Igualdade racial - a outra luta que não tem fim | Jornal Plural
20 maio 2020 - 19h15

Igualdade racial – a outra luta que não tem fim

Com a chegada dos escravos africanos, a sociedade brasileira dividiu-se em duas porções desiguais, semelhante a um sistema de castas, formada por uma parte branca e livre e outra parte negra e escrava

Em tempos mais do que bicudos, quando até o terrível coronavírus é classificado de gripezinha, há quem, lamentando a situação brasileira, tenha sacado de seus arquivos um exemplar da revista/livro Grandes Líderes da História – Nelson Mandela & Martin Luther King -, as Trajetórias dos Maiores Líderes da Luta pela Igualdade Racial. Uma excelente publicação da On Line Editora, dos textos e pesquisas à documentação fotográfica. E que faz uma revelação, certamente espantosa para a maioria dos leitores: O outro lado do herói, referindo-se a Luther King.

Está na página 68:

– Extremamente depressivo, ele levava uma vida duplamente surpreendente e tinha como vício o adultério com várias mulheres. Quem deu a notícia foi Jackeline Kennedy, a primeira dama da época, confirmando que o FBI, sempre no calcanhar do pastor, fazia gravações do líder ativista. O que Edgar Hoover, chefe do FBI, pretendia era provar que King era “um comunista perigoso”, daí determinar a instalação de microfones com fitas K7 em seus quartos de hotel. “Mas, para surpresa de todos, ao invés de descobrirem um comunista, descobriram um adúltero.”

Voltando ao racismo

Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor da sua pele, ou sua origem, ou sua religião. As pessoas têm que aprender a odiar, e se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto.

Nelson Mandela

Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade, não pela cor de sua pele.

Martin Luther King

Não sou descendente de escravos. Eu descendo de seres humanos que foram escravizados.

Makota Valdina – educadora e líder religiosa.

Uma terra de todos?

Ainda dos livros de história:

– O racismo no Brasil é um legado da colonização portuguesa. Os índios brasileiros não se viam como um povo uno e as tribos nutriam animosidades entre si, gerando guerras constantes. Contudo, o preconceito baseado na aparência física, na cultura ou na religião foi trazido junto com os colonizadores portugueses. À época do descobrimento do Brasil, Portugal era uma das sociedades mais intolerantes da Europa. Em 1496, os judeus, que viviam há séculos em Portugal, foram expulsos do país, em decorrência do crescente antissemitismo na Península Ibérica. Os ciganos também eram uma etnia profundamente marginalizada em terras lusitanas.

Seres humanos ou animais?

Desembarcando no que viria a ser o Brasil, os portugueses se depararam com os povos indígenas. Durante séculos, grupos “científicos” e religiosos debateram se os índios eram seres humanos ou animais. A cultura e a religião indígenas foram sempre vistas como inferiores e demoníacas, resultando numa “ação civilizadora” da Igreja Católica a fim de aculturar os nativos ao cristianismo. Camuflada de boas intenções, o objetivo final era a dominação. Os bandeirantes, hoje considerados heróis, promoveram verdadeiras atrocidades contra as populações indígenas. Escravizados e despojados de suas terras, a maior parte da população nativa foi fisicamente aniquilada.

A vez dos africanos

Ainda dos registros históricos: com a chegada dos escravos africanos, a sociedade brasileira dividiu-se em duas porções desiguais, semelhante a um sistema de castas, formada por uma parte branca e livre e outra parte negra e escrava. Mesmo os negros livres não eram considerados cidadãos. E o racismo no Brasil colonial não era apenas consuetudinário, vez que tinha base legal também. Para ocupar serviços públicos da Coroa, da municipalidade, do judiciário, nas igrejas e nas ordens religiosas era necessário comprovar a “pureza de sangue”, ou seja, apenas se admitiam brancos, banindo negros e mulatos, “dentro dos quatro graus em que o mulatismo é impedimento”. Era exigida a comprovação da “brancura” dos candidatos a cargos.

E o racismo persiste

O racismo que persiste de forma intensa no país é voltado contra negros, mulatos e índios, mas, sobretudo, contra os primeiros. De acordo com professor Darcy Ribeiro, as atuais classes dominantes brasileiras “guardam, diante do negro, a mesma atitude de desprezo vil que seus antepassados escravocratas tinham. Os pobres e os negros em geral são vistos como culpados de sua própria desgraça, explicada por suas características raciais e não devido à escravidão e à opressão”. Não bastasse isso, ainda Darcy Ribeiro com a palavra, “não é só o branco que discrimina o negro no Brasil. O preconceito é assimilado pelos próprios mulatos e até pelos negros que ascendem socialmente, os quais se somam ao contingente branco para discriminar o negro-massa”.

Democracia racial?

E o racismo científico sempre influenciou as ciências sociais no Brasil. Daí o mito da democracia racial, “que propagava que no Brasil não existia racismo ou que ele era menor que no restante do mundo. O preconceito racial persiste na sociedade brasileira, embora muitas vezes camuflado”. Segundo a ONU, o racismo é um problema estrutural do Brasil.

E aí, temos:

– A discriminação pela origem pode ser reportada desde a Antiguidade, quando povos gregos e latinos classificavam os estrangeiros como bárbaros. A origem da designação do preconceito de raça, em específico, é mais nova, tendo sido alavancada nos séculos XVI e XVII pela expansão marítima e colonização do continente americano. O domínio do “novo mundo” (assim chamado pelos europeus), o genocídio dos povos nativos e a escravização sistêmica de povos africanos geraram um movimento de tentativa de justificação de tais relações de poder por uma suposta hierarquia das raças.

– Em sua visão eurocêntrica, os europeus consideravam que povos de origem europeia nata seriam mais inteligentes e capazes para dominar e prosperar, enquanto os negros e indígenas foram, por muitas vezes, considerados animais.

PS: Como dizia o professor Radamés, personagem do livro O Púcaro Búlgaro, de Campos de Carvalho, editado em 1964, “Todo racista é um fdp”.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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