Haja humor para tanta resistência | Plural
9 set 2019 - 22h23

Haja humor para tanta resistência

Censura de Crivella lembra salão de humor feito durante a ditadura militar

Sobre o episódio de censura motivada por um desenho, na Bienal do Livro do Rio, por conta de um beijo gay em uma HQ, o que escandalizou o prefeito Marcelo Crivella, há quem tenha voltado no tempo: o 1º Salão de Humor de Piracicaba, 1974. Ele reunia mais de 200 charges, caricaturas e histórias em quadrinhos selecionadas.

Na época, a Agência Brasil registrava: o curador da mostra, Raphael Ramos da Costa Fioranelli Vieira, definiu a indignação como linha central da exposição. A partir dessa temática, segundo o diretor do museu, Antônio Carlos Sartini, várias situações que afligem a sociedade seriam apresentadas, “permitindo uma reflexão sobre as relações humanas e a própria condição da humanidade nos dias de hoje”.

– O interessante da linguagem é que a reflexão sobre assuntos difíceis nos é permitida por meio de uma visão crítica e bem-humorada, tornando os temas não menos sérios, mas mais palatáveis.

A exposição dedicou uma área especial ao golpe civil/militar de 1964, com uma reflexão sobre a importância da democracia. Afinal, o Salão de Humor de Piracicaba “nasceu como ato de resistência em plena ditadura militar e hoje é considerado o evento mais importante do gênero em todo o mundo”, como acrescentava Sartini.

Tintas da coragem

De fato: um ato de resistência. A propósito, um certo jornalista de Curitiba escreveu:

– O 1° Salão de Humor de Piracicaba, em 1974, não foi brincadeira – em nenhum sentido. Depoimentos mostram que, além de talento, humor, traço e sacadas, era preciso ter mão firme e carregar nas tintas da coragem.

Bastaria mergulhar no livro Piracicaba 30 Anos de Humor, editado em 2003 pela Imprensa Oficial de São Paulo – Instituto do Memorial de Artes Gráficas do Brasil. Entre outros, trazia (traz) o depoimento de João Maffeis Netto. Título: Entre o humor e os homens de verde.

Rompendo o bloqueio

Para entender o Salão, ressaltava Maffeis Netto que “é preciso retroceder às origens da revolução militar de 1964, que cerceou direitos fundamentais e instalou a censura prévia”. Cada um passou a resistir à sua maneira.

“Mesmo com toda essa pressão, a partir de 1964 formou-se toda uma geração de humoristas gráficos, que tentou romper o bloqueio imposto pelo governo. Millôr FernandesFortunaJaguarHenfilZiraldo fizeram parte desse grupo”.

E, cita, é claro O Pasquim, que, dirigido por Tarso de Castro, surgiu em 1969 – e brigou como pôde. Foi nesse clima que surgiu o Salão de Humor de Piracicaba, em 1974, “justamente um ano em que a censura se acentuou e o governo militar ganhava novos contornos”.

O general Ernesto Geisel acabara de assumir o poder. “Se de um lado existia o risco de apreensão do material e do indiciamento dos organizadores e cartunistas, o reverso da medalha estava na expectativa da população, da imprensa e dos visitantes em ver as peças que levavam temor ao governo”.

“Humor de bom gosto”

Apesar dos (muitos) temores no ar, “o primeiro salão foi uma festa: até o representante do Exército em Piracicaba estava presente, causando uma certa apreensão, superada em parte quando ele declarou que ali se encontrava por curiosidade, e não a trabalho”.

Ao sair, o capitão “reforçou ter achado o humor de bom gosto, nada ofensivo, e cumprimentou todos os cartunistas e organizadores”.

Havia muita expectativa, até porque Piracicaba já tivera um prefeito, Francisco Salgot Castillon, cassado em 1969 devido a “dissensões políticas locais”. Dissensões “alavancadas por fotos de um protesto de funcionários da Estrada de Ferro Sorocabana, onde ele, Salgot, na época deputado estadual, aparecia deitado sobre os trilhos, em companhia de grevistas”. Foi a gota d’água para a cassação.

Da fábula do rei

A primeira comissão do Salão, formada por Millôr, Ziraldo, Zélio, Jaguar e Fortuna, selecionou 150 trabalhos entre mais de 700 inscritos. O cartum premiado foi o de Laerte Coutinho. Inspirado na fábula de Hans Christian Andersen, O Rei Está Nu, viajava no tempo e satirizava o governo. A cena: vítima da repressão, uma criança, suspensa no ar por correntes e com bolas de ferro nos pés, está no meio de torturadores. Em primeiro plano, numa forja, um deles prepara o ferro em brasa.

O torturado exclama, apavorado:

– O rei estava vestido!

E foi assim que, já segunda edição, o Salão de Humor de Piracicaba passaria a contar com a participação de artistas de outros países. Tornando-se uma referência mundial.

Hoje, faz uma falta terrível. Ou talvez não, posto que o próprio Boso por si só é uma tremenda piada – piada de mau gosto.

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