Quando um livro dá nó na cabeça (alheia) | Jornal Plural
18 maio 2020 - 15h37

Quando um livro dá nó na cabeça (alheia)

Como escreveu Mario Quintana: “O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”

A cena, alguém diria desconcertante, ou meio surreal, teve testemunhas. Dia desses, caminhando pela Avenida João Gualberto, em Curitiba, um amigo se deparou com um dos chamados moradores de rua lendo, isso mesmo, lendo um livro. Ou, pelo menos, estava focado numa página interna, devidamente deitado sobre trapos e farrapos, a sua cama, juntinho ao degrau de um prédio. Degrau que o protegia de pessoas andando apressadamente, como se fossem tirar o pai da forca.

Que livro tão interessante seria aquele para quem vive desprotegido de quase tudo, ao deus-dará? No dia seguinte, em plena tarde, ao passar novamente pelo local, nosso amigo pôde, enfim, matar a curiosidade: o indigente estava dormindo, o livro ao lado, com um marcador de página, o que permitia ver a capa e o título da obra: Não Tenha Medo de Ser Chefe. Isso mesmo.

E, incrível coincidência, o curioso pedestre também tinha, em casa, um exemplar da publicação. O livro, de autoajuda, é de Bruce Tulgan. Consultor de carreira, ele montou um manual para quem quer se tornar líder, publicado pela Editora Sextante. E desmistifica a função: “As pessoas não devem enxergar um alto cargo como um fardo, e sim como uma oportunidade de ser útil e alcançar sucesso profissional”.

O “velho” subgerenciamento

Segundo Tulgan, o maior problema das empresas nos tempos atuais é a “epidemia de subgerenciamento” – “fenômeno que começou com a chamada geração X (nascidos entre 1965 e 1977) e que se intensificou nos últimos anos”. E, “para que os leitores sejam capazes de ocupar esses postos urgentes e vagos, o autor indica ferramentas para comandar equipes, corrigir falhas com rapidez e saber recompensar as qualidades de seus subordinados”. Breve trecho:

– A epidemia de subgerenciamento estava na nossa cara o tempo todo. Em 1993, comecei a investigar o comportamento profissional da geração X (os nascidos entre 1965 e 1977), as pessoas da minha geração que estavam entrando no mercado de trabalho.

E o nosso amigo, que, aliás, não conseguiu ler o tal livro até o final, ficou imaginando qual seria o próximo passo do morador de rua para concretizar o sugerido pelas receitas e “deixar para trás arrependimentos e erros do passado e seguir em frente, inteiro, com mais chances de realização pessoal e profissional”…

O jeito para a sinuca de bico foi recorrer a Mário Quintana, poeta, tradutor e jornalista, o “poeta das coisas simples”:

– O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Não passarão… eu passarinho

Mário Quintana – um solitário fazedor (e devorador) de livros. Assim sendo, um recluso. Morreu em 1994, aos 87 anos, em Porto Alegre, no hospital Moinhos de Vento. Até nisso foi poético: Hospital Moinhos de Vento...

Não deixou esposa ou filhos. Mas, segundo amigos, “era uma pessoa que, apesar dos pesares, encarava a vida de frente para escrever algo tão leve e simples como isso”:

– Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!

Anotaram a placa?

Vale lembrar um episódio: no dia 6 de maio de 1985, Mario Quintana foi atropelado por um carro, em Porto Alegre. Socorrido pelo motorista, no hospital, após uma cirurgia no fêmur, quis saber:

– Anotaram a placa?

Explicaram para ele que, preocupado com a saúde da vítima, o motorista estava no hospital. Ao que o poeta insistiu:

– Vocês, vocês não estão entendendo, eu queria saber a placa para jogar no bicho…

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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