Palavras que sumiram do mapa | Jornal Plural
5 dez 2019 - 0h50

Palavras que sumiram do mapa

Padaria ou panificadora? Francisco Camargo lembra algumas palavras que caíram em desuso

O breve diálogo ocorreu na rua, dias atrás. Um rapaz interrompe de maneira cordial a caminhada de um cidadão. E, meio aflito, pergunta:

– Por favor, onde posso encontrar uma padaria?

– Logo ali, na próxima esquina, tem uma… panificadora.

– Obrigado, preciso comprar pão…

O cidadão retoma a caminhada, pensando com seus botões: padaria? – há muito tempo não ouvia essa palavra.

E lhe vieram à mente outras palavras que foram varridas do mapa, ao contrário de muitos políticos picaretas ou nazifascistas que continuam em cena. Caso de ínclito, aquele que se destaca por qualidades extraordinárias; publicamente conhecido e admirado pelo seu talento; celebrado; admirado por seus méritos e suas excelentes características. Aí, concluiu com seus botões: esse adjetivo foi sepultado de vez por conta do Bolso e seus asseclas.

Na sequência, montou mentalmente um dicionário de palavras fora do baralho, incluindo fora do baralho:

– Vosmecê: uma forma simplificada do pronome de tratamento Vossa Mercê, originalmente usada em Portugal para se referir a autoridades. Com o tempo, foi caindo em desuso até se chegar à forma conhecida como o popular você. E imaginou o choque que seria um convite, nos dias atuais, na base do “vosmecê quer ir tomar uma no boteco?”.

– Esbulho: ato ou efeito de esbulhar, ou seja, ato de usurpação pelo qual uma pessoa é privada, ou espoliada, de coisa de que tenha propriedade ou posse.

– Assunar: muito antigamente, significava juntar. “Estou pensando em assunar as garrafas vazias que se espalharam na churrasqueira”.

– Lero-lero: conversa que nada acrescenta. “O debate na TV não passou de um tremendo lero-lero”.

– Borocoxô: quer dizer ficar triste, desanimado. “Ele anda meio borocoxô depois de ter votado no Bolsonaro.”

 Supimpa: algo bem legal. “O Athleticão  encerra o ano de maneira supimpa!”

– Brega: coisa feia ou estranha.

E por aí vai (ou fomos)

Ainda sobre palavras, temos as deveras desconcertantes. Abichornado: que se tornou abafado, sufocante; abatido, desanimado. Exérese: substantivo feminino: remoção por cirurgia; separação violenta dos elementos de um órgão em virtude de lesões traumáticas. Bilontra: espertalhão, velhaco, patife, malandro, libertino. Írrito: que ficou sem efeito, nulo, vão. O que não teve efeito, coisa nula ou inútil. Este ato legislativo foi considerado inconstitucional – portanto írrito. Antonomásia: substituição de nome próprio por nome comum ou expressão (perífrase), ou vice-versa. Exemplo: Águia de Haia (Rui Babosa). Cognome, apelido.

E não dá para deixar de lado a nocauteante palavra preboste. Preboste vem a ser, ou foi, um antigo juiz militar. Assim prebostado é, ou foi, alguém que ocupava o cargo de preboste.

Casa da mãe Joana significa lugar onde todo mundo manda, sem dono. “Por favor, meu filho, arrume seu quarto. Aqui não é a casa da mãe Joana”.

Munheca, em outros tempos, era uma referência a pão-duro. “Aquele munheca tem a coragem de cobrar uma dívida de 2 cruzeiros, acredita?”

Convescote quer dizer piquenique. “Sábado levarei as crianças para um convescote no parque”.

Botica é sinônimo de farmácia. “Estou com dor de cabeça, vou até a botica comprar Melhoral, que é melhor e não faz mal”.

Depós significa após. “Tenho de ir ao banco, mas só depós da consulta médica”. Muito parecido com o depois, que usamos atualmente.

Apalermado remete a bobo. “Não gosto das brincadeiras daquele apalermado”.

Outrossim tem o mesmo efeito de tambémalém disso. “Ele está com o mapa dentro do carro, vamos segui-lo. Outrossim, ele já esteve nessa fazenda mais de uma vez”.

Pé de valsa: pessoa que dança bem.

Víspora: bingo. Jogo que era comum em quermesses e festas beneficentes. Feliz era quem podia gritar bingo!

E, como a reforma ortográfica de 2009 aboliu o uso de acento em algumas palavras, mas não mexeu na malvada crase, que até hoje complica a vida de muita gente, vale citar o poeta Ferreira Gullar:

– A crase não foi feita para humilhar ninguém.

Um PS: nesses tempos modernosos, há quem torça para que sumam do mapa imediatamente três recados mais do que constantes na e fora da internet:

– Tá ligado?

– Tudo belê?

– Maravilha!

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