recebi nenhuma tão alta em significação como esta para minha vida de brasileiro (…). Nestas buscas das razões íntimas que me haviam trazido a convicção de ser um cidadão de Curitiba (…) invoquei e foram preponderantes as tradicionais raízes de família que por gerações me vinculam ao passado desta cidade. São os vínculos maternos, em cuja ascendência patrilinear há, novamente, um avô beirão – José Fernandes Loureiro, brasileiro por naturalização, presidente que foi desta Câmara, intendente municipal, governou a cidade. A linha matrilinear desta progênie vive em cinco gerações da história de Curitiba, através do tronco Corrêa de Bittencourt, aqui radicado há dois séculos. 

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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