18 maio 2021 - 0h16

Um enorme quebra-cabeça

Na hora em que se acorda, tudo é muito confuso: não sabemos que estamos em um hospital, o que fazíamos da vida e, às vezes, nem o próprio nome

Apesar de me considerar inteligente, cognição não é o meu forte. Isso porque perdi muito dessa habilidade nos meus derrames. Intelectualmente eu posso fazer quase de tudo (assim como qualquer pessoa), porém, tenho limitações peculiares oriundas de um universo só meu: o quebra-cabeça da minha mente. Seja bem-vindo a ele.

Todos nós, assim que vamos adquirindo consciência, vamos aprendendo sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos cerca, e vamos transformando cada aprendizado em uma peça única em que montamos um enorme quebra-cabeça dentro do nosso cérebro. Algumas peças são básicas: como andar, engolir e falar. E, com o passar dos anos, vamos nos tornando mais habilidosos e capazes de encaixar peças mais complexas, como as leis da física, uma língua estrangeira e a capacidade de dar uma cambalhota. Quando se sofre um AVC (acidente vascular cerebral) ou um TCE (traumatismo cranioencefálico), o imenso quebra-cabeça que temos na cabeça entra em um violento turbilhão e todas aquelas peças, que demoramos uma vida inteira para encaixar, se desgrudam e se desmancham pelos ares.

Na hora em que se acorda, tudo é muito confuso: não sabemos que estamos em um hospital, o que fazíamos da vida e, às vezes, nem o próprio nome. Tudo fica vazio e sem significado. É nesse momento tão cruel e confuso que percebemos que o quebra-cabeça da nossa vida foi bruscamente desmontado, e que agora as peças estão descoloridas e sem encaixe. O que fazer?

A minha primeira ajuda foi com a psicóloga da UTI, que me disse o meu nome e tudo o que sabia sobre mim: basicamente que eu tinha 34 anos e havia sofrido um derrame. Em suas visitas, ela foi perguntando algumas coisas básicas sobre a minha vida, para que, junto com ela, recomeçasse a remontar as memórias da minha vida. Ela não era a única que me ajudava nesse processo: havia duas fisioterapeutas que me ensinavam a andar, mexer os braços e alguns movimentos mais empolgantes, como me virar de lado na cama, e uma fonoaudióloga que me ensinava a engolir líquidos e pedaços de comida, com o objetivo de me retirar da sonda nasofágica.  Elas foram as minhas primeiras ajudantes, numa época tão complicada para a minha cabeça, que até hoje não me lembro de seus rostos, nem de seus nomes.

Ainda faltava encontrar muitas peças do meu jogo de encaixe cerebral, e as peças que não encontrava eram substituídas por semelhantes, que deixavam o quebra-cabeça esquisito e pouco funcional. Foi assim que eu substituí o português pelo francês: eu queria me comunicar, mas não me lembrava como, não tinhas palavras. Porém, do nada surgiam alguns vocábulos que nomeavam as coisas e que, em um passado muito distante, serviram para eu me expressar. Então comecei a usar essas palavras sem perceber que elas eram francesas. Estava tentando encaixar as peças erradas na parte do quebra-cabeça da minha linguagem e com o tempo, fui percebendo que aquelas peças não eram naquele lugar, mas em outro. Bem, pelo menos já sabia que elas existiam e isso era um bom começo.

Quando se fala em lesão cognitiva, é comum pensarmos que o sujeito teve a personalidade ou inteligência afetada, mas nem sempre é assim. A lesão cognitiva nos impede de analisar as peças do nosso quebra-cabeça mental ao ponto de não conseguirmos identificá-las e encaixá-las. E a cola que a gente coloca em cada curvinha dessas peças se chama memória.

Todos nós temos vários tipos de memória, mas aqui eu vou falar de apenas duas: a recente e a antiga. A antiga, muita utilizada nas sessões de psicoterapia, são as lembranças da infância, da adolescência e da nossa vida no passado, são aquelas que nos dizem ser quem achamos que somos e o que construímos como a nossa história. A memória recente reúne as informações de tudo o que aconteceu horas e minutos atrás. É ela que nos dá a sequência das nossas atividades diárias, e sem ela ficamos estagnados: não nos lembramos do que precisamos comprar no mercado, de como voltar para casa e de como continuar uma conversa: perdemos “o fio da meada”. É justamente essa memória que perdemos numa lesão cerebral, por isso ficamos perdidos, inocentes ou desconfiados demais, já que sem ela perdemos muito da percepção, nos restando somente a intuição.

Um dos meus maiores desafios pós-AVC foi lidar com a perda cognitiva. Percebi isso logo nos primeiros dias em casa, ao ter dificuldade para fazer um simples café e ao jogar vários utensílios fora, por não me lembrar da utilidade deles. Esquecia palavras, nomes, pessoas, acontecimentos, e me sentia cobrada pelas pessoas próximas, que não tinham ideia de como as minhas peças estavam embaralhadas. Ninguém tinha culpa, afinal, a vida de todos continuava no mesmo ritmo, enquanto a minha estava parada.

Na tentativa de me organizar, fui voltando a escrever em um caderno de caligrafia dado por uma tia de quem gosto muito. Foi lá que descobri que me lembrava de muitas coisas e que tinha esquecido de outras: como desenhar a letra L cursiva e maiúscula. O engraçado é que quando eu comecei a me alfabetizar também tive essa dificuldade. A letra L maiúscula cursiva foi a última que aprendi a desenhar: ou seja, essa peça sempre teve um encaixe complicado na minha cabeça, desde a minha infância. Ainda hoje tenho vários problemas ortográficos ao escrever, e todos eles já estiveram presentes na minha vida acadêmica. Isso porque, independentemente do AVC, as peças da minha cabeça ainda são as mesmas: meu quebra-cabeça é único.

Há poucos meses fui abençoada com sessões de neuropsicologia em que aprendo muito sobre como lidar com as minhas limitações cognitivas, sobretudo em como manter a atenção necessária para sequenciar e executar as ações do meu dia a dia. Não é nada fácil porque o meu quebra-cabeça é incompleto e, devido à lesão, sempre será. Então, preciso lidar com as peças que ainda tenho e inserir outras que são os frutos do meu aprendizado pós-derrame. Pode parecer muito obscura essa visão de um quebra-cabeça para sempre incompleto, mas não se engane: é assim para todo mundo, até para quem nunca teve lesão alguma na cabeça. Ninguém tem o controle da vida, todos nós tentamos encaixar as peças que enxergamos nos nossos quebra-cabeças, enquanto buscamos as que faltam. Todo mundo tem uma certa carência de insights; todo mundo é um pouco desmiolado. 


Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias