O impossível acontece – e não é de hoje | Jornal Plural
2 dez 2020 - 19h33

O impossível acontece – e não é de hoje

Na década de 1960, a revista O Cruzeiro trazia “O Impossível Acontece: histórias curiosas e engraçadas com políticos e suas mancadas”. Imagine hoje…

Por conta das mídias ditas sociais, um amigo acompanhou quase que em tempo real as cenas de guerra que tiveram ruas de Criciúma como cenário, na madrugada de terça-feira. Cerca de 30 encapuzados assaltaram agências bancárias no centro da cidade. A ação começou por volta da meia-noite e se estendeu por quase 2 horas.  

E, na fuga, a bandidagem foi espalhando dinheiro para atrair pessoas, dificultando a ação da polícia. Coisa de cinema, onde tudo era e continua possível – só que o the end com imagens positivas. O triunfo do bem, o mocinho.  

Páginas imperdíveis  

Por conta do inusitado, ele, o meu amigo, voltou no tempo: a revista O Cruzeiro – publicação semanal ilustrada. Foi lançada no Rio de Janeiro, no dia 10 de novembro de 1928, veículo dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand.  

Nos anos 1960, o auge da revista O Cruzeiro – publicação mais prestigiada e de maior circulação no país. Ainda conforme os registros da época, duas páginas eram as favoritas, tanto que “os leitores abriam antes de ler as outras matérias”: a do Amigo da Onça e a coluna O Impossível Acontece.  

Bem brasileirinho  

Amigo da Onça era um desenho/caricatura de um sujeitinho que vivia aprontando molecagens. Criação de Péricles de Andrade Maranhão (14 de agosto de 1924 – 31 de dezembro de 1961), o muy amigo passou a marcar presença na revista O Cruzeiro a partir da edição de 23 de outubro de 1943.

Satírico, irônico e crítico, o Amigo da Onça desmascarava interlocutores ao colocá-los em situações das mais embaraçosas. Um exemplo, que dispensa o desenho: na sala de espera de uma maternidade, o pai, nervoso, aguarda o resultado. Menino ou menina? O Amigo da Onça, com vestimenta de médico, chega e anuncia:  

– Adivinhe. Quatros pernas e duas cabeças…  

Atrás dele, ao fundo, uma enfermeira, feliz da vida, traz dois bebês sorridentes.  

Mancadas de políticos  

Já a coluna O Impossível Acontece, registrava histórias engraçadas e curiosas, geralmente envolvendo os políticos e suas mancadas. Uma delas, envolvendo um político, supostamente de Itapetinga: Um prefeito rico do interior da Bahia, pouco letrado, mas generoso, foi fazer uma visita a Salvador, para tratar de assuntos referentes à exposição agropecuária local. Ao passar pela famosa Rua Chile, viu uma cestinha de lixo, afixada em um poste, com os seguintes dizeres: “Colabore com a limpeza pública”. O generoso prefeito, prontamente, fez um cheque de 10 mil cruzeiros e colocou dentro da cestinha, como colaboração.  

Ainda sobre assaltos  

Sobre o terrível episódio ocorrido em Criciúma, vale lembrar outro caso também audacioso, mas que só virou manchete no dia seguinte: o assalto ao trem pagador da Central do Brasil. Foi em Japeri, no então estado do Rio de Janeiro, às 08h25min do dia 14 de junho de 1960.  Para a maioria dos brasileiros, a notícia só chegou no dia seguinte…  

Cena do filme O Assalto ao Trem Pagador, de 1962, dirigido por Roberto Farias.

Uma quadrilha assaltou o trem de pagamentos da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil (na época, incorporada à Rede Ferroviária Federal), tendo levado uma grande quantia: Cr$ 27,598 milhões (cruzeiros). E o episódio virou tema para o filme O Assalto ao Trem Pagador, que se tornaria um dos maiores sucessos da história do cinema brasileiro.  

A quadrilha era chefiada por Tião Medonho: 5 mascarados armados de metralhadoras e revólveres atacaram o trem prefixo SAP-21. A composição ferroviária tinha como maquinista Venceslau José de Castro; o foguista era Pedro José da Silva. Levava o pagamento de mais de mil ferroviários.  

Caixa de madeira virou cofre  

Os jornais da época deram um exemplo para mostrar que não era pouca grana. Os 27 milhões de cruzeiros possibilitariam a comprar 108 fuscas, modelo do ano, 0 km, ou “montar um impensável Corcovado de 1.350 toneladas de batata de primeira qualidade”. Todo esse dinheiro estava numa caixa de madeira, guardada pelo pagador Cícero de Carvalho e dois auxiliares.  

Dos trilhos para as telas  

E o assalto foi parar (com tremendo sucesso) na tela dos cinemas. O Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias, setembro de 1962, com Eliézer Gomes, Luisa Maranhão e  Reginaldo Faria. O filme causou impacto por sua forte dose de realismo, incluindo tiros de verdade e o mesmo vagão utilizado no assalto – ele estava sendo desmontado na oficina, mas a Central concordou em reconstruí-lo, para que, no filme, aparecessem até os furos das balas.  

O protagonista, Tião Medonho, foi interpretado pelo ator negro Eliézer Gomes, um funcionário público, protestante e cantor da Igreja Presbiteriana de Madureira. Ele foi escolhido para o papel num concurso nacional.  

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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