Que falta faz (até) o Mobral... | Plural
12 jan 2020 - 23h34

Que falta faz (até) o Mobral…

Guimarães Rosa escreveu que viver é perigoso. O ministro da Educação, e suas escorregadas gramaticais, deve concordar

Por conta das (terríveis) mancadas de Abraham Weintraub, ministro da Educassão, que escreve paralisação com Z, suspensão com Ç, impressionante com C, incitaria com S, e do próprio Bolsonaro, para quem os livros didáticos são um lixo, amontoado de muita coisa escrita, há quem tenha recorrido a Ferreira Gullar, poeta, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Sobre o emprego correto da crase, que ainda derruba muita gente (imagine o tal presidente e seu ministro), Ferreira Gullar, na verdade José Ribamar Ferreira, sentenciou: a crase não foi feita para humilhar ninguém.

Ferreira Gullar: defensor da crase.

Certamente o mininstru… Epa! Perdão. Certamente o ministro concordaria com Ferreira Gullar, tascando outra pérola para o Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País, de Sérgio Porto:

– É iço mermo, tudo não paça de entriga da opocissão pra umilhar eu e meu terrorífico governo…

Dispensando acentos

Em 2009, entrou em vigor no Brasil a reforma ortográfica que englobava os países de língua portuguesa: Portugal, Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Timor Leste e Cabo Verde e Timor Leste assinaram o acordo, eliminando a tradução de português para português.

Por conta disso, palavras como ideia e voo perderam os acentos. Só falta o atual ministro propor a reforma da reforma, liberando o uso de todo e qualquer erro de grafia, a começar pelo a turma foram

Fi-lo porque qui-lo

Jânio Quadros gostava de empregar construções gramaticais eruditas.

Há quem goste (e tenha condições) de utilizar palavras difíceis e há quem tropece ou escorregue nas palavras mais simples. No primeiro caso, temos Jânio da Silva Quadros (1917-1991). Vigésimo segundo presidente do Brasil, de 31 de janeiro de 1961 a 25 de agosto de 1961, data em que renunciou, botando a culpa nas “forças ocultas” que agiam contra ele.

Nascido em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, era filho de família paranaense. Fez os primeiros estudos em Curitiba. Nos anos 1930, foi para São Paulo. Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo, em 1939. Atuou na advocacia e lecionou no curso ginasial antes de entrar para a vida pública.

Jânio gostava de usar palavras difíceis, construções eruditas, para manter a imagem de pessoa culta. Reza o folclore político que, ao ser indagado sobre os motivos de sua renúncia, teria dito: “Fi-lo porque qui-lo”.

Auxiliado por Afonso Arinos, ministro das Relações Exteriores, Jânio tentou implantar “uma política independente e neutra”, buscando maior aproximação com os países socialistas, com o objetivo de aumentar as exportações. Vale registrar que Jânio restabeleceu as relações com a então União Soviética, assumiu a defesa de Cuba e do regime implantado na ilha por Fidel Castro e deu um susto nos conservadores quando concedeu a Ernesto Che Guevara a Ordem do Cruzeiro do Sul, a maior condecoração do país.

Na falta de revisão…

Dom Pedro II: muletas, maletas ou mulatas.

Ainda sobre as palavras traiçoeiras e a importância de uma revisão. Na imprensa escrita, velhos tempos do jornal papel, há um episódio incrível, envolvendo Dom Pedro II. Ao cair do cavalo durante um passeio, o imperador provocou uma onda de boatos na Corte e na cidade do Rio de Janeiro. Para demonstrar que estava bem, resolveu dar um passeio pelo Paço Imperial, apoiado em duas muletas. Aí, o jornal Aurora Fluminense publicou que o Imperador reapareceu sorridente e foi visto amparado por duas maletas. Isso mesmo: maletas. Para consertar a mancada, o jornal fez a correção na edição seguinte quanto ao “lamentável equívoco”. Pior a emenda do que o soneto: Dom Pedro II estaria amparado não em duas maletas, mas em duas mulatas

Parodiando Guimarães Rosa, escrever é muito perigoso.

PShá quem tenha comentado:

– O dito cujo ministro do Bolso deve ter fugido do Mobral… O Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) foi criado em 1970 pela ditadura civil/militar de 1964. Proposta: erradicar o analfabetismo no país em 10 anos. O programa foi extinto em 1985 e substituído pelo Projeto Educar.

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