2 abr 2022 - 9h30

As músicas contam tudo sobre nós

Nada sobrevive imune às mãos humanas que fazem algo viajar no tempo

Como maestrina preciso estar pronta para interpretar diversos repertórios. Dentro da música de concerto existem muitas seções temporais, regionais e estilísticas que se distinguem entre si. Minha última leitura sobre o assunto foi Interpretação da Música, livro de Thurston Dart editado pela Martins Fontes. Cheguei nesse título por indicação de uma amiga quando a perguntei sobre interpretação de repertório barroco.

Até então eu ainda não havia mergulhado profundamente nesse período musical. Mas, o barroco foi um período muito profícuo musicalmente, especialmente na Itália e na França, apesar de termos também grandes nomes germânicos representando a época – como Bach e Handel. E, neste mês, me deparei com um programa barroco, inteiro composto por obras de Vivaldi. Então, chegou o momento de observar como a música se dava na Itália de 1700.

Quando temos uma partitura dessa época em mãos é preciso estar ciente de que certamente ela já foi alterada. Nada sobrevive imune às mãos humanas que fazem algo viajar no tempo. É preciso olhar com bastante atenção tudo que está no papel, consciente de que não é possível fazer a música como se fazia, afinal, estamos em outro tempo e espaço, mas também é preciso conhecer como se tocava aquela música e o que aquelas notas intendem. Como alguém que restaura quadros de Caravaggio e sabe que não temos mais as mesmas tintas, os mesmos pincéis, o mesmo ar e o mesmo tempo, mas que tenta preservar ali a lembrança, a imagem, a poética e a alma de alguém que se entregou à arte.

Thurston Dart. Foto: reprodução.

Dart discorre sobre duas formas de interpretar música barroca – a francesa e a italiana. E sobre o estilo italiano ele aponta: “É menos sofisticado, com menos maneirismos, menos sutil e moderado do que o estilo francês. Apresenta bem menos problemas ao intérprete atual, principalmente porque a notação usada pelos compositores italianos quase sempre significa o que diz, de modo que não requer execução especial”.

Fiquei indignada. Quando penso em música barroca penso em elegância e esse sujeito está falando que o barroco italiano é menos sofisticado, o que isso significa? Rapidamente imaginei Luís XIV – o Rei Sol francês – e Fernando II de Médici – Grão-Duque da Toscana – e entendi o autor. O barroco se caracteriza pela ornamentação. Musicalmente isso significa que é uma música cheia de notas ligeiras e apelos auditivos afetuosos. E quando penso na nobreza francesa e na nobreza italiana (os pagantes de música daquele período), preciso levar em conta o que sei sobre eles, o que ficou registrado – sua aparência.

Menos sutil e moderado do que os franceses talvez seja algo que até hoje os italianos carregam em seu estereótipo. Falar alto, ser dramática e emocionada são características que, de fato, são associadas a uma nona italiana, por exemplo. E que curioso perceber que tudo o que fazemos marca quem somos, quando e como vivemos.

A música clássica, de concerto, sofisticada e requintada, fala de um povo. Faz parte de um modo de viver confeccionado por uma cultura específica, que entende ornamentação sutil por elegância e dramaticidade por extravagância. E as músicas compostas hoje, todas elas, contam tudo sobre nós.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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