A mulher avcista | Jornal Plural
9 mar 2021 - 1h00

A mulher avcista

O nosso corpo, a estrutura da nossa vida, de repente falha, e com ele todos os projetos caem por terra também

O dia da mulher é uma data política e é impossível não homenagear as mulheres que, em todo mundo, lutam pela sua independência e amor-próprio após um AVC. Aquelas que superam o insuperável e que são capazes de se autogerarem para ter de volta a vida. Feliz dia da mulher para as mulheres avcistas.

Uma célebre filósofa chamada Simone de Beauvoir escreveu a frase: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Apesar de enigmática, toda mulher no fundo sabe o que essa frase significa: o mundo é feito para homens, são os filhos mais cobiçados, as crianças mais mimadas e aqueles que provavelmente receberão os cargos tão almejados. E apesar de estudarmos e nos esforçarmos muito mais, a cultura sempre nos coloca no máximo na segunda posição.

Louise Bourgeois, um dos poucos nomes femininos que chegaram ao topo na história da arte, dedicou-se por um tempo a imagens da mulher como lar: o recanto de eterno amor e acolhimento. Dentre suas esculturas consagradas, esculpiu enormes aranhas, como o símbolo feminino do tecer da vida, que, assim como uma matriarca, entrelaça os fios da intimidade e monta as histórias da família. Em suas obras, Bourgeois enfatiza a figura da mulher, a casa lar que forma cada filha ou filho em seu ventre e os nutre de amor e sangue antes de lhe dar a vida.

Nós, mulheres avcistas, quando nos tornamos avcistas, em menos de um segundo (um tempo muito curto para qualquer filosofia) perdemos o nosso bem mais precioso: o corpo. E com a paralisia desse corpo, temos a noção de que toda a nossa existência depende dele. Perdemos a liberdade (a possibilidade do ir e vi); perdemos a intimidade (porque ficamos por um tempo incapazes do autocuidado, que fica à mercê de terceiros); perdemos os relacionamentos (tendo em vista que a maioria das mulheres se separa logo após o acidente vascular cerebral); e, em alguns casos, perdemos a família inteira devido a nossa impossibilidade física de a cultivarmos.

Com o AVC, o nosso corpo – a nossa casa lar – desmorona. O nosso corpo, a estrutura da nossa vida, de repente falha, e com ele todos os projetos caem por terra também. Porém, assim como aprendemos a nos tornar mulheres, depois do acidente, por conta de uma força do além ou do destino, também aprendemos a nos tornar avcistas. A ficha cai e a gente entende que precisa se recuperar. Precisa mais uma vez superar o insuperável, não acreditar no que mostra a tomografia, nem no que dizem os médicos. Parece uma missão impossível para quem sempre ficou em segundo lugar, ainda mais sem apoio, algo muito comum aos homens, mas sempre negligenciado às mulheres.

Só que esse mundo tão ríspido e masculino se esquece que nós, mulheres, temos o dom de gerar a vida, não só em nosso ventre, mas no nosso espírito, talvez a única coisa que fica intacta depois desse avassalador acidente cerebral. Talvez esse seja o nosso milagre, porque o nosso caminho de recuperação passa pelo caminho de geramos a nós mesmas.

Porque é preciso muito amor e dedicação. É preciso amor ao corpo machucado, mesmo ele estando agora tão longe do aclamado padrão social. É preciso se colocar como protagonista, mesmo com o mundo dizendo que este não é o seu lugar. É preciso falar, mesmo sem vocabulário para voltar a ter voz, e é preciso andar sem medo de cair, mesmo com as pernas bambas.

Eu, esta que vos escreve, só descobri a verdadeira coragem depois do AVC, porque para enfrentar a morte, meus caros, não se deve ter medo de morrer, nem de perder, nem de arriscar. É preciso confiar em si mesma, na sua luta, na sua história. É preciso ir contra todos os diagnósticos, todas as propagandas e todos os abusos, e se recolher, se gerar e se nutrir para, a partir disso, se dar a possibilidade de renascer.

Já conheci grandes mulheres nesta vida, mas nenhuma delas tinha a incrível capacidade de se refazer como uma mulher avcista. Se Beauvoir e Bourgeois conhecessem a força de uma mulher avcista, com certeza teriam muitas mais histórias para contar. Que sorte a minha.


Para ir além

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