Para certas pragas jamais haverá vacina | Jornal Plural
9 dez 2020 - 17h19

Para certas pragas jamais haverá vacina

Muitos avanços através dos tempos, mas não surgiu nem surgirá uma vacina para debelar a praga que perdura – a crueldade do ser humano

Sobre os encontros e desencontros a propósito da distribuição da vacina contra a Covid-19, há quem tenha voltado no tempo. Começando pela palavra vacina: ela vem do latim vaccinus, que significa “derivado da vaca”. Isso mesmo. Trata-se de uma descoberta do inglês Edward Jenner, médico responsável pela vacina contra a varíola. Segundo os registros históricos, ele percebeu que muitas pessoas que ordenhavam vacas não contraíam a doença, pois já tinham adquirido a varíola bovina.  

O Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), é responsável por pesquisa, inovação, desenvolvimento tecnológico e pela produção de vacinas, reativos e biofármacos voltados para atender prioritariamente às demandas da saúde pública nacional.  

Do pólio ao tétano  

Ainda dos registros históricos: as vacinas, fundamentais para o combate a doenças na história da medicina, estão também no epicentro de debates sobre tratamentos medicinais efetivos e leis compulsórias de imunização. Ao longo da história, elas ajudaram a reduzir de maneira expressiva a incidência de pólio, sarampo e tétano, entre outras doenças.  

Ensinando o organismo  

Substâncias biológicas introduzidas no corpo a fim de protegê-lo, as vacinas ativam o sistema imunológico, “ensinando” o organismo a reconhecer e combater vírus e bactérias em casos futuros de infecções. Para isso, são compostas por agentes semelhantes aos microrganismos causadores de doenças, por toxinas e componentes desses micro-organismos ou pelo próprio agente agressor.  

Pó de cascas de feridas  

Ainda dos registros médicos: os primeiros vestígios do uso de vacinas, com a introdução de versões atenuadas de vírus no corpo das pessoas, estão relacionados ao combate à varíola no século 10, na China. A teoria, no entanto, era aplicada de forma bem diferente, bem diferente mesmo: os chineses trituravam cascas de feridas provocadas pela doença e assopravam o pó, com o vírus morto, sobre o rosto das pessoas.  

A varíola bovina  

Edward Jenner.

Em 1798 o termo vacina surgia pela primeira vez, por conta de uma experiência do médico e cientista inglês Edward Jenner. Ele tinha ouvido relatos de que trabalhadores da zona rural não pegavam varíola, pois já haviam tido a varíola bovina, de menor impacto no corpo humano. Ele decidiu introduzir os dois vírus em um garoto de 8 anos e percebeu que os relatos tinham, de fato, uma base científica.  

A palavra vacina deriva justamente de variolae vaccinae, nome científico dado à varíola bovina. Já em 1881, o cientista francês Louis Pasteur começou a desenvolver a segunda geração de vacinas voltadas a combater a cólera aviária e o carbúnculo. E Pasteur optou pelo termo para batizar a sua recém-criada substância, em homenagem a Edward Jenner.  

A partir de então, as vacinas começaram a ser produzidas em massa e se tornaram um dos principais elementos para o combate a doenças no mundo.  

O “azar” de quem é pobre  

Nada de novo, infelizmente: os obstáculos para que as vacinas sejam desenvolvidas em maior escala é político: afinal, as doenças prevalecem principalmente em países pobres e não há interesses econômicos, por parte da grande indústria farmacêutica, para voltar seus esforços a elas.  

Para que uma vacina seja aplicada em um paciente, seja ela produzida aqui ou no exterior, ela passa por um longo processo que envolve a compra, avaliação, liberação e distribuição pelo país. No Brasil, o Ministério da Saúde é o órgão responsável pela compra e distribuição de todas as unidades que serão utilizadas no sistema público de saúde.  

As vacinas passam por uma avaliação feita pelo INCQS (Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde) e, após liberação, são enviadas para os Estados. Em casos de substâncias importadas, elas devem ser liberadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) após passarem pela alfândega.  

O episódio da varíola  

A Revolta da Vacina, em 1904, provocou estragos na cidade do Rio de Janeiro.

No Brasil, um episódio de extrema violência marcou a primeira campanha de vacinação lançada pelo governo federal. Foi em 1904, no Rio de Janeiro, quando a vacinação obrigatória para combater a varíola.  

O projeto foi aplicado de forma autoritária: com pouca informação para a população, agentes sanitários invadiram casas e vacinaram pessoas à força, provocando reação popular, que entrou para a história como a Revolta da Vacina. Boa parte da população não sabia do que se tratava a substância e temia ser infectado pelo vírus da doença a partir da injeção.  

Vai daí que a Organização Mundial da Saúde (OMS), órgão vinculado à ONU, passou a ter um papel fundamental no combate a doenças em termos internacionais, especialmente em países subdesenvolvidos.  

Plano de ação global  

Em 2012, a OMS aprovou o Plano de Ação Global de Vacinas, uma estratégia debatida e firmada pelos 194 países-membros da organização para ser implantada durante os 10 anos seguintes. Entre as metas: apresentar novas e melhores vacinas e tecnologias, fortalecer a imunização rotineira e melhorar o controle de doenças bem conhecidas.  

O plano, porém, foi duramente criticado por algumas organizações, como a Médicos Sem Fronteiras, por “ignorar particularidades de alguns países, como a dificuldade de acesso a postos de saúde”. No Brasil, a vacina chegou em 1804, graças ao marquês de Barbacena.  

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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