O tempo passa | Plural
3 jul 2019 - 8h00

O tempo passa

Diego Fortes questiona: como pode o tempo ser a medida verdadeira de alguém se é uma das dimensões mais maleáveis que se pode imaginar?

A passagem do tempo é uma das noções mais relativas que podemos experienciar. Recorremos a expressões como “falta de tempo” ou “tempo que não passa” para dar conta de um estado de urgência ou tédio. A percepção do tempo está ligada às expectativas de se estar num tempo futuro em que algo desejado irá acontecer ou a fugaz tentativa de “fazer o tempo parar” quando justamente estamos vivendo um momento especial. As comparações são infinitas: quanto tempo passa em sete horas de estrada e quanto tempo passa no mesmo período quando se está com a pessoa por quem estamos apaixonados?

Por isso, é curiosa a afirmação da personagem Sarah no espetáculo A Espera (sem crase mesmo) de que o tempo é a única medida verdadeira que ela possui. Nesta afirmação, cria-se um enigma: como pode o tempo ser a medida verdadeira de alguém se é uma das dimensões mais maleáveis que se pode imaginar? Talvez a resposta esteja na ideia da nostalgia como uma prisão, o tempo que não passa realmente, apenas se repete numa circularidade que mescla o passado frustrado e o futuro imaginário.

Terceira Sarah da carreira de Regina Vogue. Foto: Melito.

Regina Vogue, uma das grandes damas do teatro paranaense, vive sua terceira personagem chamada Sarah da carreira. A primeira foi em Bruxas de Salém (1990), dirigida por Marcelo Marchioro, e a segunda em A Outra (1993), dirigida por Raul Cruz, este último citado na própria dramaturgia. A Sarah de A Espera conta como se apaixona por Joaquim e como ele se apaixona por Maria, a irmã mais velha de Sarah. Depois de um tempo casados, Maria falece e, a partir daí, começa a espera de Sarah para poder ela mesma estar com Joaquim ou, como ela define de maneira simplória e tímida, “dormir sem roupa”.

Citado por Katia Canton no livro Tempo e Memória, o filósofo alemão Walter Benjamin compara o narrador com “a figura de um trapeiro, catador de sucata, esse personagem das grandes cidades que recolhe os cacos, os restos, os detritos. Movido pela pobreza, mas também pelo desejo de não deixar nada se perder, nada deve ser esquecido (…)”. Sarah é um desses narradores, uma personagem feita de cacos de memória de um estado aprisionador de aguardo e de esperança.

 

O autor Rhenan Queiroz e o diretor Maurício Vogue (filho de Regina) lançam mão de vários elementos para aludir à passagem do tempo como o andamento bastante compassado das cenas, os diversos degraus que a atriz percorre desde o começo da peça no hall do teatro – e depois no cenário – e a vontade de Sarah de que seu cabelo cresça mais rápido para se assemelhar com a irmã Maria, detentora dos olhares do homem amado.

O espetáculo ficou em cartaz desde o início do mês de junho no Teatro Ebanx Regina Vogue e fará uma nova semana de apresentações do dia 9 a 14 de julho, terça a sábado, às 21 horas, e no domingo, às 19h30. A entrada é gratuita e não tem necessidade de retirar o ingresso, é só chegar no teatro.

 

Programe-se

A Espera – Teatro Ebanx Regina Vogue (Av. Sete de Setembro, 2.775 – Rebouças, Curitiba) – De 9 a 14 de julho – Terça a sábado, às 21 horas, domingo, às 19h30. Entrada gratuita.

 

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