A outra guerra – aquela que não tem fim... | Jornal Plural
Clube Kotter
7 jan 2020 - 18h09

A outra guerra – aquela que não tem fim…

Chocolate é bom, mas melhor é ganhar o livro que você queria

Chocolate sempre é bem-vindo, mas, com todo o respeito ao tal Coelhinho, bom mesmo na Páscoa é ganhar o livro que você pretendia comprar após o(s) feriado(s). No caso, um livro/documento para ler, recomendar e guardar entre as grandes obras. Até porque as guerras entre países podem terminar, mas o racismo não acaba nunca, permanece à solta. Afinal, como dizia o professor Radamés, personagem do livro O Púcaro Búlgaro, de Campos de Carvalho, editado em 1964, “Todo racista é um fdp”.

Mas, voltando ao livro que virou ovo de Páscoa: trata-se de Soldados do Jazz – Os heróis negros do Harlem na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), de Thomas Saintourens, editora Vestígio.

Das origens

Como detalha Thomas Saintourens, o 15º Regimento de Infantaria da Guarda Nacional de Nova Iorque era formado por soldados do Harlem, o famoso bairro negro da cidade: estivadores, músicos, carregadores de malas, mecânicos, boxeadores, advogados. E o jazz, que ganhava corpo nos EUA, chegou à Europa graças a eles. Já no campo de batalha, depois de receberem treinamento militar na França, trocaram seus instrumentos musicais pelas armas e viraram bucha de canhão, “relegados a trabalhos secundários e a serviços de apoio”.

E destaca o escritor: “Negros de origens diversas que quiseram acreditar que combater lado a lado com seus compatriotas brancos faria deles seus iguais. Homens rejeitados pelo próprio exército, que encontraram nas tropas francesas irmãos em armas que os reconheceram por sua coragem – e não apenas porque levaram o jazz em suas malas”.

– Treinados pelo exército francês, logo mostraram que sabiam empunhar suas armas tão bem quanto seus instrumentos, e suas façanhas heroicas na guerra se tornaram tão conhecidas quanto sua música. Em novembro daquele mesmo ano, retornaram vitoriosos aos Estados Unidos ostentando a mais alta condecoração das forças francesas. A batalha, porém, estava longe de terminar. Se do outro lado do oceano haviam lutado pela liberdade contra os soldados do Kaiser, em casa teriam que lutar pela democracia contra inimigos ainda mais cruéis: o racismo e a segregação. Tanto que eles “constituíam um exército de peso, no qual, no entanto, os recrutas de cor são impedidos de chegar aos postos de comando”.

A merecida homenagem

Somente em 2015 os heróis do Harlem foram finalmente reconhecidos e honrados de forma oficial pelo governo. O presidente era Barack Obama, Barack Hussein Obama II (Honolulu, Havaí – 4 de agosto de 1961), advogado e político, o 44.º presidente dos Estados Unidos (2009 a 2017) – o primeiro afro-americano a ocupar o cargo.

Ainda do livro: no dia 2 de junho de 2015, o presidente Barack Obama participou da cerimônia de concessão póstuma da Medalha de Honra – a mais alta condecoração militar norte-americana – ao soldado Henry Lincoln Johnson. Destacando:

– Somos uma nação que se lembra de seus heróis. Não podemos mudar o que aconteceu a inúmeros soldados como ele, que não foram celebrados porque seu país os julgava pela cor da pele, e não por seus atos. Mas podemos fazer nosso melhor para reparar isso.

Ainda sobre o livro de Thomas Saintourens:

– Relata a história desses combatentes com muita humanidade, não se contentando com seus feitos de guerra, mas traçando igualmente uma galeria de retratos reveladores da condição dos negros norte-americanos no começo do século XX.
Christophe Forcari, jornal Libération

Milhões de mortos

Ainda sobre a Primeira Guerra Mundial, há quem tenha recorrido à estante, atrás de um exemplar de Primeira Guerra Mundial – uma história em imagens, revista/livro da On Line Editora. Não só as fotos são aterradoras, mas os números de mortos, feridos e desaparecidos também, abrangendo militares e civis:

– Superou 37 milhões, cerca de 17 milhões de mortos e 20 milhões de feridos. Morreram 10 milhões de militares e 7 milhões de civis. Os aliados perderam ao redor de 6 milhões de soldados, enquanto as nações do Eixo, 4 milhões. Pelo menos 2 milhões morreram de doença (a começar pela Gripe Espanhola) e 6 milhões desapareceram, presumivelmente mortos.

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