A face oculta da briga para pisar na Lua | Jornal Plural
18 jan 2021 - 20h57

A face oculta da briga para pisar na Lua

Livro mostra o outro lado da disputa EUA/Rússia, que previa até um loteamento do satélite pelo temor de ataques atômicos a Nova Iorque

Por conta da Covid-19, que o jênio de passagem pelo Planalto Central, jênio, isso mesmo, até porque, segundo ele, não passava de uma gripezinha na Terra plana, há quem tenha aproveitado o isolamento para viajar no tempo e reler A Um Passo da Lua – América e Rússia em Luta pelo Espaço Cósmico, de Cord-Christian Troesbst, Boa Leitura Editora, revelando o lado oculto da disputa tecnológica que “envolveu interesses de toda ordem”.

Sim, viajado no tempo, até porque a publicação é de 1986, muito, muito antes da reforma ortográfica de 2019. O autor, que assinava C.C.Troesbst, nascido em Budapeste, na Hungria, estudou na Alemanha, onde ingressou no jornalismo; depois, foi morar nos Estados Unidos.  

E, ainda viajando no tempo, e mal comparando, lembrou também de um famoso programa de televisão, exibido nas noites de domingo, o Topa Tudo por Dinheiro, apresentado pelo empresário e comunicador Silvio Santos. “Quem quer dinheiro?” era o jargão. A estreia do programa foi no dia 5 de maio de 1991. De autoria estrangeira, era licenciado ao SBT, que pagava pelo uso e seguia regras rígidas. Topa Tudo foi ao ar pela última vez no dia 16 de dezembro de 2001.  

De volta às (já) amareladas páginas do livro e, por conta da grafia da época, topou com palavras que levavam acento, caso de êle, pilôto, emprêsa…  

A ONU interplanetária  

Sede da ONU em Nova York.

Breves trechos dão a dimensão do desafio interplanetário até no juridiquês – na página 217 temos que:  

– Em fevereiro de 1959 foi proposto que as bases jurídicas para as futuras pretensões territoriais na Lua e em outras regiões cósmicas deviam ser elaboradas em cooperação com as Nações Unidas. É possível, pois, que a Lua seja subordinada à ONU. Em todo caso é pràticamente certo que ela não irá pertencer a uma única potência. Assim, os temores do General de Brigada americano Homer A. Boushey, tantas vezes mencionados, se revelarão como infundados. “Quem dominar a Lua, domina a Terra!” – afirma Boushey: “Que pensem maduramente nisso nossos juristas responsáveis, pois se aquela máxima for verdade – e eu sou apenas um entre muitos que acreditam que ela é verdade – os americanos devem dominar a Lua. Eu, pelo menos, não queria que os russos nos convencessem da utilidade militar da Lua, pois disso poderia depender o futuro do mundo livre”.  

Dinheiro jogado fora  

– No entanto, para tranquilidade de todos nós, há fatos em demasia que contradizem o valor militar da Lua. Instalar uma base com bombas atômicas e foguetes com cargas explosivas atômicas em nosso satélite seria pura e simplesmente botar dinheiro fora. Nos círculos científicos, um dos mais encarniçados críticos, que atacam com argumentos convincentes os apelos de advertência de Boushey é o dr. Lee A. Dubridge, presidente da Escola Técnica Superior da Califórnia.  

– A idéia de querer, da Lua, dominar a Terra, é loucura rematada – afirma ele – Vamos admitir que os russos cheguem primeiro e disparem um foguete atômico, da Lua a Nova York. O foguete levaria três a cinco dias para alcançar seu alvo, mas já após as primeiras horas de voo seria infalivelmente descoberto da América. Um contra-ataque, de Nova York a Moscou, seria questão de 30 minutos. Quando o foguete de guerra russo, vindo da Lua, alcançasse os Estados Unidos, a guerra cá embaixo já podia estar decidida muito tempo antes. Caso, porém, os Estados Unidos possuíssem uma base na Lua, a tentativa de arrasá-la seria igualmente vã. Foguetes atacantes, disparados da Rússia em direção à Lua, seriam imediatamente localizados. Foguetes de represália da América estariam no mesmo instante a caminho da Rússia. Atingiriam o alvo ainda antes que os foguetes russos alcançassem a Lua.  

Cristóvão Colombo espacial  

Encerrando o texto, Troebst destaca: o verdadeiro valor da Lua, porém, apesar de todos os planos e projetos conhecidos, presumivelmente só poderá ser compreendido dentro de algumas centenas de anos. Isso mesmo, centenas de anos.  

E dá um toque: Bem o dizem os peritos em navegação espacial na América: “Quando Colombo descobriu nossa terra, também não poderia ter suspeitado que significação ela viria a ter um dia”.  

PS: Encerrada a leitura, 218 páginas, corpo pequeno, não houve escapatória, a não ser colocar um bolachão na vitrola: “Lunik-9”, álbum Louvação, 1967, Gilberto Gil.  

Poetas, seresteiros, namorados, correi  

É chegada a hora de escrever e cantar  

Talvez as derradeiras noites de luar  

Momento histórico  

Simples resultado  

Do desenvolvimento da ciência viva  

Afirmação do homem normal, gradativa  

Sobre o universo natural  

Sei lá que mais  

Ah, sim!  

Os místicos também  

Profetizando em tudo o fim do mundo  

E em tudo o início dos tempos do além  

Em cada consciência  

Em todos os confins  

Da nova guerra ouvem-se os clarins  

Guerra diferente das tradicionais  

Guerra de astronautas nos espaços siderais  

E tudo isso em meio às discussões  

Muitos palpites, mil opiniões  

Um fato só já existe que ninguém pode negar  

Sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um, já!  

Lá se foi o homem  

Conquistar os mundos, lá se foi  

Lá se foi buscando  

A esperança que aqui já se foi  

Nos jornais, manchetes, sensação  

Reportagens, fotos, conclusão  

A lua foi alcançada afinal  

Muito bem, confesso que estou contente também  

A mim me resta disso tudo uma tristeza só  

Talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção  

O que será do verso sem luar?  

O que será do mar, da flor, do violão?  

Tenho pensado tanto, mas nem sei  

Poetas, seresteiros, namorados, correio  

É chegada a hora de escrever e cantar  

Talvez as derradeiras noites de luar  

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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