31 dez 2021 - 8h45

“Não olhe para cima” e a culpa da imprensa

O filme é uma crítica social contundente, marcada pela atualidade, da qual a imprensa também não saiu ilesa

Sensação da Netflix, o filme Não olhe para cima, lançado no último dia 24, caiu nas graças dos brasileiros mais críticos ao governo Bolsonaro e aos movimentos negacionistas. O sucesso do filme, que lidera o ranking do serviço de streaming no Brasil, tem a ver com as várias semelhanças com nossa realidade, lembrada em redes sociais e nos artigos publicados em diversos jornais sobre o filme.

Mas há um aspecto que me parece mais importante a respeito do sucesso da produção. Me refiro à acessibilidade proposta pelo diretor Adam Mckay. O filme é fácil de ser compreendido, as caricaturas de personagens a pessoas reais e a construção de estereótipos é muito clara. Ou seja, não é um filme que exige um alto grau cultural. Além disso, é repleto de cenas hilárias, sátiras, grandes atores hollywoodianos e ótimos efeitos especiais.

É um filme que propõe o rompimento de algumas barreiras que se solidificaram nos últimos anos e que têm impedido o estabelecimento do diálogo entre grupos com posições distintas. É uma louvável tentativa de furar a “bolha” que aprofundou o fenômeno que vem sendo chamado como “pós-verdade”. O termo, segundo o dicionário Oxford, quer dizer “que fatos objetivos têm menos influência para definir a opinião pública do que o apelo à emoção ou às crenças pessoais”.

É como se todas as concepções ou aquilo que as pessoas entendem como verdade fosse determinado exclusivamente por aspectos emocionais e não racionais. A verdade, assim, estaria condicionada a percepções pessoais, tornando-se mais fragmentada, subjetiva e personalizável. É o que explica, segundo Silvânia Siebert e Israel Vieira Pereira, em artigo publicado em 2020, na revista Linguagem em (Dis)curso, os fatores que promovem a ascensão de teorias conspiratórias e o negacionismo.

Em países onde se verifica o uso intenso de redes sociais para consumo de informação, como é o caso do Brasil, estes fenômenos tendem a ser mais fortes. O maior uso torna as redes espaços mais disputados por atenção. Ao mesmo tempo, aumenta também a exposição do público a conteúdos que não estão filtrados minimamente por algum trabalho profissional, como dos jornalistas, para não falarmos da propagação de informações falsas, também chamadas popularmente de fake news.

Não olhe para cima é uma grande crítica aos movimentos anti-ciência. Mas não só isso.

O filme também expõe fragilidades sociais como as tentativas de descredibilização da mulher, os riscos da privatização das decisões governamentais, o carreirismo na política, a apatia a problemas sociais, entre tantos outros aspectos que poderiam ser citados.

Ao retratar a ciência, por meio das personagens de Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence, são evidenciadas também as fragilidades deste meio como a vaidade, o status diferenciado entre instituições de pesquisa e o descolamento em relação à realidade. Ao mesmo tempo, a ciência é também valorizada pelo filme, como demonstrado na fala final do Dr. Mindy, representado por DiCaprio: “O ponto é que nós realmente (ele pausa), nós realmente tínhamos tudo, não é mesmo? Quero dizer, quando você pensa sobre isso.” Ou seja, a ciência havia comprovado o fato, mas a maioria das pessoas não acreditou.

Grande parte do problema estaria no papel que a imprensa desempenhou no episódio.

Retratada de forma generalizada, por meio de um programa de variedade de televisão e um grande jornal do país, a imprensa é apresentada como aquela que faz coro com as redes sociais. As personagens do programa e do único jornal que se interessou pelo caso, são retratados como figuras que pouco crédito deram aos cientistas e que estavam mais preocupadas com a audiência do que com o problema. Assim, teriam também sua parcela de culpa na catástrofe.

Nesse sentido, Não olhe para cima é também uma importante ilustração do que não se deve fazer no jornalismo.

Em uma das cenas, uma analista de métricas apresenta os dados da repercussão em redes sociais comparando a participação de uma pop star, vivida pela cantora Ariana Grande, e a participação dos cientistas no mesmo programa matinal. Os dados apontavam uma movimentação muito maior do público em relação à cantora e seu relacionamento amoroso do que aos cientistas, que, aliás, foram ridicularizados.

O desfecho do filme vai mostrar que ao invés de se pautar por aquilo que o público quer saber, a imprensa precisa tratar daquilo que o público precisa saber.

A crítica é contundente e faz sentido em boa parte, mas esconde também a diversidade de casos e as relações de proximidade e legitimação entre jornalismo e ciência. Evidentemente, como todo filme de ficção, é preciso considerar a licença poética marcada pelo exagero e generalismo em relação à realidade. Mas nem toda imprensa age assim e temos exemplos no Brasil que provam o contrário. Em muitos casos, o jornalismo se impõe como uma das poucas instituições a intervir no espaço público impondo limites ao negacionismo, salvo exceções, é claro.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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