A outra face de Haya - a nossa Clarice Lispector | Jornal Plural
7 set 2020 - 17h15

A outra face de Haya – a nossa Clarice Lispector

Antes de se tornar brasileira por opção (e adoção), Clarice, cuja família fugira da Ucrânia, chamava-se Chaya Pinkhasovna Lispector; virou Clarice para proteger a família

Uma coincidência muito legal: depois de ler no Plural, é claro, “Clarice, Susana, Marcélia e Macabéa: quatro estrelas”, texto de Bia Moraes sobre A Hora da Estrela, filme de Suzana Amaral, inspirado na obra de Clarice Lispector, alguém foi à banca de revistas onde é freguês de caderno. Tinha sido avisado que acabara de chegar uma edição extra de Leitura&Conhecimento, da Alto Astral editora.  

E, com o merecido destaque, já na capa de Grandes nomes da literatura brasileira deparou-se com uma foto de Clarice ao lado de Luis Fernando Verissimo, Carlos Drummond de Andrade, Caio Fernando Abreu e Machado de Assis.  

Ainda sobre A Hora da Estrela – baseado na última obra de Clarice, o longa foi realizado em 1985: estrelado por Marcélia Cartaxo, dá vida a Macabéa, uma jovem alagoana de 19 anos que vive no Rio de Janeiro, torturada por suas manias, sonhos e conflitos internos. Rio de Janeiro que, aliás, seria a última morada da escritora, depois de Maceió e Recife.  

Fugindo do inferno  

Haya Pinkhasovna Lispector nasceu no dia 10 de dezembro de 1920 na cidade ucraniana de Tchetchelnik. Descendente de judeus, seus pais Pinkhas Lispector e Mania Krimgold Lispector passaram os primeiros momentos de vida de Clarice fugindo da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa (1918-1920).  

Chegam ao Brasil em 1921. Depois de Maceió e Recife, seguem para o Rio de Janeiro. Desde pequena, Clarice estudou várias línguas (português, francês, hebraico, inglês, iídiche) e teve aulas de piano. Era boa aluna na escola e gostava de escrever poemas.  

A grande paixão  

Após a morte de sua mãe, em 1930, Clarice termina o terceiro ano primário no Collegio Hebreo-Idisch-Brasileiro. Em 1939, com 19 anos, ingressa na Escola de Direito da Universidade do Brasil e passa a se dedicar totalmente à sua grande paixão: a literatura. Fez cursos de antropologia e psicologia e, em 1940, publica seu primeiro conto, intitulado “Triunfo”.  

Com morte do pai, naquele ano, Clarice começa sua carreira de jornalista. Nos anos seguintes, trabalha como redatora e repórter na Agência Nacional, no Correio da Manhã e no Diário da Noite. Em 1943, casa-se com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos. Seu primogênito, Pedro, foi diagnosticado com esquizofrenia. O segundo filho, Paulo, foi afilhado do escritor Érico Veríssimo.  

Pernambucana e tradutora  

Por conta da profissão do marido, Clarice esteve na Itália, Inglaterra, Suíça e Estados Unidos. Com a separação, em 1959, retornou ao Rio com os filhos. Naturalizada brasileira, ela se declarava pernambucana. O prenome Clarice foi uma das formas que seu pai encontrou para proteger a família quando chegaram ao Brasil.  

Clarice trabalhou por bom tempo na Editora Artenova. Traduziu obras de autores estrangeiros 2 anos antes de lançar Perto do Coração Selvagem, em 1943: de Oscar Wilde, Agatha Christie, Anne Rice a Edgar Allan Poe.  

Sobre a (segunda) profissão, afirmou: “Traduzir pode correr o risco de não parar nunca”.  

Feliz era o Jorge – amado  

Confissões de Clarice:  

– O machado era de Assis. A rosa, do Guimarães. A bandeira, do Manuel. Mas feliz mesmo era o Jorge, que era amado.

– Quando algo ruim acontece você tem três escolhas: deixar isso definir você, deixar isso destruir você ou fazer isso te deixar mais forte.  

– Seja humilde, pois, até o Sol com toda sua grandeza se põe e deixa a Lua brilhar.

– A palavra é meu domínio sobre o mundo.  

– Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado, com certeza vai mais longe. 

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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