20 out 2021 - 8h00

O bloqueador

Nem todos que sofrem AVC isquêmico sentem dor de cabeça no momento do acidente, mas sentem mal-estar, e, por isso, é tão importante acreditar na percepção da vítima

Popular, silencioso e corta-prazeres: o AVC isquêmico é caracterizado pelo bloqueio da passagem do sangue para uma parte do cérebro, prejudicando o seu funcionamento. Foi ele que finalizou o terceiro ato da minha ópera da quase morte.

Provavelmente na madrugada do dia 23 de maio de 2019, quinta-feira. Estava no meu provável último dia de UTI pós AVC-hemorrágico. Tinha ido dormir feliz, porque estava me recuperando bem da cirurgia e iria para a enfermaria na manhã seguinte. Seria o fim daquele terrível pesadelo. Comecei a sonhar um sonho estranho, em que tinha me levantado da maca, saído do hospital e caminhado até a Rua XV, uma clássica rua do centro de Curitiba, para passear nela em sua madrugada caótica.

A Rua XV é bem antiga, com algumas lojas tradicionais, sendo que uma delas – a Casa Edith – ainda vende roupas antigas como fraques e cartolas. Eu, em meu sonho, aproveitando de meu estado meio “fantasma” e sem pés, atravessei a vitrine desta loja e comecei a procurar por uma cartola de veludo verde, que depois de algum tempo, finalmente encontrei. E assim, com a cartola em mãos, orgulhosa da minha aquisição sem pagamento, fui desfilando pela rua entre os bêbados e as prostitutas marginalizadas da fria madrugada paranaense. Dentre esses espectros, de vez em quando se misturavam figuras hospitalares com seus pijamas azuis. Nada anormal para um cérebro pós-cirúrgico entorpecido de remédios fortes.

Ao terminar minha travessia na famosa Rua das Flores, resolvi finalizar meu passeio até o Teatro Sesc da Esquina, onde um homem com terno de veludo verde esperava a sua cartola que eu havia recém-furtado da loja. Quem disse que fantasma não prega as suas peças? Tudo de certinha que fui em vida, resolvi ser exatamente ao contrário em minha morte. Chegando lá, pensei que seria bem-recebida por minha traquinagem, mas o homem estava com o semblante sério, pouco amistoso. Ao entregar a cartola, ele me olhou fixamente nos olhos e disse: chame o Márcio. Indaguei o motivo para eu chamar o enfermeiro de plantão no turno daquela madrugada, e o homem me respondeu: você está morrendo. Era o AVC isquêmico.

Acordei com uma dor de cabeça absurda, e obediente que sou, chamei pelo famoso Márcio. Ele demorou e comecei a gritar. Já tinha esperado muito pelo AVC transitório, muito pelo AVC hemorrágico, não iria mais esperar para ser socorrida, afinal estava numa UTI, não é mesmo? O enfermeiro chegou e tentou me acalmar com um medicamento para a dor e me levou para a tomografia. Não havia mais muito o que fazer e, de certo modo, todos já meio que esperavam por isso, havia trinta por cento de chances de ter outro AVC depois da minha primeira cirurgia.

A causa do meu AVC isquêmico se deu por causa de um vasoespasmo, que é o estreitamento dos vasos sanguíneos do cérebro pelos miolos inchados pelo excesso de sangue do AVC hemorrágico. Apesar de o sangue ter sido drenado por dias na UTI, ainda havia sangue no cérebro, e este continuou inchando ao ponto de bloquear um dos vasos sanguíneos, fazendo com que o sangue parasse de irrigar parte do meu cérebro, causando mais um acidente vascular cerebral. Quem passa pelo tipo de cirurgia que passei, corre esse risco durante dez dias. Depois desse tempo, o risco se dissipa porque o próprio corpo dá conta do recado com os medicamentos para diminuir o inchaço. Tudo estava indo muito bem, eu já tinha voltado a falar e até a dar os primeiros passos, só que no nono dia eu tive o tal vasoespasmo. No nono dia. Eu sei, já passei noites pensando nisso. Tinha que ser.

O AVC isquêmico é o mais comum dos AVCs, ele pode acontecer em qualquer idade e por diversas causas: um coágulo, uma dissecação, uma gordurinha que fechou um vaso cerebral. O fato é que há um bloqueio da passagem de fluxo de sanguíneo e toda a área não irrigada é prejudicada, o que faz da isquemia uma roleta-russa não por sua causa, mas pelo local onde ela acontece. Há pessoas que têm um AVC isquêmico numa região pequena, quase capilar, e consequentemente, as sequelas são menores. Já outras têm a obstrução num vaso importante e têm grande parte do cérebro comprometido: é o que chamamos de AVC isquêmico extenso, e nesses casos, as sequelas são devastadoras.

Nem todos que sofrem AVC isquêmico sentem dor de cabeça no momento do acidente, mas sentem mal-estar, e, por isso, é tão importante acreditar na percepção da vítima. No meu caso, senti dor porque vasoespasmo dá dor mesmo (e porque fui ajudada pelo meu amigo fantasma bem-vestido, não vou deixar de creditá-lo). Mas, por não me tirar a consciência, o AVC isquêmico foi o que mais me causou trauma psicológico, pois pude constatar todo o terror de perder os meus movimentos e minhas capacidades linguísticas. A sensação foi tão traumática que até hoje ela é abordada nas minhas sessões de terapia.

Talvez pela presença da consciência ou por já ter experiência em AVC (afinal, foram três em aproximadamente quinze dias), tive a percepção de que o isquêmico diminuiu muito mais as minhas funções motoras: o meu braço ficou visivelmente mais encurvado e minha perna esquerda também. Eu não tinha mais condições de ficar em pé mesmo com ajuda, e precisei ficar o tempo todo acamada ou na cadeira de rodas. Também tinha muita dificuldade em me expressar em português (tendia a escolher palavras francesas – minha segunda língua) e não entendia tudo o que me falavam. Também percebi que, depois do AVC isquêmico, os médicos começaram a examinar a minha visão esquerda, justamente porque a parte que me foi prejudicada é a da visão deste olho. Realmente nunca mais foi a mesma coisa.

Vou ser sincera. Nessa altura do campeonato já estava cansada de AVCs e aceitei a última cirurgia (vasoespasmo só se conserta com cirurgia) no “tudo ou nada”, porque foi muito difícil aceitar as perdas pela terceira vez. Acho que ninguém sabe lidar muito bem com perda, ainda mais quando é o nosso corpo, que é o alicerce dos nossos sonhos e ambições. E presenciar o passo a passo dessa série de revezes foi demais para mim, meu otimismo já tinha ido pelo ralo. Mas, as coisas deram certo, a cirurgia deu certo e, finalmente, saí daquela UTI. Porém, minha vida nunca mais foi a mesma. Meu sorriso ficou tortinho por um tempo, meu andar manco, comecei a frequentar neurologistas, a tomar remédios pesados e a dar meu endereço e número do documento quando vou comprá-los. E se fosse só isso, seria tudo menos pesado.

Lidar com um AVC, seja ele transitório, hemorrágico ou isquêmico, envolve lidar com traumas emocionais, não é apenas o físico. Não é como torcer um pé. Quem dera fosse. É preciso muito tempo e muito amor para reconstruirmos o nosso movimento, o nosso espaço e a nossa vida. É um tempo e um amor que não temos dimensão do quanto será necessário quando estamos no início do caminho, porque é um percurso muito maior do que possamos imaginar. Literalmente é muita coisa para a cabeça. Todavia, se a cabeça sobreviveu a um AVC, significa que ela pode se recuperar. Pois é, o otimismo voltou.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

3 comentários sobre “O bloqueador

  1. Camila, tenho 81 anos e acho que passei por um AVC leve na semana passada. Tive uma tontura importante mas depois que descansei a tontura passou. Falei com meu medico cardiologista da possibilidade de AVC e ele achou que se tratava de algo para me preocupar.
    Gostei do teu texto e vou ficar mais alerta sobre a possibilidade desse mal terrivel. Espero que você tenha uma muito boa recuperação. Boa sorte. Cesar Cusatis

  2. Parabéns por essa coluna tão bem escrita. Acho difícil que alguém que não tenha sofrido do problema pudesse ser tão detalhista.

  3. É impressionante os recursos que nosso cérebro usa para expressar algo, como o homem de verde a quem você levou a cartola verde no sonho. É uma fantasia muito elaborada surgida do próprio corpo.

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