Claudete | Plural
26 jun 2019 - 1h00

Claudete

Diego Fortes faz uma homenagem a atriz Claudete Pereira Jorge

Conheci Claudete Pereira Jorge em 2000. Me lembro do entusiasmo de Marcelo Marchioro, diretor de quem eu era assistente, em finalmente ter a atriz na companhia Usina das Artes. Dizia ele que a considerava uma das melhores atrizes que já havia conhecido em décadas de profissão. Minha curiosidade foi levemente minada pela bronquice de Claudete, sempre muito defensiva e reclamona – mas só até a página 2. Ainda não conhecia a sua generosidade e seu acolhimento. O tempo passou, baixamos as guardas, e a amizade entre uma experiente e poderosa atriz e um assistente de direção, verde no teatro e na vida, se tornou uma das melhores lembranças que eu carrego do início da carreira.

Claudete era uma força, tinha um talento impressionantemente natural. Sua potente voz era conduzida pelo instinto e resultava em interpretações emocionais e elegantes. Passei algumas horas após os ensaios de À Grega (2000) e Pico na Veia (2005) ajudando a “madrinha” (como eu a apelidei) a decorar seus textos. Não me importava com o trabalho extra nem com a repetição, vê-la estudar era como assistir a uma aula de interpretação particular. Logo, vinham as temporadas e a confirmação de que estava diante de uma singularidade que criava cenas que se tornavam momentos inesquecíveis para o público.

No desejo de não ficar apenas nas minhas impressões sobre ela, pedi algumas palavras para outros nomes da classe artística que compartilham a admiração por seu trabalho e sua pessoa.

Ilíada – Canto 1. Crédito da foto: Gilson Camargo.

“Quando estivemos na Grécia, em 2007, logo que chegamos à Tessalônica, passeando pelo centro histórico da cidade, a Claudete se encantou com um Odeon do século I a.C. que tinha sido descoberto somente em 1960. A área, cercada com faixas para impedir o acesso dos pedestres, indicava que o local estava sob custódia do Departamento de Arqueologia. Era um pequeno anfiteatro, de arquitetura romana, que integrava um complexo maior, um fórum, construído entre 42 a.C e 138 d.C., segundo a placa. A Claudete adorou aquele lugar, ficou minutos em silêncio observando pensativa, olhou para mim e disse: ‘Eu quero fazer meu canto nesse teatro’. Achei a ideia genial, mas não sabia se conseguiríamos realizar, em tão pouco tempo, uma apresentação num sitio arqueológico que estava, aparentemente, fechado para visitação. Naquela noite, porém, durante o jantar com os artistas da Bienal, na presença dos organizadores da mostra e de autoridades locais, a Claudete levantou-se de surpresa e começou a recitar o canto 1 da Ilíada. Em poucos segundos, fez-se um silêncio mágico. O nome de Homero era cochichado em várias línguas entre os presentes atônitos.

Numa performance que durou cerca de 20 minutos, os convidados, sem entender uma palavra em português, viram o sacerdote suplicar pela filha e o rei recusar-se a entregá-la. Viram o velho rogar uma praga e o deus matar os gregos de peste. Viram Aquiles chamar o profeta e o profeta botar a culpa no rei. Viram Aquiles e o rei trocarem insultos. Por fim, viram Nestor, com sua voz hipnótica, apartar a briga. Viram todos estes acontecimentos através de uma interpretação em gesto e voz que transcendia as fronteiras da linguagem verbal.

Ao terminar foi aplaudida com grande entusiasmo. O Ministro da Civilização, assim era chamado o representante do órgão de cultura da cidade, veio até a mesa cumprimentá-la e colocou-se à disposição para o que precisasse, com olhar solícito. Claudete não teve dúvidas e mandou essa: ‘Quero dizer Homero no teatro mais antigo da cidade’.

Uma semana depois, em noite de lua cheia, estávamos apresentando o canto I da Ilíada no Agora Romano de Tessalônica, ao som dos sinos da Igreja de Santa Sofia.”

 Octavio Camargo, diretor e compositor.

 

Cartaz da performance Ilíada na Grécia.

“A coisa que mais me chamava atenção na Claudete era o seu mau humor risível, que é quase uma característica curitibana. Me identifico muito com isso. Reclama muito, mas tentando alcançar uma graça. Cenicamente, mesmo. Mesmo quando está na vida real.” (risos)

Alexandre Nero, ator e músico.

“Me lembro da primeira vez que eu fui à casa dela e havia aquele cachorro que ela tinha, o Hulk, um bull terrier enorme, um gigante de um cachorro, mas era um cachorro muito doce. E acho que isso diz muito sobre a Claudete.

Ela vinha ver a Helena [de Jorge Portela, sua filha, também atriz] em quase todas as apresentações da minha primeira peça Um Idiota de Presente e de uma maneira muito gentil me falava que não gostava da peça. (risos) Engraçado que vindo dela, aquilo não me machucava, sabe? Confiava muito nela, era muito justa.

A peça que eu fiz com ela e com a Helena, Final do Mês, foi muito marcante. Elas faziam juntas mãe e filha e ela se emocionava a cada apresentação. Pegava na mão da Helena. Ali, eu percebi que as duas tinham uma ligação muito forte mesmo.”

Alexandre França, diretor, escritor e músico.

Marido Vai a Caça. Crédito da foto: Andre Stephano.

“É pouco dizer que ela foi uma das melhores atrizes paranaenses. Ela foi uma das grandes damas do teatro brasileiro, sendo que dama do teatro, na minha opinião, são atrizes que trabalham, batalham, seguem atuando independentemente da situação política econômica, social do país por décadas.

Grande voz, porte, presença e conhecimento de palco à serviço da arte de interpretar, principalmente em palcos.”

Flavio de Souza, ator, escritor e roteirista.

“Foi uma atriz talentosíssima, uma amiga de muitos e muitos anos, minha comadre, parceira em algumas peças minhas (As Loucas e Os Lazarentos, Batimpaz, As Dinossauras, Pinha Pinhão Pinheiro) gente boa da mais alta qualidade! Saudade! Evoé!”

Enéas Lour, ator, dramaturgo e diretor.

Medeia. Crédito da foto: Karin von der Brodeski.

“A Claudete sempre foi muito agregadora. Sempre houve alguém morando com ela, um artista que precisava, alguém que não tinha pra onde ir ou por qualquer motivo, ela levava pra morar junto com ela. E eu fui uma delas. Ela gostava muito de estar entre as pessoas. Sempre tinha festa. Ela se preocupava muito com as pessoas, com o bem-estar das pessoas, sempre generosa em oferecer o que ela tinha para os outros. Uma pessoa com quem você podia contar. Sempre.

Quando nos conhecemos, eu era um jovem ator e ela me olhava horizontalmente. E assim ela olhava para todo mundo. Independentemente de quem fosse. Tão raro, né?”

Rodrigo Ferrarini, ator.

“Foi ela quem me ensinou a fazer bolinho de mandioca. Era uma excelente cozinheira! Inclusive, levava comida e doou um fogãozinho para o pessoal na época da Ocupação do Iphan (na ocasião do fechamento do Ministério da Cultura em 2016). Estava muito presente e sempre se misturou muito com a moçada mais jovem. Ela se integrava bem com as novas gerações, que também estavam muito impressionados com as apresentações que ela fez na ocupação. Ela tinha aquela voz, era uma coisa!”

Nena Inoue, atriz e diretora.

“Não trabalhamos juntas muitas vezes, a Crau e eu, mas a gente se admirava à distância. Até que aconteceu o Pico na Veia. Daí estive perto desta força da natureza, que era doçura e era dragão. Ficamos de repetir a dose, que pena, não deu.

A Claudete se dizia ‘cavalo louco’ solto em cena… Era não. Estudava muito. Enchia cadernos e mais cadernos escrevendo o texto (jeito que ela usava para decorar). E no camarim, fazia as mandingas do personagem [dela, não] antes de entrar em cena. Técnica e paixão.”

Silvia Monteiro, atriz, diretora e coordenadora do curso de Bacharelado em Teatro da PUCPR.

À Grega. Crédito da foto: Chico Nogueira.

“Nos conhecemos em Cascavel. Ela veio a Curitiba, começamos a namorar e num ensaio em que uma das atrizes faltou, ela leu o texto. Mas ela leu tão bem que para todo o elenco ficou evidente que era ela quem deveria fazer a peça. Foi assim que ela começou a fazer teatro.

Nós nos separamos em 2000, mas nunca perdemos amizade. Depois da separação, seguimos nos vendo e eu até falava da minhas outras relações para ela. As namoradas estranhavam como a gente se dava bem. A amizade pós-separação foi até mais intensa do que quando éramos casados.”

Nautílio Portela, ator e diretor com quem Claudete foi casada por 28 anos.

Nautílio e Claudete. Crédito da foto: acervo da família.

Recebi a notícia de sua partida como se tivesse tropeçado e caído de cara no chão. Levei um bom tempo desnorteado. Não havia concebido até então um teatro curitibano e brasileiro sem ela. Mas como todos os grandes, suas vidas continuam após a cortina.

Um testemunho do seu legado é a empreitada da Mostra Claudete Pereira Jorge, em cartaz desde 5 de junho e que vai até 7 de julho no Novelas Curitibanas. O histórico teatro recebe agora o nome da atriz como complemento, e passa a se chamar Teatro Novelas Curitibanas – Claudete Pereira Jorge. A mostra também é uma forma de celebrar esta homenagem e acontece em torno de seu aniversário, no sábado passado, dia 22 de junho.

Inauguração da placa em homenagem a Claudete Pereira Jorge no Teatro Novelas Curitibanas. Crédito das fotos: Luísa Bonin.

A programação traz peças, leituras, shows de música, uma exposição de fotos, a exibição de cinco curtas-metragens que tiveram a participação da atriz e uma oficina de libras. Evento de grande duração, foi curado por Helena de Jorge Portela, sua filha, Nautilio Portela, seu companheiro de vida e carreira e pelo produtor Igor Augustho.

Esta vasta programação é um esforço que surgiu do encontro de mais de cem artistas que toparam apresentar seus trabalhos num esquema de bilheteria “pague quanto puder”. Ou seja, não há um preço fixo no ingresso e cada um colabora com o valor que julgar apropriado ou mesmo dentro de suas possibilidades. Esta é uma forma encontrada pela produção de atrair um público maior e encher de vida o rol de apresentações artísticas reunidas sob o nome da gigante Claudete Pereira Jorge (1954-2016).

Claudete Pereira Jorge. Crédito da foto: Acervo da família.

 

Programe-se

Confira a programação das últimas duas semanas da mostra:

27 de junho (quinta)

20h – Amores Difíceis (Súbita Companhia)

28 de junho (sexta)

20h – Amores Difíceis (Súbita Companhia)

29 de junho (sábado)

19h – Pocket Show Márcio Mattana

20h – Amores Difíceis (Súbita Companhia)

30 de junho (domingo)

19h – Pocket Show Rodrigo Augusto Ribeiro

20h – Amores Difíceis (Súbita Companhia)

4 de julho (quinta)

20h – Porque Não Estou Onde Você Está (Súbita Companhia)

5 de julho (sexta)

20h – Porque Não Estou Onde Você Está (Súbita Companhia)

6 de julho (sábado)

19h – Pocket Show Alexandre França

20h – Porque Não Estou Onde Você Está (Súbita Companhia)

7 de julho (domingo)

19h – Pocket Show Sisthas Inna House com Anamaria Ribeiro, Katia Drumond, Renatha Schneider e Eduardo Ansay

20h – Porque Não Estou Onde Você Está (Súbita Companhia)

 

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