Imagine o FEBEAPÁ na versão 2021 | Jornal Plural
8 abr 2021 - 1h00

Imagine o FEBEAPÁ na versão 2021

Nos anos 60, Stanislaw Ponte Preta criou algo que ficaria famoso: o Festival de Besteiras que Assola o País – hoje, com o desgoverno e a tal gripezinha, sobraria assunto

A cena ocorreu de fato – e com testemunhas, a começar pelo funcionário do caixa: foi domingo passado, numa farmácia, em Curitiba, no Juvevê. Um cidadão chegou todo esbaforido e, furando a fila, quis saber:  

– Tem cerveja? Tem cerveja?  

Diante do espanto marcado pelo silêncio, deve ter reconhecido a mancada e bateu em reirada. Não bastasse o desgoverno federal, a tal reclusão por conta da pandemia complica ainda mais o dia a dia. E há quem tenha voltado no tempo, imaginando qual seria a reação do saudoso Stanislaw Ponte Preta, o Lalau (11/01/1923 – 30/09/1968), com o FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País – em versão ampliada devido às contribuições diárias dos novos tempos.  

Já no início do golpe civil-militar de 64, Lalau não deixava por menos: batizou de “a redentora” a autoproclamada revolução de março/1º de abril. E, com a edição dos primeiros Atos Institucionais (“que tinham a sugestiva sigla de AI”), os donos do poder decidiram “mandar prender o autor grego Sófocles, que morreu há séculos, por causa do conteúdo subversivo de uma peça encenada na ocasião”. Tratava-se de Electra. A peça de Sófocles que tem como foco um momento de polarizações políticas e profundo debate em torno das questões referentes ao exercício do poder.  

O início da jornada  

Foi para cutucar por tabela o colunista Jacinto de Thormes (Rio/ 1923-2005), o pioneiro do colunismo social no Brasil, que, em 1945, no Diário Carioca, Stanislaw criaria a seção As Certinhas do Lalau, apresentando uma musa da temporada – geralmente atrizes e vedetes do teatro rebolado.  

De Ponte Grande a Ponte Preta  

Com uma jornada diária de trabalho nunca inferior a 15 horas, conforme seus biógrafos, Sérgio Marcus Rangel Porto adotou o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta (Lalau para os amigos) em homenagem a Serafim Ponte Grande, personagem do escritor Oswald de Andrade (1890-1954). Atuando também no rádio e na TV, além de escrever livros e colunas para revistas e jornais, Sérgio Marcus morreu de infarto em 1968, aos 45 anos.  

Ele estudou arquitetura até o terceiro ano. Largou o curso ao ingressar no Banco do Brasil, onde trabalhou por 23 anos. Foi nesse mesmo período que iniciou a carreira jornalística, passando pela Tribuna da ImprensaDiário da NoiteO JornalA Carapuça e revistas como O CruzeiroMancheteFatos & Fotos e Mundo Ilustrado.  

O progresso do subdesenvolvimento  

Alguns dos comentários do Stanislaw:  

– A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento.  

– Basta ler meia página do livro de certos escritores para perceber que eles estão despontando para o anonimato.  

– Lavar a honra com sangue suja a roupa toda.  

– Pelo jeito que a coisa vai, em breve o terceiro sexo estará em segundo.  

– Política tem esta desvantagem: de vez em quando o sujeito vai preso em nome da liberdade.  

– Uma feijoada só é realmente completa quando tem uma ambulância de plantão.  

– Às vezes eu tenho a impressão de que meu anjo da guarda está gozando licença-prêmio.  

– Imbecil não tem tédio.  

– O sol nasce para todos. A sombra para quem é mais esperto.  

– Licença-prêmio. Licença prêmio.  

Um tremendo sucesso editorial, chegando a 3 volumes, o Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País é um título que parodia o uso de siglas pela ditadura civil/militar; saiu publicado em 1966, 1967 e 1968. Em julho de 68, no intervalo da apresentação do Show do Crioulo Doido, de sua autoria, foi vítima de uma tentativa de envenenamento – que atribuiu a terroristas de extrema direita.  

PS: O que diria (escreveria) hoje o Lalau sobre a gripezinha, a droga em avião presidencial, a compra de uma mansão para bilionários, o genocídio e outros despropósitos do desgoverno? E mais: onde teria guarida? Certamente em poucos veículos do jornalismo de fato plural.  


Para ir além

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