A lei dos homens (e a falta de bom senso) | Jornal Plural
21 mar 2019 - 9h00

A lei dos homens (e a falta de bom senso)

Francisco Camargo lembra uma regra de ouro: “A lei dos homens não revoga as leis da natureza”

Da tragédia de Brumadinho ao drama das enchentes em São Paulo, Curitiba e outras cidades. Aí, diante do caos que parece cada vez mais onipresente, não foram poucos os que recorreram a lições do professor Sérgio Ahrens. Engenheiro florestal, bacharel em Direito, pesquisador em Planejamento da Produção e Manejo Florestal da Embrapa Florestas – Colombo/PR, ele sempre alertou:

– A lei dos homens não revoga as leis da natureza.

Batata. A natureza sempre reage conforme o ataque que venha a sofrer.

E citava uma fábula, a fábula dos porcos assados.

– Certa vez, aconteceu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos, que foram assados pelo fogo. Acostumados a comer carne crua, os homens experimentaram e acharam deliciosa a carne assada. A partir daí, toda vez que queriam comer porco assado incendiavam um bosque…  Demorou a procura de um novo método de preparo da carne.

Ao tentarem mudar o sistema, as coisas não ocorriam como o esperado: às vezes os animais ficavam queimados demais ou parcialmente crus. As  causas do fracasso: a indisciplina dos porcos. Afinal, eles não permaneciam no mesmo lugar; a inconstante natureza do fogo, difícil de controlar, as árvores excessivamente verdes, a umidade da terra ou mesmo o tempo quanto ao local, momento e a quantidade de chuva. O sistema simplesmente não podia falhar. Mas, curiosamente, quanto mais crescia a escala do processo, maiores eram as perdas. Assim, nos anos seguintes, muitas experiências não deram os resultados esperados. É que sempre predominava a falta de bom senso na procura de uma solução.

O homem, um recém-chegado

Como detalha o professor, as leis da natureza surgiram há cerca de 3,5 bilhões de anos e o Homo sapiens é um recém-chegado. Além disso, as leis (dos homens) não existem “em isolamento, individualmente”. E aponta que temos “percepções progressistas que buscam promover a vida, em todas as suas formas e manifestações, como condição essencial e necessária para possibilitar a existência humana”. Do outro lado, temos “argumentos efêmeros, conhecimentos técnicos superficiais e interesses econômicos de curto prazo e insustentáveis, que, por exemplo, propõem a extinção do Código Florestal afirmando que o mesmo não teria bases científicas”.

Espécies extintas e as que serão criadas

É ainda no trabalho O Código Florestal e as Leis da Natureza que Sergio destaca:

– Estima-se que a Terra tenha se formado há aproximadamente 4,5 bilhões de anos e a vida, unicelular, há cerca de 3,5 bilhões de anos, a partir do que toda biodiversidade existente no planeta evoluiu, mesmo as espécies já extintas e aquelas que ainda serão criadas pelo fenômeno da “especiação”. A espécie humana é “recém-chegada”: talvez exista há somente duzentos mil anos.

Consagra-se, também, no meio científico, que a agricultura tenha sido concebida, há cerca de doze mil anos, na Mesopotâmia, região também conhecida como “crescente fértil”.

Referencial para atividades humanas

– Desde então, na história da humanidade, a domesticação de espécies, vegetais e animais, para uso na alimentação humana, sofreu vertiginoso desenvolvimento, especialmente ao longo do último século. O fato possibilitou fosse desenvolvida a agricultura empresarial, intensiva na aplicação de tecnologias como, por exemplo, o melhoramento genético, a mecanização (desde o preparo do solo, o plantio, os tratos culturais até a colheita) e o uso de insumos químicos como adubos e defensivos agrícolas. Em síntese, em todo o planeta, o desenvolvimento tecnológico tem promovido crescentes níveis de produtividade na agricultura.

– De outro lado, no universo, e assim também neste planeta, sempre existiram leis da natureza, especialmente da física e da química que antecedem as leis dos homens. Ao longo do tempo, tais leis, acrescidas de outras, principalmente da biologia, foram consagradas pela comunidade científica e constituem importante referencial para as atividades humanas.

As chuvas “caem” e os rios “correm”

Ainda do professor Sergio Ahrens: a lei da gravitação universal permite, por exemplo, como parte do ciclo hidrológico, que as chuvas “caiam” sobre a terra e que as águas dos rios “corram” para os oceanos. A mesma lei da gravidade, explicada por Isaac Newton, possibilita entender a atração dos corpos celestes. As leis dos movimentos planetários, segundo Kepler, explicam a forma elíptica da órbita dos planetas. Da rotação da terra em torno do seu próprio eixo origina-se o magnetismo que, sabe-se, também afeta o clima no planeta. Adicionalmente, observando-se as cadeias alimentares, verifica-se que a vida alimenta a vida, que dela necessita como suporte para se manter e se renovar continuamente, no tempo e no espaço, em perpetuidade.

– Para citar a máxima de Lavoisier, “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.  Nesse sentido, é fundamental entender, e aceitar, a total dependência da espécie humana em relação às outras formas vida.

Dentro da panela fervendo

Vale citar também o físico Marcelo Gleiser, sobre o comportamento do Universo e, é claro, da Terra.

– Embora aparentemente sereno, o Universo está em permanente ebulição, como se fosse o caldo de uma panela fervendo. Ou seja, em transformação.

E, para que o cidadão comum possa entender o que se passa, é ainda do físico a receita para fazer uma galáxia numa xícara de café.

– Basta você pôr um pouco de creme bem devagar sobre o café e misturar delicadamente os dois fluidos por alguns segundos. Em pouco tempo você verá uma galáxia espiral surgir na sua xícara.

PS do Plural – Assim, já que o homem não revoga as leis da natureza, há que se ter cuidado com a cozinha e com as panelas para não entornar o caldo.

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