O morro não tem vez (e não é de hoje) | Jornal Plural
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25 set 2019 - 22h02

O morro não tem vez (e não é de hoje)

Como se sabe, as favelas continuam na mira dos donos do poder

Como se sabe, as favelas continuam na mira dos donos do poder. O nome favela vem da Guerra de Canudos, conflito que durou de 7 de novembro de 1896 a 5 de outubro de 1897. O povoado de Canudos, com Antônio Conselheiro à frente, na Bahia, surgiu perto de um morro chamado Favela – nome de uma planta da região. Após o conflito, combatentes que retornaram ao Rio de Janeiro não receberam o soldo e foram abandonados à própria sorte, condenados ao deus dará. Restava, então, a favela.

“Limpeza” para não constranger a rainha

Rio de Janeiro, 1968. Os preparativos para receber a Rainha Elizabeth II incluem a limpeza da cidade, o que o jornal Última Hora denunciou como a operação mata mendigos. Recolhidos das ruas, eram torturados, mortos e jogados nos rios da Guarda e Guandu. O governador era Carlos Lacerda.

Outras coisas constrangedoras marcaram a visita de Sua Majestade: conta-se que o presidente Costa e Silva, na festa de recepção, teria se embolado ao pronunciar a saudação God Save The Queen (Deus Salve a Rainha), balbuciando algo como God… God… The Queen. Uma mancada que imediatamente nos remete, hoje, ao Boso.

Tirando proveito da operação limpeza, a especulação imobiliária aproveitou o momento: remover barracos e favelas para grandes empreendimentos com vistas para o mar. A começar por um lixão que concentrava moradores de rua.

Mas, conforme Jean-Paul Sartre, “a violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”.

Favela no cinema

O filme é de 1962: Cinco Vezes Favela. Produção de Leon Hirszman, Marcos Farias e Paulo César Saraceni – mais o Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE). São cinco episódios, é claro, com trabalho dos diretores Marcos Farias, Miguel Borges, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman. Trilha sonora de Carlos Lyra: Escola de Samba Alegria de Viver e Couro de Gato; Hélcio Milito: Pedreira de São Diego; Mário Rocha – Um Favelado e Zé da Cachorra; e Geraldo Vandré – Couro de Gato.

No ritmo do samba

E vale lembrar também A Voz do Morro – de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, trabalho igualmente de 1962:

O morro não tem vez
E o que ele fez já foi demais
Mas olhem bem vocês
Quando derem vez ao morro
Toda a cidade vai cantar
2X
Samba pede passagem
O Morro que só estar
Abram alas pro morro tamborim vai falar
É 1, é 2, é 3, é 100, são 1000 a batucar
O Morro não tem vez
Quando derem vez ao morro o mundo inteiro vai cantar
Samba pede passagem
O Morro quer se mostrar
Abram alas pro morro
Tam… bo…rim vai falar
É um é dois é três é cem é mil a batu…car
O morro não tem vez
Mas se derem vez ao morro
O mundo inteiro vai cantar
Vai cantar, vai cantar…

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