O jornalismo e a corrida de cavalos | Jornal Plural
11 mar 2020 - 22h09

O jornalismo e a corrida de cavalos

Afinal, há jornalistas e jornalistas, como há jornais e jornais. Importante é o jornalismo plural

Não é de hoje a antipatia de muita gente (e de muitos setores) em relação a jornalistas. Em muitos e muitos casos, procede. Afinal, há jornalistas e jornalistas, como há jornais e jornais. Importante é o jornalismo plural – ou seja, Plural. E chegamos ao Boso – antes desbragadamente apoiado e, hoje, hostilizado por veículos que fizeram o diabo para elegê-lo.

Não é uma questão apenas nossa, mas mundial. Tanto que, em artigo publicado na revista Carta Capital, tempos atrás, Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008, autor de diversos livros, e colunista do The New York Times, fez uma comparação definitiva:

– Quando reportagens citaram um plano de governo, geralmente foi uma análise de corrida de cavalos, sobre como ela se desenrola, e não o que há nela.

Reportagem de “segunda ordem”

No texto “O jornalismo desinformado”, Krugman conta que certas reportagens “passam direto pelas verdadeiras questões políticas para especular sobre como elas influirão politicamente. Penso nisso como reportagem de ‘segunda ordem’, e é quase sempre ruim”.

Mais adiante, refere-se à campanha presidencial de 2004, nos EUA, quando fez “pesquisas minuciosas percorrendo dois meses de transcrições de noticiários da tevê”.

E destaca o que encontrou: “O senhor Kerry propõe gastar 650 bilhões de dólares para ampliar o seguro-saúde para famílias de baixa e média renda. Quer você aprove, quer não, não pode dizer que ele não abordou o tema. Por que este eleitor não ouviu falar a respeito?”.

Prossegue o Nobel: “Não importa os detalhes, eu não pude encontrar sequer uma declaração clara de que Kerry quer reverter os recentes cortes de impostos para pessoas de alta renda e usar o dinheiro para cobrir a maioria dos não segurados”.

Daí a sua observação citando a “análise de corrida de cavalos, sobre como ela se desenrola, e não o que há nela”.

O zumbido do besouro

Como escreveu Luis Fernando Veríssimo, “às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data”.

Luis Fernando Verissimo

E tem mais:

– Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade.

George Orwell

George Orwell

– A ética deve acompanhar sempre o jornalismo como o zumbido acompanha o besouro.

Gabriel García Márquez

Gabriel García Marquez
Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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