Das frases às palavras | Plural
22 jul 2019 - 21h32

Das frases às palavras

Francisco Camargo fala de Sarte e das “!palavras desconcertantes”

Jean-Paul Sartre, em seu livro As Palavras, confessa que ainda não sabia ler “mas já era bastante esnobe para exigir os meus livros”. Assim, nas “cerimônias de apropriação”, pegou dois volumes de contos e “cheirei-os, apalpei-os, abri-os negligentemente na página certa, fazendo-os estalar. Debalde: eu não tinha a sensação de possuí-los. Tentei sem maior êxito tratá-los como bonecas, acalentá-los, beijá-los, surrá-los”.

Até que compreendeu: era o livro que falava. “Dele saíam frases que me causavam medo: eram verdadeiras centopeias, formigavam de sílabas e letras, estiravam seus ditongos, faziam vibrar as consoantes duplas: cantantes, nasais, entrecortadas de pausas e suspiros, ricas em palavras desconhecidas, encantavam-se por si próprias e com seus meandros, sem se preocupar comigo: às vezes desapareciam antes que eu pudesse compreendê-las, outras vezes eu compreendia de antemão e elas continuavam a rolar nobremente para o seu fim sem me conceder a graça de uma vírgula”.

Preboste, prebostado (não é palavrão)

Ainda sobre palavras, algumas são deveras desconcertantes. Alguns exemplos:

Abichornado – que se tornou abafado, sufocante; abatido, desanimado.

Exérese – substantivo feminino: remoção por cirurgia; separação violenta dos elementos de um órgão em virtude de lesões traumáticas.

Bilontra: espertalhão, velhaco, patife, malandro, libertino.

Írrito – que ficou sem efeito, nulo, vão. O que não teve efeito, coisa nula ou inútil. Este ato legislativo foi considerado inconstitucional – portanto írrito.

Antonomásia: substituição de nome próprio por nome comum ou expressão (perífrase), ou vice-versa. Exemplo: a Águia de Haia (Rui Barbosa).

Cognome, apelido.

E não dá para deixar de lado a (desconcertante) palavra preboste. Preboste vem a ser, ou foi, um antigo juiz militar. Assim prebostado é, ou foi, alguém que ocupava o cargo de preboste.

Mas, se a crase não foi feita para humilhar ninguém, como bem sentenciou o poeta Ferreira Gullar, muito menos então as palavras desconcertantes. Até porque de uso pouco corrente.

E a crase? Contração ou fusão de duas vogais idênticas (especialmente a+a) em uma só.

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