Do jornalismo ao (triste) espetáculo | Jornal Plural
10 fev 2020 - 18h10

Do jornalismo ao (triste) espetáculo

Francisco Camargo fala de A Montanha dos Sete abutres para lembrar que o jornalismo de esgoto continua à solta em nossas plagas

O adeus a Kirk Douglas levou um admirador do (velho e bom) cinema a um dos grandes filmes do ator: A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole) – 1951, direção de Billy Wilder, roteiro de Walter Newman e Lesser Samuels. Ao lado de Kirk, Jan Sterling e Robert Arthur. Diretor de Quanto Mais Quente Melhor e Crepúsculo dos Deuses, entre outros filmes nota 10, Wilder desta vez aborda os limites do jornalismo e seu potencial de transformar fatos em espetáculo.

E o site Adoro Cinema registrou coisas dos bastidores:

– A Montanha dos Sete Abutres recebeu críticas negativas e fracassou nas bilheterias. Os produtores decidiram, sem a autorização do diretor Billy Wilder, mudar o título original para The Big Carnival e relançá-lo nos cinemas em uma tentativa de obter sucesso. Não deu certo.

Um jornalista na pior

Vale a pena lembrar, mesmo para quem tenha assistido: Albuquerque, Novo México. O veterano repórter Charles Tatum (Kirk Douglas), que atuava em Nova Iorque, foi despedido de 11 jornais – por 11 razões diversas. Sem dinheiro, pede a Jacob Q. Boot (Porter Hall), dono do jornal local, que lhe dê um emprego – e consegue. Seu plano: trabalhar ali no máximo dois meses, mas após um ano não surgiu nenhuma boa oportunidade nem aconteceu nada bombástico que rendesse uma boa matéria. Sente-se totalmente entediado, sem motivação. Mas aí, recebe ordem para cobrir uma corrida de cascavéis. Aparentemente seria outra matéria sem o menor atrativo, mas ele segue para o local acompanhado por Herbie Cook (Robert Arthur), um misto de auxiliar, motorista e fotógrafo.

De repente, um grande assunto

Ainda do Adoro Cinema: no meio do caminho, quando vão abastecer o carro, Tatum descobre que Leo Minosa (Richard Benedict) ficou preso em uma mina quando procurava “relíquias indígenas”. Tatum sente que esta reportagem pode ser a chance que ele esperava, mas, para tanto, precisa ter o controle da situação. E ele transforma o resgate de Leo em um assunto nacional, atraindo milhares de curiosos, cinegrafistas de noticiários e comentaristas de rádio, além de forçar Lorraine (Jan Sterling), a mulher de Leo, a se fazer passar por uma esposa arrasada. Na verdade, ela iria abandonar Leo neste trágico momento, mas Tatum entra em ação: convence Lorraine que ela iria ganhar um bom dinheiro na sua lanchonete por conta das pessoas que chegavam para acompanhar de perto o que acontecia. E, para prolongar o circo, Tatum reduz deliberadamente os esforços para o resgate, pois o ideal (para ele) é que Leo fique preso por seis dias e não apenas por algumas horas.

Seria a grande oportunidade de realizar o grande furo jornalístico de sua carreira e, assim, fará o impossível para retardar o resgate e garantir a notícia na primeira página de todos os jornais do país. Com maestria, Wilder aborda o jornalismo mau caráter.

Tatum e a sua disposição em conseguir um grande furo, independentemente dos valores morais e dos meios utilizados para consegui-lo:

“Cuido de pequenas e grandes notícias e se não tem nenhuma, saio e mordo um cachorro.”

“Conheço uma boa história porque antes vendia jornal na esquina e descobri que notícia ruim vende mais. Notícia boa não é notícia.”

A mídia seduzindo pessoas

Tatum estabelece com Minosa uma conversa na qual, de forma amistosa, consegue ganhar a confiança da vítima, prometendo a sua saída da mina e adquirindo mais informações para a sua matéria sensacional. Sabendo do poder da mídia em seduzir as pessoas para um reconhecimento em curto prazo, Tatum convence Leo a tirar umas fotos, aumentando ainda mais a encenação dramática do fato. Em pouco tempo, o público já toma conhecimento do acidente e começa a se comover com o sofrimento de Minosa retratado pelo repórter. Muitos chegam a ir ao local do acidente.

Continuamos com o Adoro Cinema:

Antes pacata, a cidade de Escudero vira um centro de atração nacional. Para conseguir tais efeitos, Tatum faz um pacto com o xerife da cidade. Para a autoridade policial, propõe a garantia de respaldo político em sua reeleição por meio de matérias que o tornassem “herói”, pois a sua reputação era marcada pela corrupção. Em troca, este garantiria a sua exclusividade na cobertura do acidente, impedindo que outros jornalistas tivessem acesso à vítima.

No entanto, Minosa adoece e começa a mostrar que não resistirá ao tempo imposto e planejado por Tatum para que ele se mantivesse no cativeiro. Tatum começa a perceber que a situação foge ao seu controle e tenta salvar de qualquer maneira a vida de Minosa. Sem sucesso.

Com a morte de Minosa, Tatum perde o seu status de jornalista de “primeiro time” e os dilemas éticos ao longo do filme, retratados em diálogos com o seu editor Boot (representante da objetividade informativa); e isso começa a perturbar a mente do jornalista já decadente. Tatum não se identificava com o “jornalismo de cinto e suspensório” e desnudava cada vez mais a sua veia sensacionalista em confrontos morais com Boot:

“Não sou seu tipo de jornalista. Não combino com aquele quadro no seu escritório (Tell the truth/ Diga a verdade). Não ligo em fazer acordos corruptos ou inventar maldições índias e esposas tristes.”

Ainda sobre o filme, o Observatório da Imprensa, em 9 de setembro de 2015, edição 867, destacou a importância do filme ao expor o “jornalismo de golpe baixo, direto no estômago”.

PSe o jornalismo de esgoto continua à solta em nossas plagas.

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