Do heil Hitler ao Anauê | Jornal Plural
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22 jan 2020 - 18h32

Do heil Hitler ao Anauê

Integralismo foi a versão brasileira dos movimentos fascistas europeus

Como uma coisa terrivelmente ruim leva a outra, do nazismo pulamos para o integralismo. Integralismo que chegou a publicar, em 1937, uma revista mensal ilustrada, que circulava (também) em Curitiba, a ANAUÊ! – “registrada de acordo com a lei” e que tinha, conforme o expediente, Manoel Ferraz Hasslocher como director-responsável  e Loureiro Junior como director. A Redacção e administração ficavam na Rua do Carmo, 29, Rio de Janeiro. E há quem tenha guardado a cópia de um exemplar.

Editorial da revista ANAUÊ, primeiro de agosto de 1937, enchendo a bola de Plínio Salgado. Título: “Candidatura Nacional e Popular”.

Breves trechos, mantendo a grafia da época:

– No Brasil só há um candidato que veio da poeira dos comicios, do abafamento das ruas apinhadas, do sangue generoso dos conflictos. Só há um candidato que tocou a corda sensível da alma brasileira e está colhendo fruetos surprehendentes da sua grande descoberta.

– E esse candidato, que vive com o povo, que se identificou com o Brasil, é o candidato do unico partido que apresenta um plano revolucionário na disputa successional – o Integralismo. É Plinio Salgado.

– A “propaganda scientifica póde ludibriar a consciência do povo. Póde obter resultados immediatos apreciáveis. Mas nunca lograrão desvincular a personalidade de Plinio Salgado do destino nacional. O povo se ligou para sempre a esse homem extraordinário pelo mysterio da comprehensão.

Ainda da revista:

– Camisa-verde!

O voto é a arma do integralismo.

Se não és eleitor, alista-te immediatamente. Se já és, alista tua mulher, teus filhos, teus parentes e teus amigos.

Das origens

Segundo historiadores, a saudação nazista (heil Hitler) “é uma variação da saudação romana, adotada pelo Partido Nazista como um sinal de lealdade e culto da personalidade de Adolf Hitler”. Consistia em “esticar o braço direito no ar com a palma estendida para baixo enquanto se dizia heil Hitler (salve Hitler)”. Ainda de livros de história: a saudação foi “uma adaptação de sieg heil (salve a vitória). Primeiramente foi usada por Joseph Goebbels, ministro da propaganda da Alemanha Nazista”.

O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães foi fundado em 1918, logo após a Primeira Guerra (28 de julho de 1914 a 11 de novembro de 1918). Hitler entraria no partido no ano seguinte. E, com ele, “o partido passou a pregar uma política que iria se transformar numa das ideologias mais perversas da história. Com toda a fúria possível, Hitler desenvolveu sua ideologia no livro Minha Luta (Mein Kampf), que se tornaria política do Estado totalitário em 1933, quando os nazistas tomaram o poder”.

Enquanto isso, por aqui…

Por sua vez, a Ação Integralista Brasileira (AIB), “movimento ultranacionalista, corporativista, conservador e tradicionalista católico de extrema-direita, inspirado no fascismo italiano, no integralismo lusitano e baseado na Doutrina Social da Igreja Católica, foi fundado no dia 7 de outubro de 1932”, pelo escritor e jornalista Plínio Salgado. Os integralistas rapidamente ficaram conhecidos como camisas-verdes ou, pejorativamente, como galinhas-verdes, em referência à cor dos uniformes que utilizavam.

Salgado desenvolveu o que viria a ser a AIB, com a Sociedade de Estudos Paulista (SEP), grupo de estudo sobre os problemas da nação. Esses estudos resultariam na criação da AIB, em 1932. “O movimento tinha adotado algumas características dos movimentos europeus de massa da época, especificamente do fascismo italiano, distanciando-se, porém, do nazismo porque o próprio Salgado não apoiava o racismo. No entanto, apesar do slogan ‘união de todas as raças e todos os povos’, alguns de seus membros, caso de Gustavo Barroso, tinham claramente posições antissemitas.”

O sigma maiúsculo

Como símbolo, a AIB utilizava uma bandeira com um disco branco sobre um fundo azul. Na parte central, um sigma maiúsculo (Σ). A AIB, juntamente com os demais partidos políticos, acabou sendo extinta com a implantação do Estado Novo, efetivado dia 10 de novembro de 1937 pelo então presidente Getúlio Vargas.

Como a AIB iniciou suas atividades sob a influência do fascismo italiano, houve conflitos com grupos adversários, caso da Aliança Nacional Libertadora (ANL). “Os integralistas marcavam sua atuação pela simbologia e iconografia que adotaram. Sempre se apresentavam uniformizados. As camisas e capacetes eram em tons de verde mar, as gravatas eram pretas e as calças pretas ou brancas. Cumprimentavam-se utilizando a palavra que se presume vir do tupi, Anauê, que significaria “você é meu irmão”. Braço esticado, mão espalmada, tal como os fascistas europeus, no caso os camisas negras italianos e os camisas pardas nazistas. A bandeira do movimento: fundo azul com um círculo branco no centro. No meio do círculo, a letra grega maiúscula sigma, significando a soma dos valores. Cada subdivisão do movimento contava com símbolos próprios: os plinianos (grupos de jovens), cuja bandeira era similar, porém, com um Cruzeiro do Sul atrás do sigma.

Ascensão e queda

Plínio Salgado nasceu em São Bento de Sapucaí, São Paulo, no dia 22 de janeiro de 1895. Filho do coronel Francisco das Chagas Salgado e da professora Ana Francisca Rennó Cortez, que lhe ensinou as primeiras letras. Com 16 anos ficou órfão de pai. Em 1916 começou suas atividades na imprensa no semanário Correio de São Bento. Em 1918 ingressou na carreira política com a fundação do Partido Municipalista, que reunia os líderes dos municípios do Vale do Paraíba “em defesa da autonomia municipal”.

Em 1920, Plínio Salgado mudou-se para São Paulo e ingressou no jornal Correio Paulistano – órgão oficial do Partido Republicano Paulista (PRP). Fez amizade com Menotti del Picchia, o redator-chefe do jornal. Em 1922, participou da Semana de Arte Moderna. Em 1924, foi um dos ideólogos da tendência nacionalista do Modernismo, denominada Movimento Verde-Amarelo, em oposição à corrente primitivista lançada pelo Manifesto pau-brasil, de Oswaldo de Andrade.

Em 1927, recorre a uma anta e um índio tupi como símbolo da nacionalidade primitiva e, o grupo Verde-Amarelo transforma-se em “Escola da Anta”. Em 1928, Plínio Salgado foi eleito deputado estadual em São Paulo pelo Partido Republicano Paulista (PRP). Em 1929, apoiou a candidatura de Júlio Prestes à Presidência da República, em oposição a Getúlio Vargas.

Neste mesmo ano, interrompe o mandato de deputado e viaja para a Europa. Na Itália, é atraído pelo fascismo de Benito Mussolini. De volta ao Brasil, em 4 de outubro de 1930, um dia após o início da Revolução de 1930, que depôs o presidente Washington Luís, escreve artigos no Correio Paulistano, defendendo o governo. Com a vitória dos revolucionários, passou a apoiar o regime instaurado por Vargas. Em junho de 1931 tornou-se redator do jornal A Razão. Publicou diversos artigos contra a constitucionalização do país, o que resultou na revolta dos ativistas contra a ditadura, que atearam fogo na sede do jornal, pouco antes da Revolução Constitucionalista de 1932.

Nesse mesmo ano, Plínio fundou a “Ação Integralista Brasileira” (ABI), cujas bases foram estabelecidas pelo “Manifesto à Nação Brasileira”.

A Doutrina Integralista era uma versão brasileira do fascismo europeu, que se propagou no Brasil quando os fascistas e os nazistas conseguiram seus primeiros êxitos na Europa no período anterior à Segunda Guerra Mundial.

O integralismo tinha como lema “Deus, Pátria e Família” e como símbolo o sigma – letra do alfabeto grego, assim representada: (Σ).  Seus seguidores usavam camisa verde nas manifestações públicas de que participavam, sendo conhecidos como “camisas-verdes”.

Em fevereiro de 1934, no I Congresso da AIB, em Vitória, Espírito Santo, Plínio confirmou sua autoridade recebendo o título de “chefe nacional”.

Em 1937, Plínio lançou sua candidatura à presidência do país para a eleição prevista para janeiro de 1938. Getúlio que não pretendia deixar o governo preparou um golpe de Estado que teve seu desfecho no dia 10 de novembro de 1937, e decretou o Estado Novo. Plínio apoiou o golpe esperando fazer do integralismo a base doutrinária do novo regime, e como Vargas teria lhe prometido assumiria o Ministério da Educação. O presidente, no entanto, extinguiu todos os partidos políticos inclusive a ABI, cujos membros já se julgavam donos do poder.

Em 1938, os integralistas tentaram dois levantes para depor Vargas, sem sucesso. Em 1939 Plínio é preso e convidado a deixar o país, partindo para o exílio em Portugal.

A volta do exílio

Em 1945, com o fim do Estado Novo, Plínio Salgado retorna ao Brasil. Funda o “Partido de Representação Popular” (PRP) com o objetivo de reformular a doutrina integralista. Em 1955 lançou-se candidato à presidência da República, mas não conseguiu se eleger. Em 1958, elegeu-se deputado federal pelo Paraná. Em 1962 foi reeleito, desta vez por São Paulo.

Em 1964 foi um dos oradores da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, em São Paulo, movimento de oposição ao presidente João Goulart. Apoiou o golpe (civil/militar) de 1964 que depôs o presidente. Com a introdução do sistema bipartidário, Plínio ingressou na Aliança Renovadora Nacional (Arena) e exerceu mais dois mandatos de deputado federal, em 1966 e 1970. Plínio Salgado faleceu em São Paulo, no dia 8 de dezembro de 1975.

A Ação Integralista Brasileira atingiu, aproximadamente, 1 milhão de filiados na década de 1930.

E, com o passar do tempo, muita gente trocou a saudação nazista e integralista até chegar ao gesto da arminha

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