30 abr 2022 - 8h00

Chamada aos músicos

Você que deseja se dedicar artisticamente e sente que a vida anda mais depressa do que você. Você está em companhia

quase ninguém lhe oferece na esquina

um pedacinho de bicicleta ou peão

Júlio Cortázar

Há algum tempo tenho me sentido sozinha no ambiente da música de concerto. Me sentindo deslocada, desambientada, estranha. Tentei justificar isso em várias coisas que eu sou. São poucas as mulheres regentes, são poucas as mulheres violonistas, são poucas as mulheres na música contemporânea. Sentimento bastante duro a solidão, sempre. Mas é especialmente dura a solidão quando estamos, e precisamos estar coletivamente inseridos.

A música de concerto é um nicho bastante específico, tradicional e conservador. A música ocidental até o século XIX conta a história de uma classe social, de uma política de estado, de um tipo de gente que inventou conceitos que moldam a sociedade em que vivemos. A vontade dessa sociedade de se perpetuar a fez se preocupar com o registro das coisas, e parte desse registro, o que continha profundidade, estudo e conhecimento, foi nomeado como ciência, esporte ou arte.

O que por um período era a nobreza e o clero, mais tarde se tornou a burguesia e a igreja, e agora são as religiões judaico-cristãs e a elite. Mas a classe trabalhadora, por mais que mude de nome, por mais que surjam novas profissões, por mais que ela ascenda financeiramente, segue classe trabalhadora. E essa parte da sociedade é muito mais diversa, tem muitas culturas, está em todos os lugares. Todos os lugares precisam dela.

Por mais que arte, esporte e ciência sejam trabalhos inventados por essa sociedade, na maioria das vezes, são exercidos pela classe trabalhadora. E, como beleza e/ou utilidade estão presentes nesses ofícios, alguns que fazem parte da camada alta da sociedade, decidem  exercer essas ocupações, pois estudo e disciplina são valorizados e perpetuados por eles. Assim, essas pessoas que têm livre acesso ao conhecimento, e têm suas vidas disponíveis para se dedicarem inteiramente a isso, se destacam, e viram os grandes nomes de suas profissões. Alguns poucos, que graças às reivindicações por acesso, conseguem furar a bolha e chegar às universidades e/ou à mídia, ascendem, com muito esforço e sacrifício – trabalho. Uns ascendem mais, outros menos, e alguns nem ascendem, muitas são as variáveis.

Homens brancos são incentivados a trabalhar, a serem líderes e a fazerem disso sua vida. Então, tendem a ascender mais facilmente. As minorias, por machismo, racismo e/ou capacitismo, acabam caindo em lugares de provação para serem aceitas como boas no que fazem. Temos que ser duas, três ou mais vezes melhores que os incentivados socialmente, os dominadores da cultura.

Alguns que não são a maioria hegemônica conseguem. E assim temos histórias de gênios que vieram da periferia, que ascenderam socialmente e viraram heróis. Que são vistos como criativos e talentosos, e que por isso, estão onde estão. E que se somarmos ser especial a fazer todo esforço possível para ser o seu sonho, você será.

E essa história colou. A meritocracia está aí. Somos ensinados a acreditar no rigor, e na ideia de que se nos dedicarmos muito, vamos subir, estar no centro, pertencer. Mas, quanto mais periférico você é, quanto mais opressões um corpo, apenas por existir no espaço em que existe, acumula, mais longe ele está e mais difícil será. E quando ele conseguir, ainda assim, se sentirá excluído no meio de um caminho entre uma coisa e outra. Não sendo mais do lugar de onde veio, nem pertencendo de fato a um novo lugar.

A elite, socialmente, nos trata bem. Mas muita gente que em geral vem de um lugar baixo economicamente, se deslumbra quando atinge um cargo de alto salário. E, por vezes, estamos falando de um deslumbramento por números a partir de 5 mil reais, talvez menos. Na sociedade onde o salário mínimo não paga nem a comida das pessoas, dependendo da realidade da onde você vem, isso é muita coisa.

Quando eu releio tudo que escrevi até agora e penso da onde eu vim, como eu me tornei maestrina e quem eram meus pais, concluo que não há forma de não me sentir só. Respirei fundo e senti um gelo no coração. O coletivo é importante demais pra mim, pra todo mundo que gosta de dividir o que sente, o que vive e o que sabe.

O meu pai era um homem preto, barbeiro, pai de 7 filhos, caiçara, vendedor de banana na infância. A minha mãe era filha de um anarquista fugido da guerra civil espanhola e de uma orfã. Ela era, também, uma mulher com baixa estatura, nanismo. Uma mulher com deficiência.

Quando meu pai pôde me dar de presente de aniversário um piano, minha mãe olhou pra ele e disse: “quando que a gente imaginou ter um piano em casa, ter uma filha que toca piano?!”. Eu já tocava violão havia 5 anos quando isso aconteceu, mas o piano é esse instrumento de classe social, de gente rica. Então para meus pais isso era muito. Quando meus pais faleceram e precisei resolver dívidas imobiliárias deles, vendi o piano e usei a grana pra pagar. Chorei muito, foi um luto. Fiquei sem instrumento por 3 anos, nunca mais quero ficar.

Nunca pude me dedicar exclusivamente à música, tinha que dar conta da vida. Cuidar das pessoas que você ama, do ambiente que você vive e de si mesmo, ocupa muito tempo. E como a coletividade nos importa, é comum que cuidemos de tudo primeiro e por último de nós.

Por vezes, quando cuidamos de nós, sentimos culpa. Pensamos que deveríamos estar estudando, trabalhando e sendo úteis enquanto eles dormem. Mas estamos cansadas. Cansadas de nos sentirmos atrasadas, medíocres, menores, incapazes, impostoras, inúteis, as piores. Isso nos levou à exaustão. O bom desempenho está ligado à alta performance. Mas as pessoas com deficiência, as mulheres, as pessoas pretas, a diversidade de gênero, a diversidade sexual e as pessoas pobres estão sofrendo para dar conta de sobreviver. Nesse mundo é muito difícil estar nessas condições, sem apoio e conseguir fazer com que as horas, chamadas de inúteis do seu dia, sirvam para algo além de descansar.

Você, pessoa diversa, periférica, da música de concerto e que se sente sozinha, que quer estar ali, mas algo parece ser uma barreira. Você que deseja se dedicar artisticamente e sente que a vida anda mais depressa do que você. Você está em companhia.

Precisamos lembrar que tudo que se divide melhora. Precisamos conhecer nossas dores por nos sentirmos assim. Precisamos entender quais outras profissões sofrem um processo semelhante. Precisamos conversar sobre isso, descobrir mais e saber de que lado estamos.

É importante buscarmos apoio para ser quem somos, e podemos nos ajudar nisso. Termino buscando apoio na literatura de Francisco Mallman, que nos oferece: “usaremos a língua do inimigo entre nós até que a língua do inimigo deixe de fazer sentido, até que a língua do inimigo esteja esgotada e nós estejamos fluentes em uma língua que até então não existia aqui”.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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