Estigma - Jornal Plural
1 set 2021 - 8h30

Estigma

Talvez muitos sobreviventes de um AVE não saibam definir o significado da palavra “estigma”, mas todos eles temem ser estigmatizados

Toda história tem dois lados: a do vilão e a do mocinho. Enquanto desfrutamos de uma série de evoluções tecnológicas na nossa evolução, ainda nos deparamos com barreiras sociais bizarras que prejudicam todo ser que é diferente, inclusive um sobrevivente de AVC: o estigma.

Annelies tinha cerca de quinze anos quando foi tatuada. Esta simples ação de fixar tinta na pele, tão ancestral e tão comum aos nossos olhos, na visão da adolescente era mais um sinal que a classificava como inferior, marginalizada e indigna de apreço, de valor. Era mais um sinal de estigma.

Estigma, basicamente, é uma marca ou sinal que indica que alguém é indigno, desonroso ou com má reputação. Sabe a caça às bruxas na era medieval? Naquele tempo, era comum desnudarem uma mulher acusada de bruxaria em busca de qualquer sinal de nascença que pudesse comprovar que ela estava marcada pelo inimigo de Deus. O que hoje nos parece injusto, (quem é que não tem uma pinta pelo corpo?), na época era visto como uma das provas mais visíveis e sólidas para condenar alguém à fogueira. E assim foi por muitos anos. Nesse caso, a pinta é um tipo de estigma, mas esse termo não se restringe somente a uma marca de nascença. Ele também pode abranger uma tradição, uma religião, um pensamento. Basicamente tudo o que for diferente, e claro, todo e qualquer tipo de deficiência.

Talvez muitos sobreviventes de um AVE não saibam definir o significado da palavra “estigma”, mas todos eles temem ser estigmatizados. Qualquer ser humano tem esse medo em seu código genético, já que a nossa história não designa os melhores finais para essas pessoas. Pelo que se sabe, na Grécia antiga, qualquer pessoa que nascesse ou adquirisse uma deficiência, era imediatamente condenada à morte, pois não havia espaço para ela numa sociedade em que a perfeição era prioridade. Se você acha que esse tipo de situação só acontecia em tempos bárbaros, é um terrível engano. Ao invés da morte, hoje as pessoas estigmatizadas são condenadas ao isolamento. Não é à toa que no Brasil ainda é questionada a inclusão de crianças com deficiências em salas de aula, com o argumento de que elas podem atrapalhar o ensino dos demais. Não se engane, o isolamento é uma forma cruel e covarde de matar um ser humano, pois o impede de evoluir e se aperfeiçoar.

Após os meus acidentes vasculares cerebrais, não saí com apenas uma, mas várias marcas, que abrangem: duas cicatrizes na cabeça, um andar manco, problemas visuais no olho esquerdo, um lado do corpo mais frágil e uma grande incredulidade dos outros perante as minhas capacidades intelectuais. Por mais que me recupere ao longo dos anos, não acredito que meu corpo e minha mente voltarão a ser exatamente como antes. Também pudera, isso não é possível para ninguém, a vida sempre arranjará um jeito de nos transformar.

Assim como todo sobrevivente, demorei um tempo para perceber que a minha vida havia mudado. Como fui recuperando a fala e o andar com relativa rapidez, cheguei a acreditar que aquela história de derrame era apenas um pesadelo, e que, em breve, eu voltaria a ser exatamente como era antes, até eu ver a tomografia do meu cérebro com um enorme buraco do lado direito. Naquele momento a ficha caiu, e me dei conta de que uma lesão cerebral é para sempre, assim como uma tatuagem nos tempos de Annelies.

Até então não me considerava uma pessoa vaidosa, mas vendo aquela tomografia descobri que a minha vaidade estava conectada à minha inteligência, e para mim, naquela época, uma pessoa sem uma parte do cérebro não poderia ser inteligente. Meu mundo caiu, me senti limitada, sem futuro, e chorava todas as noites me chamando de “desmiolada”. Com essa dor, veio a raiva e a revolta pela injustiça de ter sofrido um AVE tão nova e ser condenada a uma vida sem futuro. Não foram dias fáceis. Aos meus olhos, minha mão esquerda se tornou mais fechada, o meu mancar mais visível e todo o meu lado esquerdo mais torto.

Fui muito cruel comigo mesma, porque meu olhar sobre as minhas deficiências era tão limitado ao ponto de me estigmatizar e me condenar a um calabouço medieval ou a um campo de concentração mental. Porém, meu cérebro machucado voltou a ter ideias e me dei ao luxo de escrever o que sentia. E tive oportunidade para isso, já que as redes sociais estavam logo ali, ao alcance dos meus dedos. Assim, a menina manca, que tinha tido AVC e operado duas vezes a cabeça em menos de um mês começou a ter voz. E de repente outra ficha caiu: percebi que, por ter nascido sem deficiência, criei em minha mente a ideia limitante de que uma pessoa com menos massa encefálica era inferior. Logo eu, a menina tão intelectualizada, era preconceituosa. E ao adquirir deficiências, fui forçada a provar do meu próprio veneno.

Um dos benefícios de ter sobrevivido a dois acidentes vasculares cerebrais foi ter aprendido o quanto estava errada a respeito das limitações do ser humano. Se hoje tenho sequelas, percebo que antes minha limitação era muito maior na arrogância de separar as pessoas em caixinhas físicas e intelectuais. Nem eu mesma sabia que era tão mesquinha, englobada na minha frágil superioridade de pós-graduada em duas áreas de estudo. Coitada de mim, mal sabia que um ser humano pode ser tão ilimitado ao ponto de não ter uma, mas várias áreas de atuação.

Nunca teria começado a escrever se não fosse a terrível angústia pós-AVC, mas precisava colocar para fora aquele universo no qual eu tinha caído, cheio de dor, coragem e duros aprendizados. Escrever também era importante para Annelies, a adolescente recém-tatuada do início do texto, que escreveu um diário relatando um dos tempos mais sombrios da história, e não teve a oportunidade de escrever outras histórias ou de usufruir de sua fama de escritora. Anne, como gostava de ser chamada, foi estigmatizada ainda muito cedo, não por ter alguma deficiência, mas por ser judia. Foi impedida de estudar, de sair às ruas e de ter sonhos. Ela e sua família tiveram que se esconder em um sótão até serem achados e presos, tendo como único crime serem quem eram. Esta é mais uma atrocidade do estigma: destruir uma pessoa por ela ser quem é. Anne e sua irmã Margot foram enviadas para um campo de concentração, onde tiveram seus cabelos raspados e receberam a cruel tatuagem que as designava somente como uma série de números. Assim, a ilimitada Anne Frank foi impedida de estudar, de ir e vir, de viver e de sonhar, mas não de brilhar, nem mesmo após a sua morte.

Apesar de a história dela ser única, há muitos fatores comuns aos exemplos citados que norteiam as várias faces do estigma: a retirada de direitos, a falta de amparo social, a inexistência de oportunidades… Todas elas são barreiras que fortificam o preconceito e mantêm a nossa sociedade injusta e fechada às diferenças. Os estigmas não são lógicos porque eles ignoram a incrível capacidade do ser humano de se reinventar, exatamente o que torna a nossa espécie tão bela. Todo estigma é uma invenção bizarra de uma sociedade que desconhece a capacidade de seus indivíduos. E, apesar de sua tradição horrenda, é triste que ele continue a limitar pessoas, mesmo não havendo nenhuma prova em seus argumentos superficiais, que apenas revelam a sua verdadeira essência: a mentira.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

2 comentários sobre “Estigma

  1. Camila Fabro!
    Vc é um gênio e exemplo de neurosuperação.
    Todos tem q acompanhar sua história!
    Sou sua Fã incondicional!
    🤝🤝🤝🤝🤝👏👏👏👏👏👏👏👏👏

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias